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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Indumentaria da Mulher da Gafanha

Agora que a época Folclórica acabou, vamos voltar a transcrever alguns textos publicados sobre a nossa região. Desta vez sobre a indumentária da mulher na Gafanha, texto este retirado da Monografia da Gafanha do Padre João Vieira Rezende.

Digamos também alguma coisa sobre as fases por que tem passado a moda, no que diz respeito ao vestuário rudimentar dos povos da Gafanha. Ao extravagante e ridículo da moda, que os alfaiates de Paris têm lançado no mercado do mundo inteiro, não pode subtrair-se também a mulher moderna da Gafanha, que tem sido sua escrava, sujeitando-se com agrado às suas oscilações e caprichos. A rapariga da Gafanha está hoje a competir com raparigas de outras terras, nesta questão da moda, e se noutros tempos era vaiada fora da terra com epíteto de Gafanhoa pelo seu desajeitado vestir, hoje já não passará por essa humilhação, porque as iguala quando as não ultrapassa. Deixemos por agora a modernizada rapariga da Gafanha, toda entregue a esses tolos devaneios da sua fantasia, incendida pela moda amoral que veio da fora, e digamos alguma coisa sobre a arcaica indumentária das suas ascendentes, cheias de dignidade e de veneração. Nesta resumida exposição vamos seguindo as informações que nos foram fornecidas por pessoas de idade mais provecta.

Chapéu
O primeiro tipo de chapéu de que temos noticia é o Chapéu de Presilha e de abas tão largas que, para não desabarem sobre os ombros, tornou-se necessário segurá-las ou prende-las com fitas ou presilhas que, partindo do rebordo das mesmas abas, as iam segurar à copa exteriormente e em toda a volta dela. Colocado sobre uma mesa de tamanho regular, este chapéu ocupava-a totalmente.
Chapéu de presilha

Boas leituras.

Até breve.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Vale de Açores – Mortágua


É já no próximo sábado que nos deslocamos a Vale de Açores, Mortágua, à XIX Gala Internacional de Folclore. Aqui fica alguma informação sobre o grupo e a região.
Concelho de Mortágua

Habitado desde épocas mais remotas, o Concelho de Mortágua teve o seu primeiro Foral em 1192. Este diploma foi atribuído pela Rainha D. Dulce, esposa de D. Sancho I e marca a data de fundação do Município.
A nossa Vila constituiu, desde então, um verdadeiro Município de Direito português com magistratura privativa (judex), com funcionários locais e delegado do rei dominus terrae, investido de poder civil e militar.
Seguiram-se-lhe dois outros Forais, o 2º atribuído por Gonçalo Anes Sousa, em 1403 e o 3 º, pelo Rei D. Manuel I, em 1514.
Diz a história que Mortágua terá sido resgatada aos mouros por Fernando Magno mas, provavelmente, milénios antes já estas terras teriam sido ocupadas. Alguns vestígios de um castro pré-romano localizados nas proximidades do Santuário do Senhor do Mundo, parecem indicá-lo. Dos árabes é certo, pois ficaram na toponímia local algumas sonoridades: Alcordal, Almaça, Almacinha...(Aldeias do concelho de Mortágua)
Há ainda lugares que para sempre nos ajudam a perceber a história natural e humana destas terras. São nomes ligados ao lugar que os mouros ocupam no imaginário popular, ou nos falam da graciosidade do coberto vegetal antes das profundas modificações que a Barragem da Aguieira e novas formas de economia florestal introduziram no terreno.
Mas se do Santuário do Senhor do Mundo, dos Moinhos de Sula ou da Moura na Serra do Buçaco, ou da Serra do Caramulo, o azul do céu parece infinito, são as águas azuis da albufeira da Aguieira que, em Mortágua marcam a paisagem.
De barco, água dentro, os recantos da barragem são paradisíacos. Há locais que só os pescadores parecem conhecer, mas contra o Sol lá estão as suas silhuetas expectantes. Ao fim de um dia há sempre histórias de boas pescarias.
Há quem vá para a albufeira por um bom banho de Sol...e há quem descubra todos os seus recantos de canoa.
Há ainda pequenas ilhotas na albufeira. Ancoradouros temporários para a descoberta de locais também temporariamente só nossos. É por este imenso lago azul que os visitantes se deixam seduzir.
Gastronomia e Artesanato

Zona de transição entre a Beira Alta e o Litoral, Mortágua não deixa de ganhar com este seu posicionamento.
Especialidade deste Concelho é a tradicional chanfana. Mas para além desta especialidade há também o bolo de cornos ou bolo doce da Páscoa que como o nome indica é característico da Páscoa, a broa de milho e o pão de trigo cozidos em forno de lenha, a cebola com mel, e pelo Natal surgem as filhós de abóbora menina.
Costumes e tradições que se transmitem séculos após séculos numa paisagem cheia de encantos e bucolismo. São autênticas preciosidades acumuladas graças ao saber transmitido pelos homens que ninguém quer esquecer ou ignorar.
Região habitada desde a mais remota antiguidade, Mortágua alberga no seu seio um saber infindável, no qual o artesanato tem a principal expressão. A olaria é a actividade por excelência de um grupo de artesãos que teima em manter viva a tradição do barro vermelho: Cerâmica vistosa que se admira e conhece um pouco por todo o país. A cestaria e o tear são outras das actividades que ainda se mantêm vivas no nosso concelho.

Pequeno Historial do Grupo

Num vale que tem como moldura as serras do Bussaco e do Caramulo, e se debruça sobre os panoramas da fértil veiga de Mortágua, salpicada por pequenas colinas e gracioso casario branco, abraçando a pureza das centenárias aldeias de xisto, berços genuínos de tradições populares, situa-se o lugar de Vale de Açores. Foi nesta encantadora aldeia, local de pernoite de Duques e Reis, que em 1978 nasce o Rancho Folclórico e Etnográfico de Vale de Açores.
Com o intuito de salvaguardar o passado e as suas tradições, conscientes da pureza e do valor do folclore do nosso concelho, este grupo dedica-se a uma criteriosa recolha de costumes e tradições do povo da sua região, quer no campo musical, nas danças, nos cantares, nos trajes, bem como nas lendas, orações, mézinhas, contos, não descorando a preservação do ainda património histórico. Pela sua seriedade e pureza, estas recolhas conferiram ao Grupo o estatuto de fiel representante do folclore desta região, que se situa no centro do triângulo que compreende Aveiro, Coimbra e Viseu.
É pois, na sua autenticidade e fidelidade ao passado, que reside a força do seu folclore, valores estes que lhes permitiram a sua filiação como Membro e Sócio Efectivo na Federação do Folclore Português e na AFERM - Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego. Filiado no INATEL, é galardoado no ano de 2002 com a Medalha de Ouro de Mérito Municipal.
Numa zona de transição entre a Beira Alta e a Beira Litoral, a tradição enraizou no povo da nossa terra, danças e cantares que vêm dos finais do século XIX e princípio do século XX, das desfolhadas, dos serões, das espadeladas do linho, das danças aos domingos nos adros e terreiros, ou mesmo na fonte, das romarias à Senhora de Chão de Calvos, ou ao São Salvador do Mundo, destacando-se as Modinhas de Roda, de movimentos mais lentos com mímicas variadas e outras em coluna, os Viras, a Tirana, o Fado Mandado, entre outras.
A sua participação em Festas, Romarias e Festivais Nacionais e Internacionais de Folclore de norte a sul do país, incluindo as Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores e as mais variadas vezes que tem representado Portugal no estrangeiro, nomeadamente, Espanha, França, Luxemburgo, Sérvia, Itália, tem contribuído para a divulgação da verdade e fidelidade das tradições etnofolclóricas da nossa região.

Informação retirada do sitio do Rancho Folclórico e Etnográfico de Vale de Açores.
Boas leituras
Rubem da Rocha

sábado, 3 de julho de 2010

Superstições e Crendices - VII

– Uma História de lobisomens
O Janicas, já falecido, era pessoa simples e honesta. Era lavrador. Ficara sem pai ainda criança com um irmão mais novo e foi criado pela mãe, a Ti Albertina Janicas. Casou já “entradote”, como ele dizia.
Claro que namorava muitas cachopas mas só encalhou com a Laura, natural de Vagos onde vivia. Ia namorá-la à noite, às terças, quintas, sábados e ao domingo de bicicleta.
Contava ele:
“Já havia uma estradita de terra batida que ligava a Gafanha da Boavista a Vagos e como de costume lá fui namorar a Laura de bescleta. As casas eram poicas e ali nos cardais, a partir do pontão nem habia casa nenhuma. Não habia luz, o caminho era escuro, negro com’o breu. Nunca acontecera nada, mas naquela noite já binha p’ra casa e ali na altura dos Cardais, na Quinta da Palmirinha, sinti uma coisa sempre atrás de mim e pus-me a pedalar mais; mas, o raio da bescleta parecia que nem andava, canto mais eu pedalaba, mais a coisa corria. Parcia-me passos de animal e logo pensei: - Ó é alma penada ó balisome.
Só sumbe o que era qu’ando cheguei a casa saí da bescleta e abrim o portão. A coisa ainda introu primeiro ca mim – era o cão que partira o cadeado, fugiu e foi ao meu encontro.”
Nem estas evidências demoviam a crendice deste povo que, a par da sua profunda e convicta fé e religiosidade, era muito supersticioso, acreditando em poderes estranhos e que muito temia.

– Os Amuletos
Amuletos eram objectos que as pessoas traziam consigo e aos quais atribuíam qualquer virtude ou poder de protecção.
As pessoas adultas usavam ao pescoço, bem escondidas, por vezes presas com alfinete de segurança na roupa interior ou penduradas numa fita umas saquinhas com “armações”; usavam também uma argola de aço e, muitas pessoas mandavam fazer um anel também de aço, com o signo-saimão ou uma estrela com o número ímpar de pontas, esculpidos. Este anel nem sempre era usado no dedo, mas junto à saquinha da armação.
As crianças usavam também amuletos: signo-saimão, figas meias luas, corações, chifres de azeviche para ficarem protegidas das bruxas, do mau-olhado e de todo o mal de inveja.
Ao trazer estes amuletos consigo, o povo chamava “andar armado”. No carro de bois ou na carroça das vacas os lavradores penduravam por baixo, um par de chifres ou “cornos”, como o povo dizia. Na porta da cozinha, no portão e também nas portas dos currais do gado, pregava-se uma ferradura. Todos estes amuletos eram usados só depois de levarem a “benzedura ou reza”, feita por uma mulher de virtude; se assim não fosse, não produziriam efeito, isto é, não teriam poder para afastar e impedir o mal rogado e desejado pelos invejosos ou afastar os espíritos maus.
In “Gafanha…o que ainda vi, ouvi e recordo”, da Sr.ª Professora Maria Teresa Reigota.
Boas leituras
Rubem da Rocha

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Ponte de Sor

É já no próximo sábado que nos deslocamos a Ponte de Sor. Aqui fica alguma informação sobre a cidade.

RETALHOS DA SUA HISTÓRIA:
Ponte de Sor, com uma área de 17.042 ha, é a sede de um concelho constituído por sete freguesias, tendo sido elevada a Cidade em 8 de Julho de 1985. Com uma história importante no contexto do território português, lidera os destinos de um vasto território e de milhares de pessoas.
Foi um território importante desde a época romana, estando integrado na terceira via militar romana que, de Lisboa, se dirigia a Mérida. Parece datar desta altura a fixação do nome da terra, devido à existência de uma ponte, construída por aquele povo, sobre o rio Sor. Terá sido erguida no terceiro milénio depois de Cristo, no tempo do imperador Marco Aurélio Probo, constituindo-se então no maior monumento de toda a estrada romana até Mérida. Tinha dez arcos de volta redonda, muito semelhantes aos da Ponte de Seda, ou Vila Formosa. Apesar de forte, já não existia em 1438, aquando do início da construção das muralhas da vila. Segundo alguns autores, aqui se situava a cidade de Matusaro.
A nível eclesiástico, Ponte de Sor pertencia à Ordem de Cristo. O território onde está edificada hoje a cidade de Ponte de Sor foi possuído inicialmente pela Ordem dos Templários, que através de várias doações da coroa dominavam territórios que iam até Abrantes. Iria passar para a Ordem de Malta e para a dependência administrativa de Abrantes durante o reinado de D. Afonso IV.
Em 1527, segundo o "Cadastro da População do Reino", ordenado por D. João III, Ponte de Sor tinha 27 fogos, a que deveriam corresponder cerca de 100 habitantes.
Em finais do século XIX, sensivelmente, iniciava-se a construção da "vila nova", com o alargamento do seu espaço em direcção à estação do comboio.

PATRIMÓNIO CULTURAL E LAZER:
Em Ponte de Sor existem numerosos vestígios que comprovam a presença humana na região desde a Pré-História, como as Antas na zona de Cabeceiros.
Os ecos da romanização, também se fizeram sentir na região. A prová-los estão os marcos milenários da antiga via Lisboa/Mérida e muitos outros testemunhos epigráficos e monetários.
A quase ausência de manifestações artísticas do período medieval explica-se pela instabilidade vivida durante as lutas da Reconquista. Contudo, junto ao rio, podem-se ver os restos da cerca amuralhada do século XV, já alterada, mandada construir por D. Duarte, em 1438.
Dos séculos XVII e XVIII, são frequentes as pequenas igrejas e capelas rurais tardo-barrocas, obedecendo a um modelo simples e humilde, como é o caso das Igreja de S. Pedro, em Ponte de Sor e Ervideira e a Capela das Almas em Ponte de Sor. Na arquitectura religiosa, a centenária Igreja Matriz (1903) merece destaque.
Dos finais do século XVIII, destaca-se a "fonte da vila", mandada construir por D. João V, considerada por muitos o "Ex-Libris" da cidade.
A actual ponte sobre o rio Sor foi mandada construir em 1822 por D. João VI. Devido ao desenvolvimento da cidade e à grande afluência de trânsito, esta foi alargada no final de 2004.

Informação retirada do sitio da Câmara Municipal de ponte de Sor.
Boas leituras
Rubem da Rocha

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Superstições e Crendices - VI

– Ir à Bruxa
Quando algo não corria bem em casa, na família e até nos animais, quando uma doença estranha ou malzinho afectava um familiar por muito tempo, quando o azar batia à porta e as colheitas não fossem boas, e mesmo quando algum membro da família estava “em vistas” de arranjar emprego, logo se pensava em “ir à bruxa”, para que ela fizesse uma reza e preparasse uma “armação”.
A isto o povo chamava “ir correr bida”.
Por mando da mulher de virtude, que tudo sabia e adivinhava, até falava com os espíritos, faziam-se defumadouros, queimando arruda, alecrim, oliveira e incenso. Defumava-se toda a casa, os membros da família e, quando caso disso, os currais e os animais, dizendo nove vezes as seguintes palavras:
“Assim como Nossa Sinhora defumou seu amado Filho para cheirar, assim eu defumo o meu corpo, a minha casa, os meus parentes e tudo o que me pertence, p’ra que todo o mal d’inbeja, todo o mal rogado, requerido e impecido e todos os espíritos malignos possam de cá afastar pelo poder de Deus e do Santíssemo Sacramento do altar. Padre Nosso e Abé Maria”.
Pelo que ouvi muitas vezes e me foi confirmado, estes defumadouros faziam-se sempre durante nove dias consecutivos. Os restos ou cinzas juntavam-se todos e eram postos fora nas águas da Ria ou no Mar, na maré vazante, para que a corrente levasse o mal para o mar “acolhado”.
Outras vezes, a mulher de virtude dizia que uma “alminha do outro mundo” andava a apoquentar, pois morrera deixando uma promessa por cumprir. Então mandava ir a uma igreja levar azeite para as Almas, ou mandava rezar missas ou fazer uma outra qualquer penitência, para que quem viera do outro mundo encontrasse o caminho da Luz e da Paz,
Muitas vezes acontecia que, após a consulta com a dita mulher de virtude, a pessoa que a ela recorrera cortava relações com algum vizinho e até familiares, pois a bruxa tinha dito que lhe tinha muita inveja, que alguém lhe rogara “pragas”, desejando-lhe muito mal. Claro que não diziam nomes, mas sugeria que tinha sido alguém perto da pessoa. Na sua retórica dizia até que lhe tinham feito mal e propunha-se ir a casa para fazer lá uma reza e desmanchar o “bruxedo”.

– Os Lobisomens
Acreditava-se que estes seres existiam e que apareciam, logo após a meia-noite, em especial em noite de lua cheia e quando a lua fazia quarto.
Cria-se que eram homens como os outros, só lhes fora traçado o destino e por isso, tinham aquele “fado”.
Transformavam-se em lobos e uivavam. Mas não só, também tomavam outras formas como tripeças, carros, pipas, cães ou outro animal qualquer, conforme o primeiro rasto que o infeliz malfadado pisasse ao sair de casa ou ao chegar a uma encruzilhada, para cumprir e correr o seu “fado”.
Era uma sorte boa para ele se encontrasse alguém corajoso que o picasse ou ferisse até sangrar, tirando-lhe assim o “fado”. Contudo, essa pessoa não poderia ser atingida pelo sangue, pois se assim acontecesse, passaria então a carregar o “fado”, tornando-se lobisomem.
(Continua)

In “Gafanha…o que ainda vi, ouvi e recordo”, da Sr.ª Professora Maria Teresa Reigota.
Boas leituras
Rubem da Rocha

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Superstições e Crendices - V

Depois de termos visto o que o Padre João Vieira Resende nos diz sobre superstições e crendices, vamos ver o que nos diz a Sr.ª Professora Maria Teresa Reigota, no seu livro “Gafanha…o que ainda vi, ouvi e recordo”, sobre o mesmo.
– As Bruxas
No crer e dizer do povo, as bruxas eram mulheres comuns, muito más e que, à meia-noite saíam das suas casas para correr mundo, por vezes fazendo mal às outras pessoas.
O povo acreditava que as bruxas luziam; que voavam pelos ares no cabo de uma vassoura, lançando pela boca, lufadas de lume azul; que se banhavam nas águas da Ria, dançando depois nas proas dos barcos abicados na borda, presos ao moirão; que até entravam pelo buraco da fechadura ou pela chaminé e que chupavam as crianças.

– Uma história de Bruxas
Conta Maria Planta, com oitenta e seis anos este facto acontecido com ela, a mãe, o marido e uns primos:
Como muitas vezes faziam, uma noite foram ao serão a casa da sogra, a Ti Silvina Russa. Não havia estrada nem luz. Era um caminho de bois, escuro, cheio de sombras. Até atalharam pelos terrenos para demorarem menos tempo e encurtarem caminho.
De regresso, caminho de casa, direcção norte-sul, ela dá conta que, na janela da casa da Ti Cadete e da Ti Auxilia, está uma luz que pisca de vez em quando. Logo diz para o marido:
“ – Ai Toino, está acolá uma bruxa!”
O Toino, na altura rapaz novo, forte e muito afoito não hesitou. Deixou a mulher e restante companhia e foi direitinho ao sítio onde piscava a tal luz.
Descobriu a bruxa – era o reflexo do farol no vidro da janela e por isso piscava de vez em quando, com intervalos regulares.
(Continua)
Boas leituras
Rubem da Rocha

terça-feira, 8 de junho de 2010

Actuação em Calendário - Famalicão

Recepção na Junta de Freguesia

Aspecto do almoço convívio

A aguardar o início do desfile

No passado domingo estivemos em Vila Nova de Famalicão, mais propriamente na freguesia de Calendário para mostrar o nosso folclore a convite do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Calendário. Chegámos cerca das 11 horas e 30 minutos e fomos recebidos na sede da Junta de Freguesia pelo seu presidente, para a tradicional troca de lembranças numa pequena cerimónia de boas vindas.
De seguida fomos até à escola Camilo Castelo Branco, onde nos foi servido um almoço muito bem preparado, embora com algum atraso. Por volta das 15 horas e 30 minutos começou um pequeno desfile até ao Parque 1º de Maio, onde decorreu o festival e no qual participaram, além de nós e do grupo organizador, o Rancho Folclórico de São Tiago de Mirandela (Nordeste Transmontano), o Rancho Folclórico de Santa Cristina do Couto – Santo Tirso (Douro Litoral) e o Grupo Folclórico da Casa do Povo de Creixomil - Guimarães (Baixo Minho).
Foi um bom festival em que os grupos presentes foram dignos representantes dos seus antepassados. De realçar, pela negativa, o facto de o festival ser realizado durante a tarde. O dia estava bastante quente, tornando-se bastante cansativo para todas as pessoas que, trajadas, esperavam a hora de actuar. Um outro pormenor menos agradável foi o facto da temperatura do tablado estar bastante elevada, o que levou a que todos os elementos do nosso grupo que dançam descalços tivessem contraído bolhas nos pés.
Todas as indicações da Federação do Folclore Português apontam em sentido contrário. Esperamos que o representante da Federação neste festival tenha tomado nota e tenha feito os devidos reparos para que no futuro isto não se repita. O ideal é que os Festivais sejam realizados ao sábado à noite.
Até à próxima actuação que é no dia 26 de Junho, em visita Rancho Folclórico da Casa do Povo de Ponte Sor, em Ponte de Sor.
Até lá.

Boas leituras
Rubem da Rocha

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Grupo Folclórico de Taveiro

O Grupo Folclórico de Taveiro foi fundado a 18 de Outubro de 1975.Após profundo estudo de investigação, baseado num apurado trabalho de pesquisa e recolha, dignou repor a verdade em toda a vertente folclórica a nível de dança, cantares e trajes tradicionais.
O grupo apresenta no seu Curriculum actuações por muitas regiões de Portugal, Europa e América do Sul, sobretudo em festivais em França, Espanha, Bélgica, Grécia, Itália e Brasil,
Os seus componentes com profissões estratificadas são o garante da vivacidade do grupo e das suas tradições, fazendo com que fosse agraciado com o Troféu “Prestígio e Dedicação” às Comunidades Portuguesas em Junho de 1999.
Canta e dança o que é mais genuíno da sua região. Todas as danças foram recolhidas junto de pessoas bastantes idosas e no Cancioneiro da Beira Litoral. Maioritariamente modas de roda, dançadas no intervalo do trabalho, romarias, adro da Igreja e bailes. Destaca-se o Vira de Quatro Batido dançado no terreiro.
Não passa despercebida a vivacidade e perfeição com que dominam todas as actuações, sem contudo faltar o cunho da originalidade e rara beleza rural. A tocata é constituída por instrumentos tradicionais tais como: Concertinas, Cavaquinhos, Violas, Bandolins, Ferrinhos, Reque-Reque e Bombo.
Os trajes são constituídos por autênticas relíquias de museu, a destacar: Noivos, Lavradores Ricos, Ver-a-Deus, Domingueiros, Senhora de fins do século XIX, Romeiros, Bairrenho, Ceifeira, Mondadeira, Lavadeira, Vendedeira, Leiteira, Cesteiro, Barqueiro, Ferrador, Aguadeira e Lavrador. Tem representado a freguesia com elevado nível no país e no estrangeiro. Tem participado em várias Europíades e Festivais de Folclore Nacional e Internacional. Todos os anos se realiza, em Junho, um Festival Internacional de Folclore.
Na área dos usos e costumes repõem ainda hoje as “Escamisadas”, os Jogos Tradicionais tais como: o Jogo da Malha, o Jogo do Pau, o Jogo da Cantarinha. Realiza-se ainda a festa das “Maias”, na qual os rapazes enfeitavam as portas das raparigas que gostavam e que queriam namorar na madrugada do 1º de Maio; e a “Serradela da Velha”, julgamento fictício dos bens do casal a favor dos seus herdeiros, no qual se procedia a um entretenimento jocoso.
Fonte: site da Junta de Freguesia de Taveiro.

Boas leituras
Rubem da Rocha

Vila de Taveiro

É já amanhã que nos deslocamos a Taveiro, para mais um festival. Aqui fica alguma informação sobre a Vila e sobre o Grupo Folclórico de Taveiro.

A freguesia de Taveiro, integrada no concelho de Coimbra, de cuja sede dista cerca de sete quilómetros, confina, a norte, com o rio Mondego e São Silvestre, a sul, com a autarquia de Antanhol, a nascente, com a de São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades e a poente, com a freguesia do Ameal. Estende-se por uma área de, aproximadamente, dez quilómetros quadrados, que abrange os lugares de Carregais, Reveles do Campo e Taveiro.
Estendida pela margem esquerda do “Rio dos Poetas”, esta Freguesia é servida, em termos ferroviários, pelo maior eixo da Linha do Norte e, no que diz respeito às acessibilidades rodoviárias, pela A1, sentido Lisboa-Porto, de que dista, respectivamente, 190 e 110 quilómetros.
Dados Históricos
A Freguesia de Taveiro está documentada desde o último quartel do século X. Sofreu os danos provocados pelas invasões muçulmanas, mas foi reconquistada por Santa Cruz, que aí tinha muitos casais. Na altura em que tal facto aconteceu, a povoação estava deserta, pois os seus habitantes haviam fugido para outros locais.
Situada entre as velhas Aeminium e Conímbriga, Taveiro conta com o próprio nome como prova da sua antiguidade. A. Almeida Fernandes refere: “ O topónimo tem um étimo por certo muito antigo, onde talvez se encontra a raíz liturgica, tala – talvez a mesma de Távora, Tavarede, etc. É menos provável o étimo no latim tabulariu – (sentido de tabulatu – como Tábua, Tabuaço, Tabuado, etc.”)
Num documento de 980, “ os servos de Deus “ Bahri e Trunquili (Trunquilde) doavam ao Mosteiro de Lorvão a sua herdade de Taveiro. O texto notarial referia o seguinte: ”Hereditate nostra própria que abemus in villa Talabario in quinione de ibn Hocem uno agro de riu usque in monte in Abdena”. As personagens referidas no documento, Homeite e Lobozinho, eram personagens de elevada craveira na sociedade, sendo evidente que eram moçarabes. Os doadores destes terrenos, Bahri e Trunquili, possuíam ainda o padroado de duas igrejas (a de Santa Eulália da “villa” Arquanio e a de São Miguel Arcanjo e São Pedro Apostolo na “villa” de Tentúgal), que doaram igualmente a Lorvão.
Depois do repovoamento do território, efectuado pelo Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a grande maioria dos casais de Taveiro iria transitar, já no século XVI, para a posse da Universidade de Coimbra. Todavia, o pároco era da apresentação da Mitra, e pelo menos no século XVIII tinha quarenta mil reis de renda anual.
A 26 de Fevereiro de 1851, D. Maria II atribuiu um Viscondado a Taveiro, cujo título foi concedido a D. Maria Rosa de Figueiredo da Cunha e Melo de Lacerda e a seu marido José de Melo Pais do Amaral Sousa Pereira de Vasconcelos e Meneses, como recompensa pelos valiosos serviços prestados pelo Arcebispo de Braga D. Pedro Paulo de Figueiredo da Cunha Melo, natural de Taveiro e Tio de D. Maria Rosa.
Por Decreto de 11 de Julho de 1878, foi designado segundo Visconde de Taveiro José Pedro Paulo de Melo Figueiredo Pais do Amaral da Cunha Eça Abreu e Sousa de Meneses Pereira de Lacerda Lemos e Vasconcelos, que foi igualmente o primeiro Conde de Santar, pelo seu casamento. O Terceiro foi Pedro Paulo António de Melo de Figueiredo Pais do Amaral, neto do segundo visconde de Taveiro, autorizado por D. Manuel II, então no exílio. O brasão de armas dos viscondes de Taveiro é constituído por um escudo esquartelado tendo no primeiro as armas dos Melos, no segundo as dos Pais, no terceiro as dos Amarais e no quarto a dos Castelos Brancos.

Fonte: Site da Junta de Freguesia de Taveiro.

Boas leituras
Rubem da Rocha

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Superstições e Crendices - IV

- Em 1900 ainda era frequente queimar à noite o cepo do Natal.
- Ainda hoje, durante as trovoadas, se queima alecrim (podendo ser do ramo benzido pela semana santa), reza-se a Magnifica, o terço e outras devoções, invocando-se santa Bárbara, S. Jerónimo e S. Gregório. Sendo de noite, levanta-se a família que vai rezar para a sala, diante do Crucifixo.
Oração a Santa bárbara: “Santa Bárbla bendita que no Céu estais escrita. Santa Bárbla, S. Simão tênde-la chave do trubão, assim como os santos são santos, tamêm os trubões são mansos. Quem este oração disser um ano cum debução nu irá ò fogo do inferno nem ò raio (ou lâmpado) do trobão”.
- Oração a S. Gregório: “S. Gregório s’alavantou, pelo seu caminho andou. Onde ides S. Gregório? Vou acalma-la trevoada que sobre nós anda armada. Atão inde S. Gregório pelas três tabuinhas de Jerusalém onde Cristo foi e beio por nós. Ámen”.

In “Monografia da Gafanha “ do Padre João Vieira Resende.

Também o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, este ano por altura da Quaresma, fez uma pequena representação das almas no salão da igreja paroquial da Gafanha da Nazaré e entre outras coisas foi feita uma oração (recolhida aqui na nossa terra) a São Gregório.
Não é muito diferente da apresentada na Monografia da Gafanha, mas aqui fica para poderem comparar.
São Gregório s’alebantou
Os seus sapatinhos calçou
O seu caminho andou
O Sinhor encontrou e lhe perguntou
- São Gregório, a donde bais?
- Bou arrumar as traboadas que no céu andam armadas.
Atão o sinhor lhe disse:
- Arrumás lá bem para longe, d’onde na haja eiras nim beiras, n’ em ramos de sal, n’ em coisa que faça mal.

Boas leituras
Rubem da Rocha

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Superstições e Crendices - III

Note-se que não se exerce nenhuma destas acções sem que sejam acompanhadas de um certo ritualismo e orações destrambelhadas. E ainda não falamos de lobisomens que de noite apareciam pelos caminhos e encruzilhadas, transformados em pipas, carros, burros, rebanhos, cães, etc., … conforme o primeiro rasto que o infeliz encontrasse ao sair de casa para dar começo ao seu fado. Era uma grande sorte para ele haver alguma alma generosa que o picasse para lhe desfazer aquele fado.
Nem falamos das bruxas que entravam pelo buraco da fechadura a chupar meninos, ou vagueando pelo ar lançando pela boca lufadas ou fogachos de lume azul, ou ainda mesmo banhando-se na Ria, ou dançando nos barcos estacionados na borda. Ainda hoje se citam os nomes dos visionários; citam-se também com todas as letras os nomes dos lobisomens e das bruxas que viveram neste mundo, e que foram para a eternidade com aquele infamante labéu, que os faria sofrer muito, mas de quem a ignorância estúpida ainda hoje se não compadece, dizendo sempre, que havia e há coisas. Pois há!...
- Ainda hoje muita gente reza assim ao nascer do sol, de cabeça descoberta: “Sol claro e dia, assim como deixastes passar a noite, deixai-me também passar o dia – Padre-Nosso, Ave-Maria”. “Em louvor do sagrado nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo – Padre-Nosso, Ave-Maria”.
-Ao por do sol: “Deixai-me passar a noite, assim como me deixaste passar o dia – Padre-Nosso, Ave-Maria”. “Em louvor da sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo – Padre-Nosso, Ave-Maria”.
- Quem bocejava benzia-se dizendo: “Benza-me Deus seis vezes, que é para toda a semana”.
- Outras vezes fazia-se o sinal da cruz com o dedo polegar sobre a boca para o inimigo (diabo) não entrar.
- As mães benzem do mesmo modo e em idênticas condições a boca da criança, repetindo por três vezes a frase: “Benza-te Deus”.
- Às estrelas cadentes ainda se faz a seguinte deprecação: “Deus te guie… Deus te ampare”.

(Continua)

In “Monografia da Gafanha” do Padre João Vieira Rezende.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Superstições e Crendices - II

A esses amuletos, orações falsas, datas e números de cabalística, com todo o ritual na sua aplicação supersticiosa, atribui-se um poder e virtude infalíveis. Assim: Para curar ínguas fixa-se uma estrela e faz-se por cinco vezes a seguinte invocação: “estrela! A minha íngua diz que seques tu e que reine ela, mas eu digo que seque ela e que reines tu!”. Para tirar trasorelho, fricciona-se o local doente com nove olhos de hortelã e coloca-se ao pescoço do doente uma canga, enquanto se diz determinada oração. Só pode atalhar o zagre quem estiver em jejum no momento de o cercar com água e nove olhos de erva-doce, apanhados antes do nascer do sol. Para curar de ógado (aguado) deve o menino doente ser aleitado por três mães que andem amamentando cada uma as suas meninas, e se o doente é menina deve ser aleitada igualmente por três mães que criem os seus três meninos.
Para cortar lombrigas besunta-se o ventre da criança com ferrugem, passando uma faca sobre o ventre com o gesto de cortar; as lombrigas morrem.
Tira-se o mau-olhado bebendo água de fermento, com o que passam as dores de cabeça. Para tirar o sol, escolhe-se um dia límpido, e das 11 às 12 horas tapa-se com um pano um copo cheio de água e assim preparado, coloca-se sobre a cabeça, voltado com o fundo para cima; é claro que, em virtude das leis da física, a água do copo desce, enquanto que o vácuo estabelecido dentro dele vai ser ocupado pelo ar que sobe, sob a forma de bolhas, através da água; dizem então que a água ferveu e que ficou tirado o sol. Outra receita para cortar as lombrigas é escrever no fundo de um prato branco uma oração a Santo Onofre, lavando em seguida a tinta com água, que é ingerida pelo doente que desde logo fica curado. O aguado também pode curar-se comendo três rabos de bacalhau e não mais nem menos. Cerca-se a erisipela dizendo uma espécie de oração e cercando o ponto doente com um ramo de oliveira já previamente besuntado com sangue de galinha preta, azeite e farinha.
Seria um nunca acabar de despautérios cujos simples enunciados encheriam muitas folhas deste volume.
(Continua)
In “Monografia da Gafanha” do Padre João Vieira Rezende.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Superstições e Crendices - I


Hoje irei transcrever o que a “Monografia da Gafanha”, do Padre João Vieira Rezende, nos diz sobre superstições.

À ingénua simplicidade deste povo, como à de outros povos, tem andado sempre aliada uma grande dose de superstição, que nem o tempo, nem as admoestações de quem de direito, ainda conseguiram dominar completamente. Quantos e quantos casos de histerismo ou de outra qualquer doença são atribuídos a mau-olhado e inveja, ou às almas do outro mundo que querem missa ou cumprimento de promessas?
O que é mais para lamentar é que venham a ser vitimas inocentes de supostos malefícios os vizinhos do doente, o qual, mal avisado e numa má hora, foi até à bruxa, recebendo dela insinuações calculadas e manhosos, cujas consequências vieram pesar sobre esse vizinho que de nada era culpado.
Se por ventura a medicina não pode debelar a doença de uma pessoa de família supersticiosa, ou até de um animal, ou quando mesmo se não consulta o médico e a doença se prolonga demasiadamente, vai-se consultar a mulher de virtude ou adivinha tudo, e cujos oráculos são sentenças infalíveis, e cujas ordens se cumprem à risca ainda que para isso tenham que vencer-se grandes dificuldades.
Desde o momento da consulta, cortam-se relações com o vizinho caluniosamente incriminado e trata-se de uma defesa famosa contra os seus maus-olhados e malefícios. Ao pescoço dos adultos colocam-se argolas de aço, saquinhas (armações) com fragmentos de pedra de ara, de estola, de sanguinhos, etc. …contra as almas do outro mundo, contra a inveja, as pragas, etc. … Ao pescoço das crianças põem-se outros amuletos, como sejam o signo-saimão, figas corações de prata, pequenos chifres de azeviche, etc. …. contra as bruxas e maus-olhados.
A estes e outros amuletos. Como a certas orações sem sentido nem gramática, bem como a certos ritos destrambelhados e executados no momento da aplicação supersticiosa, presta-se uma veneração tão profunda e comovedora que a podemos considerar como um culto, que realmente é, muito extravagante e muito radicado.
(Continua)

Boas leituras
Rubem da Rocha

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Ranchos Folclóricos – III

Grupo Etnográfico no Congresso de Folclore em Espinho
Garrett é pioneiro no estudo da literatura popular, romântico que era e, como todos os românticos, interessado em conhecer a especificidade de cada povo, objectivo que se coadunava com o espírito nacionalista, objectivo ainda que era contrário ao domínio clássico-absolutista da cultura erudita. E foi Adolfo Coelho que fez entrar nos estudos portugueses as palavras folclore (1875) e etnografia (1889). No fim do século passado havia entre nós muitos etnógrafos e folcloristas de que cumpre destacar leite de Vasconcelos e Teófilo Braga, além de Adolfo Coelho, todos republicanos como os outros principais estudiosos da matéria, o que se entende num plano de simpatia e de herança dos ideais românticos.
Quando Salazar chegou ao poder, a etnologia perdeu algum ânimo, mas o Estado Novo lobrigou a importância dos grupos folclóricos, aliás por imitação do que se passava em outros países. O folclore era visto como um meio de propaganda política, pela concentração de artistas populares, criando-se logo em 1933 o Secretariado da Propaganda Nacional, depois SNI (Secretariado Nacional de Informação). Fundam-se numerosos ranchos (tendencialmente chamados regionais), mas também começa a desvirtuação cultural: a espectacularidade afecta frequentemente a verdade, uniformizando-se trajes, refinando-se, com fins estéticos, a dança e o canto, recorrendo-se mesmo a instrumentos musicais estranhos. Entretanto, a etnologia e a etnografia revigoram-se, multiplicam-se as colecções de cantares. A denominação de grupo folclórico aparece cerca de 1950; dantes, o termo usado era o de rancho, tal como agora há quem prefira o qualificativo de etnográfico para rancho ou grupo.
Recentemente, são muitos os estudiosos e responsáveis pelo nosso folclore que se insurgem contra os abusos neste domínio, apelando para a genuinidade cultural. Na verdade, o canto e a dança folclóricos desprestigiaram-se em muitos lugares e os investigadores começaram a mostrar-se cépticos, preferindo esquecê-los em troca da pesquisa directa. Urge restabelecer a autenticidade onde ela não existe, banindo estilizações e efeitos pomposos. Ainda vamos a tempo. E isso é necessário, quando sabemos que novos esquemas económicos e sociais põem em risco a nossa identidade.
Artigo do Jornal “Publico” de 20 de Novembro de 1994, da autoria de António Cabral.

Boas leituras
Rubem da Rocha

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ranchos Folclóricos – II

Nos cantares e danças reflecte-se toda a cultura comunitária: daí que os componentes de um rancho folclórico a sério tenham jus a ser tidos como agentes culturais entre os melhores. Poucos como eles se sentirão à altura de criar um museu etnográfico, assistindo-lhes ainda o dever de lutar contra a descaracterização, a perda de identidade que nos últimos anos ameaça não só a nossa região como também o país em geral. Para tanto basta uma coisa simultaneamente simples e difícil: é necessário que a comunidade local sinta o rancho como seu.
Convém ir um pouco à história escrita de que como sabemos, o grego Heródoto é tido como pai. Ele apoiava-se muito nas tradições orais ou “logoi”, interessando-se pelos costumes populares. Pela época clássica, em toda a Europa, a tendência para estudar nas escolas a cultura grega e latina marginalizou um pouco o gosto pelas coisas do povo, mas podemos sempre encontrar em Portugal homens como Fernão Mendes Pinto, Francisco Alves, António Tenreiro e outros autores de roteiros que se sentem atraídos por muitos usos e costumes. Foi todavia o Romantismo, no dealbar do século XIX, que lançou o grito de alerta. A palavra folclore (do inglês folk-povo; e lore, conhecimento), empregou-a pela primeira vez o inglês Williams Thoms para designar exactamente a “ciência da tradição dos povos civilizados e sobretudo dos meios populares”. Isto em 1846. Antes, em 1807, Campe criou o termo etnografia com sentido de descrição dos povos, ainda que tal sentido evoluísse para a descrição dos povos primitivos, o que hoje já não acontece. Jorge Dias (“Estudos de Antropologia, I”, Imprensa Nacional, 1990, p21) diz assim: “A etnografia observa, analisa e descreve uma determinada cultura e a etnologia sistematiza, compara, generaliza e interpreta em termos gerais”. Também, segundo ele, o folclore é o “ramo da etnografia que visa, em especial, a recolha e descrição das tradições orais, ou melhor, da literatura oral de qualquer povo”. Ergologia é o estudo da cultura material, enquanto etnossociologia consiste no estudo da estrutura social e da psicologia colectiva. De notar que, como as cantigas populares, também os provérbios, as adivinhas, lendas, contos, etc., fazem parte do folclore.
(Continua)
Artigo do Jornal “Publico” de 20 de Novembro de 1994, da autoria de António Cabral.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ranchos Folclóricos - I

O Jornal Publico de 20 de Novembro de 1994, publicou um pequeno artigo da autoria de António Cabral, com o título de “Ranchos Folclóricos”.
Neste início de época penso que será bastante oportuno, não só pelo método de escolha de grupos para os festivais, como também pelas directrizes a tomar na formação de um grupo.

Se neste ano de 1994 procurarmos saber que apreço têm os portugueses pelos ranchos folclóricos, somos bem capazes de apurar que, além da dedicação dos que a eles se ligam pelo trabalho, animação e direcção, existe a curiosidade de alguns estudiosos e o gosto de um público anónimo que, geralmente, não se interessa mais do que pelo espectáculo em si. Ora, é sobretudo o público anónimo que está em causa sempre que se quer avaliar a ressonância de um rancho folclórico.
Penso que a espectacularidade não deve ser objectivo número um, ainda que também seja um valor a considerar para quem se apresenta em publico. Ela pode conduzir a um estado geral de indiferença por aquilo que verdadeiramente é a cultura popular. Conduz, se o espectador não vê mais do que espectáculo. Porque este não penetra a fundo na alma.
É preciso que todos os ranchos ou grupos folclóricos tenham consciência do que representam, fazendo com que essa consciência se difunda por quem assiste às suas actuações. Para isso permitam-me que anuncie um dever fundamental: ser fiel ao património cultural da localidade em nome da qual se fala e actua. Essa fidelidade deve visar a linguagem, os instrumentos musicais, os passos coreográficos e o trajar. Adaptar palavras e expressões, usar instrumentos alheios ou sem uso local, copiar desenhos coreográficos próprios de outros sítios e alterar o traje que se usava constituem atentados à cultura. E é talvez por se ir tomando conhecimento disso que há muita gente que desdenha dos agrupamentos folclóricos, ainda que em muitos casos essa mesma gente só tenha palavras para censurar e não, como devia, para compreender, aconselhar, participar.
Dirigir ou pertencer a um rancho folclórico não é tarefa fácil, deixando já de parte o tempo ocupado na organização e ensaios, para além das recolhas. Fixando-nos nestas, há que reconhecer que todo e qualquer trabalho de levantamento sério é muito difícil, pelo grau de conhecimentos culturais que pressupõe. É que quase tudo o que se relaciona com o viver característico de uma comunidade deve ser considerado e arquivado, não esquecendo particularmente o contacto com as pessoas idosas, os registos paroquiais e outros, a arte caracteristicamente local, rezas, lendas, crenças, jogos, festas, usos e costumes.
(Continua)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Quaresma

Estamos em tempo de Quaresma. Vamos ver o que nos diz a Sr.ª Professora Maria Teresa Reigota, no Seu livro “Gafanha…o que ainda vi, ouvi e recordo”.
Era o período compreendido entre a Quarta-feira de Cinzas e o Domingo de Páscoa.
O seu simbolismo refere os quarenta dias de jejum que Jesus passou no deserto. Por isso logo na Quarta-feira de Cinzas se guardava jejum (comer menos) e abstinência (não comer carne).
Neste dia o povo da Gafanha ia a Aveiro, nas suas bateiras e barcos moliceiros e mercantel, mais tarde a pé, de bicicleta ou na “camioneta da carreira”, assistir à tradicional Procissão das Cinzas. Algumas pessoas iam logo de manhã para assistirem à cerimónia da imposição das Cinzas e bênção dos Santos Óleos, presidida sempre pelo Senhor Bispo da Diocese, ficando para a tarde, participando na procissão. Era majestosa e imponente!
Um dos andores que compunham a procissão era o de santa Clara. Lembro-me bem que, quando alguma criança tinha problemas na fala, como gaguez, ou começar tardiamente a falar com dificuldades de prenuncia, os pais faziam-na passar por baixo deste andor, pedindo a santa Clara, com muita fé, que desatasse a língua do seu filho ou filha, aclarando-lhe a fala. Não esqueço a tradição de se comprarem figos passados.
Após os três dias de folia do Carnaval, começava agora um tempo de penitência e sacrifícios que os gafanhões viviam com toda a intensidade da sua fé. Para não terem de jejuar e de deixar de comer carne todos os dias, iam ao Senhor Padre comprar a “bula” e assim, ficavam dispensados, jejuando e fazendo abstinência na Quarta-feira de Cinzas, todas as sextas-feiras da Quaresma e Quinta-feira santa, Sexta-feira santa e Sábado da Aleluia. Se não tivessem peixe comiam batatas com cebola frita e broa, mas pecar é que nunca.
No quinto domingo da Quaresma fazia-se e faz-se ainda, a Procissão dos Passos, em que simbolicamente, Maria Mãe de Jesus se encontra frente a frente com Seu Amado Filho, carregando a Cruz a caminho do Calvário – é o Momento do Encontro. Também aqui o povo da Gafanha marcava presença se nada houvesse que o impedisse.
Em Domingo de Ramos, que antecede o Domingo de Páscoa, não faltava nas igrejas das suas freguesias nenhuma família gafanhoa ou quem a representasse com seu ramo de alecrim e, às vezes, também oliveira, para ser benzido e religiosamente guardado até ao próximo ano. Era deste ramo que tiravam um bocadinho de alecrim que queimavam em dias de trovoada.


Começava a semana santa, com Quinta-feira de Endoenças, Sexta-feira da Paixão e Morte de Jesus, Sábado da Aleluia e Domingo da Ressurreição.
Logo na Quinta-feira santa os lavradores já não trabalhavam nos campos, só apanhavam erva para o gado ou davam-lhe palha; à noite, iam à igreja assistir às cerimónias do Lava-pés. Na Sexta-feira Santa procediam do mesmo modo e, à noite, iam participar na Devoção da Via-Sacra – era um dia triste, porque o Senhor estava morto.
Para fazerem os folares tinham o sábado da aleluia. Algumas pessoas amassavam, depois de chegarem, já noite dentro, da Via-Sacra. Deixavam a massa a levedar e no dia seguinte, manhã cedo, coziam os folares para casa e para ofertarem aos afilhados. Às onze horas da noite, assistiam ao Santo Oficio da Missa e pela meia-noite acontecia a Aleluia, descobrindo os Santos que tinham estado cobertos com panos pretos e tocando campainhas.
No Domingo de Páscoa era a alegria da Ressurreição do Senhor, era dia dos afilhados irem a casa dos seus padrinhos pedir-lhes a bênção e buscar ou agradecer o folar.
Não esqueço que durante a Quaresma o povo da Gafanha sentia uma grande obrigação que cumpria com devoção e crença – era a “desobriga” que consistia em confessar-se e comungar pelo menos uma vez cada ano. Eram e são respectivamente, o segundo e terceiro mandamentos da santa Madre Igreja, que este povo cumpria escrupulosamente, mesmo que se confessasse e comungasse mais vezes pelo ano fora.

As fotografias de Aveiro pertencem ao álbum fotográfico de Carneiro da Silva, referentes ao ano de 1922. De salientar que atendendo a que a Quarta-feira de Cinzas, normalmente é muito próximo do mês de Março, sobre o lado esquerdo da foto dos moliceiros, já se vêm as barraquinhas para a Feira de Março. Outro pormenor, é a quantidade de moliceiros existentes na Ria, mostrando que realmente participava muita gente nesta procissão.

Boas leituras
Rubem da rocha


terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O Carnaval ou Entrudo na Gafanha da Nazaré

Nesta época que se aproxima de Carnaval ou Entrudo como diziam os nossos avós, transcrevo um pequeno texto da autoria da Sr.ª Professora Maria Teresa Filipe Reigota publicado no seu livro com o título “Gafanha…O que ainda vi, ouvi e recordo”.
Na Gafanha, quando o povo se referia ao Carnaval, dizia sempre “Entrudo”.
Eram os três dias que precediam a quarta-feira de Cinzas, começo da Quaresma: Domingo Gordo, Segunda e Terça-feira do Entrudo. Nestes dias faziam-se muitas brincadeiras, sem ferir ninguém.
Muitas pessoas disfarçavam-se vestindo roupas andrajosas, todas rotas, até esfarrapadas, que cobriam todo o corpo. O rosto era tapado com uma máscara “carantona”, feita de um bocado de pano velho, ou de papel, ou mesmo de serapelheira, onde tinham aberto o buraco para os olhos, para o nariz e para a boca. Na cabeça colocava-se um chapéu, o mais disforme possível, e as mãos cobriam-se com luvas ou até se pintavam com carvão – eram os “entrudeiros”.
Não tinham a preocupação de estar bem vestidos, representando uma ou outra personagem, mas em contrapartida tudo faziam para não serem reconhecidos. Iam por toda a Gafanha, assustando umas pessoas, brincando com outras, com caminhar diferente do seu habitual, fazendo-se de velhinhos agarrados a uma bengala ou a um pau de vassoura, manquejando, sei lá! Era o que lhes vinha à cabeça. Ao falar distorciam a voz, para nem isso dar a possibilidade de serem reconhecidos, por vezes até gaguejavam.
Batiam à porta de alguém e era-lhes servido um copo de tinto, davam dois ou três dedos de conversa, muitas vezes provocada pelos donos da casa para tentarem reconhecer o entrudeiro, mas sempre sem conseguirem. Prosseguiam o caminho, fazendo várias tropelias, daí aqueles ditos populares:
“É Entrudo vale tudo.”
“É Carnaval ninguém leva a mal.”
Recordo de no meu tempo de criança e jovem se fazerem as “cegadas”. Eram como que um teatro de rua, que satirizava algum acontecimento local que tivesse dado brado na terra, até mesmo as discussões e quezílias por causa das valas, dos caminhos, etc.…
Quase sempre estes grupos vinham dos lados da vila de Ílhavo, já disfarçados, e assentavam arraial onde eles entendiam que se juntava mais gente para apreciar o seu, chamemos-lhe, espectáculo.
Os gafanhões assistiam e gostavam de ver, comentando depois quem teria sido o ou a satirizada e, por um ou outro detalhe, quantas vezes se descobria.
Naqueles três dias havia que folgar, esquecer um pouco as mágoas. Curiosamente, os entrudeiros até conseguiam espalhar um pouco da sua, por vezes ruidosa, alegria, ou do seu passar sisudo e quieto que era motivo de chacota, pelo menos para a pequenada que se metia com eles. Ameaçavam os pequenos com a sua bengala ou com o seu varapau ou cajado, mas nunca lhes tocavam, era engraçado!
Actualmente nada disto se vê.

Eu, que sou um pouco mais novo que a autora, também me lembro de muitos grupos que passavam disfarçados, pelas principais ruas da Gafanha, com roupas em farrapos, que quase era impossível reconhecer as pessoas que as vestiam. Hoje, com a desconfiança que existe, já não achamos assim tanta piada com essas brincadeiras que se faziam, mas é bom recordar.
Boas leituras
Rubem da Rocha

sábado, 14 de novembro de 2009

O Baptismo na Gafanha - 3

A prevenir estes perigos, há necessidade de colocar durante a noite sobre a criança as calças do pai, com a perneira esquerda desvirada e de dia e de noite dependurar umas tesouras abertas junto à cama.
São desnecessárias estas precauções quando os meninos já não são pagões.
A criança não é lavada no dia do baptismo e após ele por respeito à água baptismal.
Eis como as mães embalam os filhos.
………….
Nana, nana, meu menino,
C’a tua mãe logo bem:
Foi labá-las fraldinhas
Á fonte de Belém.

O mê menino é d’oiro,
D’oiro é mê menino;
Hê-de entregá-lo ós anjos
Incanto é pequenino.

Vai-te embora, papão negro,
De cima de mê telhado;
Deixa dormir o menino
Um soninho descansado.

Quem tem o nome de mãe
Nunca passa sem cantar;
Cantas vezes a mãe canta
Com vontade de chorar.

In “Monografia da Gafanha “ do Padre João Vieira Resende.

Boas leituras

Rubem da Rocha

sábado, 7 de novembro de 2009

O Baptismo na Gafanha - 2

Formado imediatamente o pequeno cortejo para casa, nela se entrava pela porta da cozinha e não pela da sala porque não era "bô".De regresso da igreja, o neofitozinho era apresentado à mãe pela madrinha que dizia: -“Aqui tendes o vosso menino; daqui o lubámos pagão e aqui o trazemos cristão, pela graça de Deus e do Sp’ito Santo”. A mãe, muito comovida, agradecia com expressões similares, cheias de muita fé e de muitas lágrimas, a graça que Nosso Senhor lhe fez, porque o seu menino já tem alma. Cena deveras emocionante, a que não ficavam indiferentes os circunstantes!
A seguir todos se sentavam à mesa e as crianças, à parte, pelo chão e em esteiras, para o jantar, não sendo excluída a família dos padrinhos. Na véspera tinha sido abatido um carneiro ou uma ovelha, que ao tempo não excedia o preço de 500 ou 600 réis.
Três pratos apenas, mas abundantes, sendo o primeiro a sopa de couve com batatas inteiras e negalhos ou molhinhos. Era o prato obrigatório e predilecto da maioria.
Os negalhos eram bocados do bucho e do fato gordurento do carneiro, de toucinho e hortelã, atados em molhinhos com linhas.
A seguir vinha outro prato, ou melhor, a frigideira com o refogado da outra carne que era condimentada com batatas ou com arroz.
De futuro e pela Páscoa, até ao casamento dos afilhados, os padrinhos iam levar-lhes os folares a que chamavam bolos, comprados em Aveiro à padeira de Eixo. Não tinham mais do que 2 ou 3 ovos com excepção do útimo que era no ano do casamento e que tinha 6 ovos.
Os afilhados iam agradecer aos padrinhos, pedindo-lhes a bênção de joelhos. Hoje consiste este agradecimento em ir estimar os padrinhos, oferecendo-lhes amêndoas e vinho, sendo rapazes.
Ainda se conserva o costume de os afilhados saudarem os padrinhos pedindo-lhe a bênção. Todos estes costumes têm recebido levíssimas alterações.
Aos nascimentos e baptismos andam ligadas muitas superstições. Eis algumas:
Se durante a gravidez a mulher trouxer no refego da cintura da saia qualquer objecto, a criança nasce defeituosa. Assim, se a criança nasce com o lábio fendido é sinal de que a mãe trouxe alguma chave no bolso ou na cintura durante a gestação.
Finas manchas rubras a pontear a epiderme denunciam a imprevidência da mãe costureira que arrecadou as agulhas em qualquer dobra dos vestidos junto à cintura.
Outras quaisquer colorações pigmentares, manchas ou sinais que interessam a epiderme da criança, têm a sua explicação no transporte de objectos na cintura, que estejam de harmonia com as colorações figuradas. Pois se a coloração figurativa de uma colher existente no braço de uma mulher, que ainda aqui vive, é apresentada como argumento indiscutível da falta de cautela da mãe! ...
Já não há perigo se os objectos se trouxerem na blusa.
A criança corre sempre o perigo de ser chuchada pelas bruxas antes do baptismo e deste modo morre sem alma. Por vezes a criança aparece viva, mas doente, fora do berço ou a grandes distancias. A criança é chuchada pelas unhas.

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