sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ranchos Folclóricos – II

Nos cantares e danças reflecte-se toda a cultura comunitária: daí que os componentes de um rancho folclórico a sério tenham jus a ser tidos como agentes culturais entre os melhores. Poucos como eles se sentirão à altura de criar um museu etnográfico, assistindo-lhes ainda o dever de lutar contra a descaracterização, a perda de identidade que nos últimos anos ameaça não só a nossa região como também o país em geral. Para tanto basta uma coisa simultaneamente simples e difícil: é necessário que a comunidade local sinta o rancho como seu.
Convém ir um pouco à história escrita de que como sabemos, o grego Heródoto é tido como pai. Ele apoiava-se muito nas tradições orais ou “logoi”, interessando-se pelos costumes populares. Pela época clássica, em toda a Europa, a tendência para estudar nas escolas a cultura grega e latina marginalizou um pouco o gosto pelas coisas do povo, mas podemos sempre encontrar em Portugal homens como Fernão Mendes Pinto, Francisco Alves, António Tenreiro e outros autores de roteiros que se sentem atraídos por muitos usos e costumes. Foi todavia o Romantismo, no dealbar do século XIX, que lançou o grito de alerta. A palavra folclore (do inglês folk-povo; e lore, conhecimento), empregou-a pela primeira vez o inglês Williams Thoms para designar exactamente a “ciência da tradição dos povos civilizados e sobretudo dos meios populares”. Isto em 1846. Antes, em 1807, Campe criou o termo etnografia com sentido de descrição dos povos, ainda que tal sentido evoluísse para a descrição dos povos primitivos, o que hoje já não acontece. Jorge Dias (“Estudos de Antropologia, I”, Imprensa Nacional, 1990, p21) diz assim: “A etnografia observa, analisa e descreve uma determinada cultura e a etnologia sistematiza, compara, generaliza e interpreta em termos gerais”. Também, segundo ele, o folclore é o “ramo da etnografia que visa, em especial, a recolha e descrição das tradições orais, ou melhor, da literatura oral de qualquer povo”. Ergologia é o estudo da cultura material, enquanto etnossociologia consiste no estudo da estrutura social e da psicologia colectiva. De notar que, como as cantigas populares, também os provérbios, as adivinhas, lendas, contos, etc., fazem parte do folclore.
(Continua)
Artigo do Jornal “Publico” de 20 de Novembro de 1994, da autoria de António Cabral.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Concelho de Ílhavo - parte II

INSTRUÇÃO E CULTURA

Na sede do concelho, praticamente não existem analfabetos, uma vez que o seu número é bastante reduzido e contam-se às centenas os indivíduos habilitados com cursos médios, superiores e universitários, podendo mesmo afirmar-se que Ílhavo é a freguesia do País com maior percentagem de pessoas habilitadas com cursos superiores.
De resto, todo o concelho está coberto com uma rede de Escolas Primárias – oitenta salas de aula – onde recebem ensino elementar cerca de três mil crianças, possuindo também duas Escolas Preparatórias e um Posto de Telescola e ainda duas Escolas Secundárias, as quais, actualmente, vão satisfazendo as necessidades.
Do mesmo modo, a Educação Pré-Escolar, embora não abranja ainda todas as freguesias, é já ministrada em cinco Infantários e Jardins Escolas e ainda em três centros da A. T. L. – Actividades dos tempos livres – estando nesta altura, em construção, mais dois grandes imóveis destinados ao mesmo fim, sendo um deles para a educação de deficientes.

Ílhavo – Trecho da ria em frente à fábrica da Vista Alegre.

ASSISTÊNCIA À INFÂNCIA E À TERCEIRA IDADE

Além dos infantários, que já mencionei, duas outras fundações se ocupam da assistência à Infância e à Terceira Idade, em regime de Internato.
São elas a Casa da Criança, onde estão albergadas, sem que nada lhes falte, muitas dezenas de meninas e meninos e o Lar de S. José, um belo edifício rodeado de jardins, construído propositadamente para o apoio aos idosos e que tem capacidade para o internamento de sessenta pessoas.

Por Amadeu Eurípedes Cachim
In: Aveiro e o seu Distrito; revista nº 29 de Novembro de 1981

(Continua)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ranchos Folclóricos - I

O Jornal Publico de 20 de Novembro de 1994, publicou um pequeno artigo da autoria de António Cabral, com o título de “Ranchos Folclóricos”.
Neste início de época penso que será bastante oportuno, não só pelo método de escolha de grupos para os festivais, como também pelas directrizes a tomar na formação de um grupo.

Se neste ano de 1994 procurarmos saber que apreço têm os portugueses pelos ranchos folclóricos, somos bem capazes de apurar que, além da dedicação dos que a eles se ligam pelo trabalho, animação e direcção, existe a curiosidade de alguns estudiosos e o gosto de um público anónimo que, geralmente, não se interessa mais do que pelo espectáculo em si. Ora, é sobretudo o público anónimo que está em causa sempre que se quer avaliar a ressonância de um rancho folclórico.
Penso que a espectacularidade não deve ser objectivo número um, ainda que também seja um valor a considerar para quem se apresenta em publico. Ela pode conduzir a um estado geral de indiferença por aquilo que verdadeiramente é a cultura popular. Conduz, se o espectador não vê mais do que espectáculo. Porque este não penetra a fundo na alma.
É preciso que todos os ranchos ou grupos folclóricos tenham consciência do que representam, fazendo com que essa consciência se difunda por quem assiste às suas actuações. Para isso permitam-me que anuncie um dever fundamental: ser fiel ao património cultural da localidade em nome da qual se fala e actua. Essa fidelidade deve visar a linguagem, os instrumentos musicais, os passos coreográficos e o trajar. Adaptar palavras e expressões, usar instrumentos alheios ou sem uso local, copiar desenhos coreográficos próprios de outros sítios e alterar o traje que se usava constituem atentados à cultura. E é talvez por se ir tomando conhecimento disso que há muita gente que desdenha dos agrupamentos folclóricos, ainda que em muitos casos essa mesma gente só tenha palavras para censurar e não, como devia, para compreender, aconselhar, participar.
Dirigir ou pertencer a um rancho folclórico não é tarefa fácil, deixando já de parte o tempo ocupado na organização e ensaios, para além das recolhas. Fixando-nos nestas, há que reconhecer que todo e qualquer trabalho de levantamento sério é muito difícil, pelo grau de conhecimentos culturais que pressupõe. É que quase tudo o que se relaciona com o viver característico de uma comunidade deve ser considerado e arquivado, não esquecendo particularmente o contacto com as pessoas idosas, os registos paroquiais e outros, a arte caracteristicamente local, rezas, lendas, crenças, jogos, festas, usos e costumes.
(Continua)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Concelho de Ílhavo - parte I

Em 8 de Março de 1514, D. Manuel I concedeu foral ao Concelho de Ílhavo.
Embora pequeno, este concelho é um dos mais evoluídos, de mais elevado nível de vida e de maior densidade de população, do Distrito de Aveiro e encontra-se devidamente electrificado e dotado de uma extensa rede de distribuição de água, que atinge já todas as freguesias, bem como as praias da Barra e Costa Nova do Prado, mercê de um projecto apresentado pelo Município, o qual, em 1968 mereceu a aprovação e uma avultada comparticipação do Ministério das Obras Públicas.
Tem à volta de trinta mil habitantes, a maioria dos quais tem exercido a sua actividade nas fainas do mar, nos trabalhos da lavoura e nas lides domésticas.
Hoje, porém, graças ao grande desenvolvimento industrial, já muitos dos seus filhos encontram ocupação, tanto na parte administrativa como na parte técnica das muitas e variadas fábricas e oficinas, que têm sido construídas e postas a funcionar, tanto na Zona Industrial como em outros locais adequados.
Em todo o concelho nota-se também um enorme incremento urbanístico, com lindas vivendas edificadas por toda a parte, graças aos proventos auferidos pelos seus naturais, que desempenham as suas arriscadas funções nas várias modalidades da pesca, mas, principalmente, a bordo dos grandes arrastões, que vão laborar para zonas longínquas, como a Terra Nova, a África do Sul, a Noruega, a Mauritânia, etc., e ainda às remessas dos emigrantes, que, geralmente também em actividades ligadas ao mar, trabalham afincadamente, na América do Norte, no Canadá, na Alemanha, na Holanda, e na França.
O concelho é composto por quatro freguesias: Ílhavo, Gafanha da Nazaré, Gafanha da Encarnação e Gafanha do Carmo.
A sua sede – Ílhavo – é uma ridente vila, veleira e airosa, que fica situada a cinco quilómetros ao Sul da Cidade de Aveiro.
Esta proximidade, ao mesmo tempo que contribuiu para que, em tempos passados, os seus naturais estudassem no Liceu, na Escola Técnica e na Escola do Magistério daquela cidade, alcançando assim preparação para continuar os estudos, ou para desempenhar cargos de responsabilidade, tanto na função pública, como em actividades particulares, prejudicou-a, também, consideravelmente, no que diz respeito ao desenvolvimento comercial.
A população, muito activa e arrojada, pode dizer-se que é flutuante, uma vez que a maioria dos seus homens exerce a sua actividade profissional, desempenhando as funções de comandante, oficial ou marinheiro, nos vários navios que sulcam as águas dos oceanos e, orgulhosamente, levam a bandeira de Portugal aos portos de todo o mundo.
Assim, não é raro ouvir grupos de marinheiros contar episódios passados, quer em Hamburgo, em Londres, em Anvers, no Rio de Janeiro ou em Singapura, quer em S. João da Terra Nova, na cidade do Cabo ou em Holsteinsborg, como se estivessem a relatar casos ocorridos em terras vizinhas da sua.
As mulheres, particularmente as mais jovens, apresentam-se galantes no porte e no trajar e, talvez pela sua ascendência grega ou fenícia, são muito bonitas, alegres e donairosas, dando imensa graça e encanto à terra onde nasceram.
As outras três freguesias, que, há pouco de mais de um século, não passavam de areais estéreis, onde nada se criava, mercê do esforço hercúleo dos seus laboriosos habitantes – pé no barco, na apanha do moliço da Ria, pé em terra, nos esforçados trabalhos da lavoura – transformaram-se em ricas planícies aráveis, produtivas e muito férteis, onde abunda o milho, o feijão, a ervilha, as pastagens e, principalmente a batata.
Esta riqueza, juntamente com o ganho dos que andam no mar ou estão emigrados, contribuiu para que todas elas, particularmente a Gafanha da Nazaré, atingissem um progresso extraordinário.
Nesta freguesia, que é hoje uma vila em constante desenvolvimento e sede de importantes e valiosas empresas de navegação e pesca, encontra-se situado o porto bacalhoeiro, onde, no regresso das longas viagens, se encontram ancorados dezenas de arrastões, que dão emprego a muitas centenas de pescadores, não só de Ílhavo e das Gafanhas, mas também de muitas outras terras do litoral.
A fim de trabalhar nas secas do bacalhau, deslocaram-se dos concelhos mais pobres do Nordeste Transmontano, do Alto Douro e das Beiras centenas de famílias, que aqui se radicaram, melhorando bastante o seu nível de vida e contribuindo para que a população aumentasse de uma forma considerável.

DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL
Além da antiga e aristocrática fábrica da Vista Alegre, conhecida em todo o país e até no estrangeiro, pela sua magnífica louça de porcelana e pelas finas e belas peças artísticas, tão admiradas e cobiçadas por toda a gente e que, na maior parte das vezes, são escolhidas para presentear as figuras gradas e representativas, que visitam a Nação Portuguesa, um grande surto industrial se tem feito sentir, desde há uns dez ou quinze anos.
A cerâmica – principalmente a fabricação de azulejos e mosaicos – a preparação de barros, a indústria química e os plásticos, a serração e carpintaria, a metalurgia, a pesca, a secagem do bacalhau, as conservas de peixe, a refrigeração e conservação do pescado e de outros produtos, além da construção naval, são algumas das principais indústrias do Concelho de Ílhavo, as quais empregam para cima de treze mil operários.

Praia da Barra (Ílhavo) – Trecho da Ria.

MEIO RURAL – EXPLORAÇÃO ÁGRO-PECUÁRIA
Além das férteis planícies, que já citei, da Nazaré, da Encarnação e do Carmo, também as Gafanhas d'Aquém e da Boavista, da freguesia de Ílhavo, são bastante produtivas, pois todo o seu solo, que é ubérrimo, se encontra muito bem aproveitado, não ficando nada a dever aos restantes lugares do interior da mesma freguesia, tanto a Norte como a Sul e a Nascente, onde se produz uma exploração agrícola intensiva, em regime de pequena propriedade.
Não é pois de admirar que deste concelho se exportem, todos os anos, avultadas quantidades de batata, de feijão e de ervilha, para os grandes centros de consumo e que, devido às boas pastagens, muito do leite aqui produzido, se destine ao abastecimento da capital.

Por Amadeu Eurípedes Cachim
In: Aveiro e o seu Distrito; revista nº 29 de Novembro de 1981

(Continua)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Feira à moda antiga

Hoje, dia de Feriado Municipal, o Grupo Etnográfico participou mais uma vez na "Feira à moda antiga". É uma ocasião excelente para mostrar as tradições e a cultura do nosso município. O Grupo Etnográfico participa com a sua tasquinha, onde serve uns petiscos apetitosos, e revive o modo como os nossos antepassados faziam as suas compras, comendo e bebendo, em são convívio onde não faltavam as danças e os cantares. (Foto do nosso arquivo)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Recordações

Ao remexer numa gaveta descobri esta fotografia antiga do Grupo Etnográfico. Não sei em que ano terá sido tirada. O local é no Jardim Oudinot, bem diferente do que está agora.
Se alguém quiser deixar uma achega quanto ao ano, estão à vontade. Eu só sei que nesta fotografia estou bem mais novo.

terça-feira, 30 de março de 2010

Uma terra feliz - III

Como notamos é a água o factor primordial que valoriza estes hectares de areias, hoje tornadas férteis pelo trabalho persistente do Gafanhão.
Estes terrenos acham-se extremamente subdivididos por numerosos lavradores e chegam a atingir preços elevados. Desta subdivisão resulta um facto importante: aqui e ali cada proprietário tem necessidade de construir as suas moradias e outras edificações, moinhos eiras, etc., o que determina não ser limitado a espaço restrito o terreno próprio para a área desta recente povoação, cujos fogos se comunicam por caminhos feitos na areia, havendo já algumas estradas mecanizadas a atravessar a Gafanha, ligando-a a Aveiro e Ílhavo.
O activo e forte Gafanhão, não emprega o seu tempo apenas no amanho do veludo macio das suas areias, dando-lhes a consistência precisa para a cultura por meio do moliço.
Se suspende o trabalho nos seus alfobres e se larga por momentos a rabiça do arado, logo maneia a cana de um remo para se arrojar às aventuras do oceano e forma assim as Companhas dos barcos do mar que quase todos os dias partem para a pesca, ali defronte da Gafanha, na praia da Costa Nova do Prado.
No lapso dessa ausência substituem-no, a moirejar nas lides agrícolas, as mulheres e rapazes, sempre robustos, sempre sadios.
Tão amigo do trabalho, como precisa o Gafanhão de esmola?
Não a pede. No seu ideal de amor pelo trabalho o homem da Gafanha não tem um único competidor que renegue para seu uso próprio a aplicação do decretado descanso diário, se dignamente executarmos a entidade legislativa dessa mesma medida económica e administrativa – o actual Congresso da Republica, que noite e dia trabalha incessantemente.
Jus lhe seja por haver assemelhado ao temperamento característico do rude Gafanhão meu patrício, que na sua nervosa persistência de se aplicar ao trabalho torna feliz e próspera a terra onde nasceu!
Texto de António Maria Lopes publicado no jornal “O Ilhavense” de 15 de Novembro de 1994.
É bonita a forma melodiosa como o autor retrata a nossa Gafanha.
Boas leituras
Rubem da Rocha

sábado, 27 de março de 2010

Convocatória

Maria da Ascensão Vilarinho Pata Farinha, presidente da Assembleia Geral do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, vem por este meio e no cumprimento do disposto no nº 2, alínea B) do Artigo 22º do Regulamento Interno desta Associação, convocar os associados para uma Assembleia Geral Ordinária, a ter lugar no dia 29 de Março, pelas 20:30 horas , na sede desta Associação, sita na Rua Cooperativa Humanitária, nº 11, na cidade da Gafanha da Nazaré, com a seguinte ordem de trabalhos:
1- Leitura da Acta anterior,
2 - Discussão e votação do Relatório de Actividades do ano de 2009,
3 - Discussão e votação das Contas do ano de 2009,
4 - Votação do Parecer do Conselho Fiscal às contas do ano de 2009,
5 - Outros assuntos de interesse para a Associação.
No caso de à hora marcada para o início desta Assembleia Geral, não estarem presentes o número mínimo legal de Associados, será a mesma suspensa e na mesma data, local e com a mesma ordem de trabalhos, funcionará passados 30 minutos, com qualquer número de Associados presentes (Alínea 2 do Artigo 25º do Regulamento Interno).

quinta-feira, 25 de março de 2010

Número redondo

Atingimos hoje a marca de 10.000 visitas.
É algo que eu não esperava atingir tão cedo.
Este blog ainda não tem dois anos de vida (faltam 4 meses) e conseguimos já um número de visitas com alguma relevância.
Esperamos continuar a crescer e a aumentar o número de visitas diárias enquanto damos corpo aos propósitos para que foi criado o Grupo Etnográfico.
Obrigado a todos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Uma terra feliz - II


Estende-se sobre dunas de areias, circundadas pelas rias de Ílhavo e Aveiro, constituindo uma freguesia autónoma daquele concelho.
Ainda ontem essa região enorme tinha o carácter desolador de um deserto, mas hoje cada grão de areia é, por assim dizer, o gérmen produtor de microgramas de ouro, tão frisante se mostra o esforço de actividade com que, nestes últimos tempos, o Gafanhão tem transformado a natureza de toda aquela enorme zona arenosa.
Quem fecundou essa areia solta, sem coesão das plantas, a ponto de se obter este milagre admirável da sua actual fertilidade agrícola?
O delta luminoso do Vouga, que afaga e aperta a Gafanha num abraço de águas, ora permanente, ora alternativo, inundando-a agora, para logo a deixar enxuta.
Mas nem só desse fluxo e refluxo de águas dependem a vida e a riqueza desses terrenos arenosos. A ria tem no fundo do seu leito o elemento característico que aduba as areias e as corrige na sua adaptação a variadas culturas.
O adubo gerador dessa fertilidade é constituído pelo moliço, algas arrancadas pelo braço do Gafanhão ao leito da ria, e cujo mister, só por si, dá origem a uma fonte de grande receita para todos os povos ribeirinhos. A apanha dessas algas é feita de bordo de barcos moliceiros, de feitio muito original, que percorrem a ria em todas as direcções, sendo transportadas depois para terra por meio de carros de bois, de antigo tipo romano. O valor anual do moliço, é comportado em cerca de duzentos contos, em grande parte gasto no adubo das areias da Gafanha.
Não admira que toda esta riqueza seja produzida pela ria, se atendermos a que a sua área é de nove mil duzentos e setenta hectares, e que as suas águas marginais atravessam terrenos de dois distritos, seis concelhos e vinte e seis freguesias.
Alem disto estas águas tão prudentemente aproveitadas pelo Gafanhão, não lhe produzem somente o moliço. São ainda outras as fontes de riqueza da ria, como as que provêem da pesca, da caça, do sal das marinhas, da junca, do caniço, que poderemos orçar no valor de outros duzentos contos anuais.
Por aqui se vê que ária constitui uma região aquática de variados recursos, única no pais e que cientificamente explorada, sem a feição atrasada do trabalho que a depaupera, em vez de lhe conservar a opulência da sua produção, tornaria rica e feliz toda a província da Beira-mar.


Texto de António Maria Lopes publicado no jornal “O Ilhavense” de 15 de Novembro de 1994.

(Continua)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Cantar das Almas

"Em certos e determinados dias da Quaresma, homens e mulheres em grupo que a pouco e pouco ia crescendo, percorriam o lugar quando todos se preparavam para descansar das fadigas diurnas. Painel de madeira à frente, ladeado de duas lanternas, lá seguia o grupo que ajoelhava a cada porta, de mãos postas, rostos piedosamente inclinados, a rezar, a pedir pelos que tinham partido daquele lar." (in Monografia da Gafanha, pág. 126).
No sábado passado, perante uma plateia numerosa que enchia o Salão Mãe do Redentor, na Igreja Matriz da Gafanha da Nazaré, o Grupo Etnográfico organizou o reviver do Cantar das Almas.
Estiveram também presentes o vereador da Câmara Municipal, Eng. Paulo Costa, o presidente da Junta, sr. Manuel Serra e o sr. Prior, Padre Francisco, que não quiseram deixar passar a oportunidade de manifestar o seu apoio a mais esta iniciativa cultural do Grupo Etnográfico. Não posso deixar de referir a presença já habitual do nosso grande amigo, Prof. Fernando Martins, que proferiu a palestra inicial, dando-nos uma visão histórica desta tradição secular.

A família reunida, à noite, depois de um dia de trabalho intenso, prepara-se para jantar e ouve ao longe a campaínha e os cânticos que se aproximam.

A porta é aberta e todos entram para a "Sala do Senhor" onde, de joelhos em terra se reza pelas almas dos que daquela casa já partiram.

Acabada a reza, é hora de receber um alqueire de milho que será usado para mandar rezar missas pelas "Almas do Purgatório".

Este ano, o Grupo Etnográfico convidou para esta iniciativa o Grupo Etnográfico de Danças e Cantares de Fermedo e Mato, de Arouca. Este Grupo trouxe-nos as suas tradições de "Amentar as Almas". No silêncio profundo da noite, quando todos dormiam, ouvia-se na solidão a rogativa plangente e profunda de alguém que, percorrendo a povoação entoava em voz alta:
-Alerta, pecador, alerta!
-A vida é curta, a morte é certa!
-Se estais a dormir acordai, se estais acordados rezai!
-Padre Nosso e Avé Maria, pelas almas...
No final, Alfredo Ferreira da Silva, presidente do Grupo Etnográfico salientou a importância de iniciativas desta natureza para preservação e salvaguarda das riquezas do património imaterial do povo português. Agradeceu, ainda, a presença do Grupo convidado, bem como das autoridades presentes e de todas as pessoas que quiseram associar-se a esta iniciativa, colaborando e apoiando o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré.

sábado, 20 de março de 2010

Uma terra feliz - I


Enquanto arrumava alguns jornais mais antigos, encontrei um pequeno escrito no jornal “O Ilhavense”, de 15 de Novembro de 1994, da autoria de António Maria Lopes”, com o titulo de “Uma Terra Feliz” e que também tinha sido publicado na revista “Ilustração portuguesa” nº 504. Este artigo relata bem o que foi a nossa Gafanha em tempos mais recuados.

Quem ler o título supõe logo: - não é em Portugal, decerto, essa terra feliz. Coloca-a na Suiça, ou sai mesmo da Europa, transpõe o Atlântico e imagina-a nos confins da América.
Engano. É um ninho de paz e de trabalho, um recanto mimoso de verduras, ignorado, escondido sobre areias de Portugal, no concelho de Ílhavo.
Exige naturalmente o leitor, mesmo antes de conhecer o nome da povoação, que se lhe indiquem a causa e os motivos que concorrem para qualificar sob tão sedutor adjectivo esse encanto do nosso pais.
Bem simples.
É feliz essa terra porque lá não se pede esmola!
E eis nisto todo o seu valor.
O seu povo não tem feitos políticos, sociais ou religiosos que lhe definam carácter etnográfico. O livro dourado da História não apresenta uma única folha a atribuir-lhe gestos heróicos, guerreiros, altruístas, denunciando a natureza do sangue que lhe corre nas veias.
Não é gente que pertença ao cinema da política, nem desta seja comparsa neste decurso de trevas e de luz em que a nacionalidade portuguesa tem desenrolado a fita cinematográfica da sua existência.
Terra pacífica, meiga e alegre como um beijo de mãe, caído nos lábios de um filho, forma como que uma pequena pátria nesta grande pátria nacional.
E sabeis já porquê.
Porque lá não se pede esmola!
E eis nesta afirmação a síntese luminosa de uma redentora lição de civismo, de influência salutar para quantos povos lhe queiram seguir o exemplo. Essa lição bem poderia ser apontada à hoste dos sem trabalho que ultimamente pululam pelos centros citadinos, e entre os quais a própria capital possui um avultado stock.
Abençoado berço de homens é esse, onde cada um deles sabe ganhar o pão de cada dia, sem estender a mão à caridade.
E sabe-o ganhar porque, desde criança, todo o seu ser se prende à paixão sublime de saber amar o trabalho.
Encontro neste tempo regional de português de fundo étnico de raça de grande valor social, invulgar, desconhecido e que parece o leva a afastar-se sistematicamente dos enredos da política e das teorias avançadas das modernas aspirações sociais.
O valor da sua missão civilizadora e progressiva é contudo muito notável, visto que só pelo esforço do seu braço e da sua acção individual tem transformado extensas dunas de areias em campos que são verdadeiros jardins.
Essa terra chama-se Gafanha; é uma povoação moderna, de tipos fortes, loiros, requeimados pelo sol, vendendo saúde.
(Continua)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Cantar as Almas


Mais uma vez este ano, e com o intuito de preservar e reviver tradições antigas, conforme consta dos propósitos da sua formação, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré vai organizar "O Cantar das Almas".

Será no próximo dia 20 de Março, sábado, pelas 21 horas e 30 minutos, no Salão Mãe do Redentor, na Igreja Matriz da Gafanha da Nazaré.

Todos estão convidados para reviver uma das tradições mais antigas da Gafanha da Nazaré.

A entrada é grátis.

domingo, 14 de março de 2010

Calendário de saídas para 2010

20 / 03 / 2010 - "Cantar das Almas" no Salão Mãe do Redentor, na Igreja Matriz

05 / 04 / 2010 - Feira à moda antiga - Ílhavo

18 / 04 / 2010 - Feira de Março

15 / o5 / 2010 - Rancho Folclórico Flor do Sabugueiro - Tarouca

29 / 05 / 2010 - Grupo Folclórico de Taveiro - Taveiro

06 / 06 / 2010 - Rancho Folclórico da Casa do Povo de Calendário - V.N. Famalicão

26 / 06 / 2010 - Rancho Folclórico da Casa do Povo de Ponte de Sor - Ponte de Sor

10 / 07 / 2010 - XXVII Festival Nacional de Folclore da Gafanha da Nazaré

17 07 / 2010 - Grupo Folclórico de São Torcato - Guimarães

24 / 07 / 2010 - Grupo de Danças e Cantares "Olhos de Água" - Pinhal Novo

07 / 08 / 2010 - XII Festival Nacional de Folclore Barra 2010 - Praia de Barra

14 / 08 / 2010 - Rancho Folclórico e Etnográfico de Vale de Açores - Mortágua

11 / 09 / 2010 - Grupo Folclórico "As Ceifeiras da Corujeira" - São Martinho do Bispo

19 / 09 / 2010 - Festa em Honra de Nossa Senhora dos Navegantes

quarta-feira, 10 de março de 2010

A Sarr’á Velha

Este tempo de Quaresma é cheio de tradições e simbolismos. Vamos ver o que nos diz a Sr.ª Professora Maria Teresa Reigota, no Seu livro “Gafanha…o que ainda vi, ouvi e recordo”, sobre a tradição da Sarr’á Velha

Era uma tradição que acontecia na noite que marcava o meio da Quaresma.
Com este uso, pretendia-se desafogar um pouco das normas rígidas de preparação para a Páscoa – o jejum, a abstinência de carne, mas acima de tudo, a abstinência de certos prazeres como os bailaricos ou outros folguedos.
Nessa noite de quarta-feira, os moços da Gafanha nos diversos lugares ou aglomerados, juntavam-se e iam “sarrar a belha”.
Uns muniam-se de um ou mais alcatruzes velhos dos engenhos dos poços de rega e metiam uma corrente de bicicleta no orifício do fundo, puxando para um lado e, para o outro, fazendo um barulho ensurdecedor à porta da velha que tinham sob mira. Outros, tal como faziam seus antepassados, talhavam num pau, uns dentes como se fosse uma serra e ao passarem na janela da dita velha escolhida por eles, passavam essa espécie de serra no parapeito. Fazia também muito barulho, embora menos intenso. Corriam toda a localidade, mas apenas importunavam as velhas que eles tinham escolhido.
Diziam à porta de cada uma:
“Ó belha, ó belha
‘stás im tempo d’andar
Desta noite no’scapas
Biemos pra te sarrar”
Claro que algumas velhinhas não se zangavam, pois era tradição, era uso e costume transmitido de geração em geração. Mas outras era “um Deus nos acuda”, respondendo aos moços, lá dentro da sua casa, com os mais diversos palavrões e impropérios. Por vezes, abrindo discretamente uma janela ou uma porta arremessavam sobre eles um balde de sugo do gado ou o penico cheio de urina.
Lembro-me que a uma tia minha, que hoje teria cento e dez anos, pois nasceu em 19 de Março de 1898, amarravam-lhe uma caneca de esmalte já velha, na aldraba do portão do pátio. Escondidos, em frente da casa num pequeno declive que ali existia, puxavam a caneca por um fio que lhe tinham atado. Evidentemente, a caneca fazia um barulho grande. Ela, lá de dentro, ralhou, barafustou, chamou aos moços os nomes feios todos, enfim, um nunca mais acabar de palavreado menos próprio. Mas eles cantaram-lhe a cantiga atrás escrita.
Aí foi o caos – apesar de não ser nova, estar viúva, não ter filhos e viver sozinha, saiu-lhes à rua de cajado em punho e, foita e valente como sempre fora, correu-os dizendo:
“-Ah, seus isto, seus aquilo, quereis qu’eu morra, há-dem morrer vocêzes primeiro e eu ajudo a interrá-los e ópois salto em riba da coba, prá terra bos pesar mais.”
É claro que os moços fugiram, porque na verdade, com essa minha tia não se brincava.
Mas a rapaziada, apesar desta troca de paleio menos próprio, da baldada de sugo ou urina e até do ameaço do cajado, não desanimava e prosseguia em silêncio até à porta doutra velhota que tinham em mira, e recomeçavam o mesmo ritual.
Esta tradição foi-se perdendo e a juventude começou a ir ao “baile da Micaréme”, que se fazia, como o nome afrancesado indica, também a meio do período da quaresma, na próxima vila de Ílhavo, hoje cidade.

Como vemos, a época da Quaresma é cheia de tradições e simbolismos que encheram de alegria os nossos antepassados e que nos fazem divertir hoje quando os lemos.
Boas leituras
Rubem da Rocha

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