sábado, 27 de março de 2010

Convocatória

Maria da Ascensão Vilarinho Pata Farinha, presidente da Assembleia Geral do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, vem por este meio e no cumprimento do disposto no nº 2, alínea B) do Artigo 22º do Regulamento Interno desta Associação, convocar os associados para uma Assembleia Geral Ordinária, a ter lugar no dia 29 de Março, pelas 20:30 horas , na sede desta Associação, sita na Rua Cooperativa Humanitária, nº 11, na cidade da Gafanha da Nazaré, com a seguinte ordem de trabalhos:
1- Leitura da Acta anterior,
2 - Discussão e votação do Relatório de Actividades do ano de 2009,
3 - Discussão e votação das Contas do ano de 2009,
4 - Votação do Parecer do Conselho Fiscal às contas do ano de 2009,
5 - Outros assuntos de interesse para a Associação.
No caso de à hora marcada para o início desta Assembleia Geral, não estarem presentes o número mínimo legal de Associados, será a mesma suspensa e na mesma data, local e com a mesma ordem de trabalhos, funcionará passados 30 minutos, com qualquer número de Associados presentes (Alínea 2 do Artigo 25º do Regulamento Interno).

quinta-feira, 25 de março de 2010

Número redondo

Atingimos hoje a marca de 10.000 visitas.
É algo que eu não esperava atingir tão cedo.
Este blog ainda não tem dois anos de vida (faltam 4 meses) e conseguimos já um número de visitas com alguma relevância.
Esperamos continuar a crescer e a aumentar o número de visitas diárias enquanto damos corpo aos propósitos para que foi criado o Grupo Etnográfico.
Obrigado a todos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Uma terra feliz - II


Estende-se sobre dunas de areias, circundadas pelas rias de Ílhavo e Aveiro, constituindo uma freguesia autónoma daquele concelho.
Ainda ontem essa região enorme tinha o carácter desolador de um deserto, mas hoje cada grão de areia é, por assim dizer, o gérmen produtor de microgramas de ouro, tão frisante se mostra o esforço de actividade com que, nestes últimos tempos, o Gafanhão tem transformado a natureza de toda aquela enorme zona arenosa.
Quem fecundou essa areia solta, sem coesão das plantas, a ponto de se obter este milagre admirável da sua actual fertilidade agrícola?
O delta luminoso do Vouga, que afaga e aperta a Gafanha num abraço de águas, ora permanente, ora alternativo, inundando-a agora, para logo a deixar enxuta.
Mas nem só desse fluxo e refluxo de águas dependem a vida e a riqueza desses terrenos arenosos. A ria tem no fundo do seu leito o elemento característico que aduba as areias e as corrige na sua adaptação a variadas culturas.
O adubo gerador dessa fertilidade é constituído pelo moliço, algas arrancadas pelo braço do Gafanhão ao leito da ria, e cujo mister, só por si, dá origem a uma fonte de grande receita para todos os povos ribeirinhos. A apanha dessas algas é feita de bordo de barcos moliceiros, de feitio muito original, que percorrem a ria em todas as direcções, sendo transportadas depois para terra por meio de carros de bois, de antigo tipo romano. O valor anual do moliço, é comportado em cerca de duzentos contos, em grande parte gasto no adubo das areias da Gafanha.
Não admira que toda esta riqueza seja produzida pela ria, se atendermos a que a sua área é de nove mil duzentos e setenta hectares, e que as suas águas marginais atravessam terrenos de dois distritos, seis concelhos e vinte e seis freguesias.
Alem disto estas águas tão prudentemente aproveitadas pelo Gafanhão, não lhe produzem somente o moliço. São ainda outras as fontes de riqueza da ria, como as que provêem da pesca, da caça, do sal das marinhas, da junca, do caniço, que poderemos orçar no valor de outros duzentos contos anuais.
Por aqui se vê que ária constitui uma região aquática de variados recursos, única no pais e que cientificamente explorada, sem a feição atrasada do trabalho que a depaupera, em vez de lhe conservar a opulência da sua produção, tornaria rica e feliz toda a província da Beira-mar.


Texto de António Maria Lopes publicado no jornal “O Ilhavense” de 15 de Novembro de 1994.

(Continua)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Cantar das Almas

"Em certos e determinados dias da Quaresma, homens e mulheres em grupo que a pouco e pouco ia crescendo, percorriam o lugar quando todos se preparavam para descansar das fadigas diurnas. Painel de madeira à frente, ladeado de duas lanternas, lá seguia o grupo que ajoelhava a cada porta, de mãos postas, rostos piedosamente inclinados, a rezar, a pedir pelos que tinham partido daquele lar." (in Monografia da Gafanha, pág. 126).
No sábado passado, perante uma plateia numerosa que enchia o Salão Mãe do Redentor, na Igreja Matriz da Gafanha da Nazaré, o Grupo Etnográfico organizou o reviver do Cantar das Almas.
Estiveram também presentes o vereador da Câmara Municipal, Eng. Paulo Costa, o presidente da Junta, sr. Manuel Serra e o sr. Prior, Padre Francisco, que não quiseram deixar passar a oportunidade de manifestar o seu apoio a mais esta iniciativa cultural do Grupo Etnográfico. Não posso deixar de referir a presença já habitual do nosso grande amigo, Prof. Fernando Martins, que proferiu a palestra inicial, dando-nos uma visão histórica desta tradição secular.

A família reunida, à noite, depois de um dia de trabalho intenso, prepara-se para jantar e ouve ao longe a campaínha e os cânticos que se aproximam.

A porta é aberta e todos entram para a "Sala do Senhor" onde, de joelhos em terra se reza pelas almas dos que daquela casa já partiram.

Acabada a reza, é hora de receber um alqueire de milho que será usado para mandar rezar missas pelas "Almas do Purgatório".

Este ano, o Grupo Etnográfico convidou para esta iniciativa o Grupo Etnográfico de Danças e Cantares de Fermedo e Mato, de Arouca. Este Grupo trouxe-nos as suas tradições de "Amentar as Almas". No silêncio profundo da noite, quando todos dormiam, ouvia-se na solidão a rogativa plangente e profunda de alguém que, percorrendo a povoação entoava em voz alta:
-Alerta, pecador, alerta!
-A vida é curta, a morte é certa!
-Se estais a dormir acordai, se estais acordados rezai!
-Padre Nosso e Avé Maria, pelas almas...
No final, Alfredo Ferreira da Silva, presidente do Grupo Etnográfico salientou a importância de iniciativas desta natureza para preservação e salvaguarda das riquezas do património imaterial do povo português. Agradeceu, ainda, a presença do Grupo convidado, bem como das autoridades presentes e de todas as pessoas que quiseram associar-se a esta iniciativa, colaborando e apoiando o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré.

sábado, 20 de março de 2010

Uma terra feliz - I


Enquanto arrumava alguns jornais mais antigos, encontrei um pequeno escrito no jornal “O Ilhavense”, de 15 de Novembro de 1994, da autoria de António Maria Lopes”, com o titulo de “Uma Terra Feliz” e que também tinha sido publicado na revista “Ilustração portuguesa” nº 504. Este artigo relata bem o que foi a nossa Gafanha em tempos mais recuados.

Quem ler o título supõe logo: - não é em Portugal, decerto, essa terra feliz. Coloca-a na Suiça, ou sai mesmo da Europa, transpõe o Atlântico e imagina-a nos confins da América.
Engano. É um ninho de paz e de trabalho, um recanto mimoso de verduras, ignorado, escondido sobre areias de Portugal, no concelho de Ílhavo.
Exige naturalmente o leitor, mesmo antes de conhecer o nome da povoação, que se lhe indiquem a causa e os motivos que concorrem para qualificar sob tão sedutor adjectivo esse encanto do nosso pais.
Bem simples.
É feliz essa terra porque lá não se pede esmola!
E eis nisto todo o seu valor.
O seu povo não tem feitos políticos, sociais ou religiosos que lhe definam carácter etnográfico. O livro dourado da História não apresenta uma única folha a atribuir-lhe gestos heróicos, guerreiros, altruístas, denunciando a natureza do sangue que lhe corre nas veias.
Não é gente que pertença ao cinema da política, nem desta seja comparsa neste decurso de trevas e de luz em que a nacionalidade portuguesa tem desenrolado a fita cinematográfica da sua existência.
Terra pacífica, meiga e alegre como um beijo de mãe, caído nos lábios de um filho, forma como que uma pequena pátria nesta grande pátria nacional.
E sabeis já porquê.
Porque lá não se pede esmola!
E eis nesta afirmação a síntese luminosa de uma redentora lição de civismo, de influência salutar para quantos povos lhe queiram seguir o exemplo. Essa lição bem poderia ser apontada à hoste dos sem trabalho que ultimamente pululam pelos centros citadinos, e entre os quais a própria capital possui um avultado stock.
Abençoado berço de homens é esse, onde cada um deles sabe ganhar o pão de cada dia, sem estender a mão à caridade.
E sabe-o ganhar porque, desde criança, todo o seu ser se prende à paixão sublime de saber amar o trabalho.
Encontro neste tempo regional de português de fundo étnico de raça de grande valor social, invulgar, desconhecido e que parece o leva a afastar-se sistematicamente dos enredos da política e das teorias avançadas das modernas aspirações sociais.
O valor da sua missão civilizadora e progressiva é contudo muito notável, visto que só pelo esforço do seu braço e da sua acção individual tem transformado extensas dunas de areias em campos que são verdadeiros jardins.
Essa terra chama-se Gafanha; é uma povoação moderna, de tipos fortes, loiros, requeimados pelo sol, vendendo saúde.
(Continua)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Cantar as Almas


Mais uma vez este ano, e com o intuito de preservar e reviver tradições antigas, conforme consta dos propósitos da sua formação, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré vai organizar "O Cantar das Almas".

Será no próximo dia 20 de Março, sábado, pelas 21 horas e 30 minutos, no Salão Mãe do Redentor, na Igreja Matriz da Gafanha da Nazaré.

Todos estão convidados para reviver uma das tradições mais antigas da Gafanha da Nazaré.

A entrada é grátis.

domingo, 14 de março de 2010

Calendário de saídas para 2010

20 / 03 / 2010 - "Cantar das Almas" no Salão Mãe do Redentor, na Igreja Matriz

05 / 04 / 2010 - Feira à moda antiga - Ílhavo

18 / 04 / 2010 - Feira de Março

15 / o5 / 2010 - Rancho Folclórico Flor do Sabugueiro - Tarouca

29 / 05 / 2010 - Grupo Folclórico de Taveiro - Taveiro

06 / 06 / 2010 - Rancho Folclórico da Casa do Povo de Calendário - V.N. Famalicão

26 / 06 / 2010 - Rancho Folclórico da Casa do Povo de Ponte de Sor - Ponte de Sor

10 / 07 / 2010 - XXVII Festival Nacional de Folclore da Gafanha da Nazaré

17 07 / 2010 - Grupo Folclórico de São Torcato - Guimarães

24 / 07 / 2010 - Grupo de Danças e Cantares "Olhos de Água" - Pinhal Novo

07 / 08 / 2010 - XII Festival Nacional de Folclore Barra 2010 - Praia de Barra

14 / 08 / 2010 - Rancho Folclórico e Etnográfico de Vale de Açores - Mortágua

11 / 09 / 2010 - Grupo Folclórico "As Ceifeiras da Corujeira" - São Martinho do Bispo

19 / 09 / 2010 - Festa em Honra de Nossa Senhora dos Navegantes

quarta-feira, 10 de março de 2010

A Sarr’á Velha

Este tempo de Quaresma é cheio de tradições e simbolismos. Vamos ver o que nos diz a Sr.ª Professora Maria Teresa Reigota, no Seu livro “Gafanha…o que ainda vi, ouvi e recordo”, sobre a tradição da Sarr’á Velha

Era uma tradição que acontecia na noite que marcava o meio da Quaresma.
Com este uso, pretendia-se desafogar um pouco das normas rígidas de preparação para a Páscoa – o jejum, a abstinência de carne, mas acima de tudo, a abstinência de certos prazeres como os bailaricos ou outros folguedos.
Nessa noite de quarta-feira, os moços da Gafanha nos diversos lugares ou aglomerados, juntavam-se e iam “sarrar a belha”.
Uns muniam-se de um ou mais alcatruzes velhos dos engenhos dos poços de rega e metiam uma corrente de bicicleta no orifício do fundo, puxando para um lado e, para o outro, fazendo um barulho ensurdecedor à porta da velha que tinham sob mira. Outros, tal como faziam seus antepassados, talhavam num pau, uns dentes como se fosse uma serra e ao passarem na janela da dita velha escolhida por eles, passavam essa espécie de serra no parapeito. Fazia também muito barulho, embora menos intenso. Corriam toda a localidade, mas apenas importunavam as velhas que eles tinham escolhido.
Diziam à porta de cada uma:
“Ó belha, ó belha
‘stás im tempo d’andar
Desta noite no’scapas
Biemos pra te sarrar”
Claro que algumas velhinhas não se zangavam, pois era tradição, era uso e costume transmitido de geração em geração. Mas outras era “um Deus nos acuda”, respondendo aos moços, lá dentro da sua casa, com os mais diversos palavrões e impropérios. Por vezes, abrindo discretamente uma janela ou uma porta arremessavam sobre eles um balde de sugo do gado ou o penico cheio de urina.
Lembro-me que a uma tia minha, que hoje teria cento e dez anos, pois nasceu em 19 de Março de 1898, amarravam-lhe uma caneca de esmalte já velha, na aldraba do portão do pátio. Escondidos, em frente da casa num pequeno declive que ali existia, puxavam a caneca por um fio que lhe tinham atado. Evidentemente, a caneca fazia um barulho grande. Ela, lá de dentro, ralhou, barafustou, chamou aos moços os nomes feios todos, enfim, um nunca mais acabar de palavreado menos próprio. Mas eles cantaram-lhe a cantiga atrás escrita.
Aí foi o caos – apesar de não ser nova, estar viúva, não ter filhos e viver sozinha, saiu-lhes à rua de cajado em punho e, foita e valente como sempre fora, correu-os dizendo:
“-Ah, seus isto, seus aquilo, quereis qu’eu morra, há-dem morrer vocêzes primeiro e eu ajudo a interrá-los e ópois salto em riba da coba, prá terra bos pesar mais.”
É claro que os moços fugiram, porque na verdade, com essa minha tia não se brincava.
Mas a rapaziada, apesar desta troca de paleio menos próprio, da baldada de sugo ou urina e até do ameaço do cajado, não desanimava e prosseguia em silêncio até à porta doutra velhota que tinham em mira, e recomeçavam o mesmo ritual.
Esta tradição foi-se perdendo e a juventude começou a ir ao “baile da Micaréme”, que se fazia, como o nome afrancesado indica, também a meio do período da quaresma, na próxima vila de Ílhavo, hoje cidade.

Como vemos, a época da Quaresma é cheia de tradições e simbolismos que encheram de alegria os nossos antepassados e que nos fazem divertir hoje quando os lemos.
Boas leituras
Rubem da Rocha

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Dança popular no Distrito de Aveiro

O Distrito de Aveiro, no que diga respeito a danças e cantares, distingue-se sobremaneira dos demais, dada a diversidade das zonas que abrange.
Senão vejamos.
A norte do Concelho de Castelo de Paiva – reduto duriense, onde a chula não dá, às claras, por tal nome e, antes, surge em pormenores (remates ou mesmo figuras!) – a canção, a par do bailado, em beleza e pureza, não tem rival.
Mais ao sul e a poente, outra região se nos depara: a das antigas Terras da Feira, a que pertence Arouca e, ainda, a Vila da Feira, Oliveira de Azeméis e todo o Vale de Cambra. Mas duas outras áreas nos merecem, também, estudo: a do Litoral, que, em Ovar, tem o seu expoente coreográfico máximo e a dos Campos de Coimbra, de que o concelho de Águeda é alto estandarte. O mar dança e a serra canta...
Todavia, o diálogo mantido por ambos, através de romarias, tais como a da Senhora da Saúde, em Coimbra, a 15 de Agosto de cada ano, foi dando a uns o que faltava a outros. Assim, diremos que, aos serranos, os vareiros ensinaram o vira, a que os da montanha chamam «Valseado» e, aos da planície, os da serra foram mostrando as suas «Cantas», reservando, para si, os «Cramóis» – cantares a três vozes – aprendidos na escola que, durante séculos, regeram as monjas da Rainha Dona Mafalda, do Mosteiro de Arouca...
Feita semelhante destrinça, fácil será, depois, vermos quais as danças dominantes em Paiva, nas Terras da Feira, no Litoral e em Águeda (ou, por outra: nos Campos de Coimbra)...
Em Paiva, todos os bailados (incluindo os de roda!) são resultantes da Chula duriense.
No Litoral, a dança é o Vira que usa mil nomes: Vira Vareiro, Real Caninha, Vira Flor, Vira de Trempes, Vira Corrido, Tirana, Vira Pescador, Ensarilhado...
E há, ali, além, dele, uma dança para a estrada, moda de ir para a festa, rusga que, tanto em Ovar como em Esmoriz, é conhecido pelo título de «Mansidão»...
Nas terras da Feira, ao lado do Corre-Corre e da Rabela, de Moldes (no Concelho de Arouca) do Verdegar e da Pasto­rinha, de Paços de Brandão (no Concelho de Vila da Feira) do Malhão, dançado no lugar de S. Pedro de Nabais, da freguesia de Escariz (no Concelho de Arouca) do Senhor da Pedra, comum a todas estas freguesias, e da Cana (ou Caninha) Verde de Oito, de Moldes (no Concelho de Arouca) há três Viras, a saber:
O «Valseado» (a que já nos referimos), o Vira de Cruz (por vezes chamado «Vira de Quatro») e a Tirana.
Muito afeiçoado pelo Povo, este último, dançado como o dançam, actualmente, em Cidacos (no Concelho de Oliveira de Azeméis) é, ao lado do Vira de Cruz de Vila Verde (no Distrito de Braga), o mais brilhante vira português, depois da Góta do Alto-Minho.
Mas atravessemos o Vouga...
Logo, quer no estilo dos passos, quer na toada dos cantares, encontraremos os frutos do casamento feliz entre a Feira e a campina coimbrã e o da serrania beiroa com o vale de Águeda.
Das Terras da Feira recebeu Águeda o Vira de Quatro, da Beira, mil danças de roda e, de Coimbra, esse famoso Malhão, dança mandada cuja melodia, na voz de Armindo dos Santos, já deu a volta ao continente português...
– Em Águeda, haverá folclore? – perguntou-me um dia alguém. – Sim. As danças de roda – respondi.
As rodas! – eis a feição principal a autêntica dança bairradina.
Por mais que se esfolhem arquivos os quais, entre nós, nunca foram outros senão testemunhos de pessoas de idade, nada encontraremos em desabono de tal afirmação. E poderemos atribuir importância menor a tal facto se, naqueles bailados, em que a melodia e a letra desempenham papel de relevo, o povo se espelha tal qual é?
Estamos, evidentemente, longe da complicação coreográfica do Alto-Minho, pois, de braço dado com a música, a dança aguedense vive mais do canto e das atitudes do que dos passos.
Em Águeda, o alfabeto artístico principia pela cantiga. O resto virá em seguida, naturalmente, limitando-se ao bater de palmas e à corrida. Toda via, mesmo assim, as rodas oferecem grande variedade. E embora junto à Fonte do Botaréu (essa fonte a que António Nobre se refere no seu livro «SÓ»!) faltem Gótas e Fandangos, não admira que as modas de roda, lá, surjam frescas, espontâneas como água, capaz de encher os cântaros de toda a gente. E nada é mais poético (nem mais exacto!) do que o espectáculo dos homens espadaúdos que, docilmente, vão dando as mãos às raparigas, em volta das fogueiras, pelo S. Pedro, e cantam:

Enquanto o rio sozinho,
Vai correndo para o mar,
Fica a triste lavadeira
Sempre a lavar, a lavar.

As lavadeiras à noite
No meio do areal
Para fazer cabeceira
Tiram o seu avental.

Até aqui, o bailado resume-se a um vagarosíssimo passeio. Mas vem, logo, o estribilho, quando as mulheres, primeiro, e os homens, em seguida, batem palmas, indo ao centro:

Bate lavadeira
Lavadeira, bate!
Que as nossas cantigas
Não têm remate!

Nessa altura, o coro, repetido à laia de desafio, uma vez por elas, outra, por eles, dá-nos a medida do vigor de que também são capazes aqueles que ainda há pouco se deixavam embalar pela doçura do próprio timbre...
Todavia, de todas as danças de roda que, na mocidade, nos foi possível aprender, a do «ABRACINHO» será, talvez, a mais representativa. De começo lenta, vai-se acelerando, até findar, vertiginosamente.
Na Bairrada, a dança resulta da canção. Em Águeda, dança-se muito, só porque muito se canta.
Em Águeda?
Sim. Na Águeda da minha infância, Águeda das novenas ao Gravanço, Águeda que ia de barco ao S. Geraldo e a pé às almas de Areosa, Águeda da minha saudade! Águeda das danças de roda...
Eis, a traços nítidos, a panorâmica da coreografia do Distrito de Aveiro. Ficamos, no entanto, à espera de que, de ano para ano, outros grupos etnográficos se evidenciem, correspondendo ao apelo de Anto!
– «Que é dos Pintores do meu País estranho?
Onde estão eles que não vêm pintar?».
Para já, à margem dos ranchos oficializados (Grupo Folclórico da Casa do Povo de Castelo de Paiva, Conjunto Etnográfico de Moldes, Rancho de Merujal, Rancho de S. Pedro e Nabais, Rancho de Fajões, «Como Elas Cantam em Paços de Brandão», Grupo Folclórico de Cidacos – em Oliveira de Azeméis –, Rancho Folclórico de Ovar – dos lugares da Marinha e do Torrão de Lameiro – e Cancioneiro de Águeda) distinguiremos dois que, sinceramente, aplau­dimos: o da Ribeira de Ovar e o de S. Tiago de Riba de Ul...
Artigo de Pedro Homem de Mello , publicado no nº 1 da Revista "Aveiro e o seu Distrito" de Janeiro de 1966.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Pesca do bacalhau à linha (III)

Nestes dias de mau tempo e de vagas alterosas na nossa costa, convém recordar a difícil vida que os nossos conterrâneos levavam nos mares da Gronelândia, para ganharem o seu pão de cada dia. Continuamos a divulgar este conjunto de filmes excepcionais que são um hino à coragem dos Gafanhões.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Quaresma

Estamos em tempo de Quaresma. Vamos ver o que nos diz a Sr.ª Professora Maria Teresa Reigota, no Seu livro “Gafanha…o que ainda vi, ouvi e recordo”.
Era o período compreendido entre a Quarta-feira de Cinzas e o Domingo de Páscoa.
O seu simbolismo refere os quarenta dias de jejum que Jesus passou no deserto. Por isso logo na Quarta-feira de Cinzas se guardava jejum (comer menos) e abstinência (não comer carne).
Neste dia o povo da Gafanha ia a Aveiro, nas suas bateiras e barcos moliceiros e mercantel, mais tarde a pé, de bicicleta ou na “camioneta da carreira”, assistir à tradicional Procissão das Cinzas. Algumas pessoas iam logo de manhã para assistirem à cerimónia da imposição das Cinzas e bênção dos Santos Óleos, presidida sempre pelo Senhor Bispo da Diocese, ficando para a tarde, participando na procissão. Era majestosa e imponente!
Um dos andores que compunham a procissão era o de santa Clara. Lembro-me bem que, quando alguma criança tinha problemas na fala, como gaguez, ou começar tardiamente a falar com dificuldades de prenuncia, os pais faziam-na passar por baixo deste andor, pedindo a santa Clara, com muita fé, que desatasse a língua do seu filho ou filha, aclarando-lhe a fala. Não esqueço a tradição de se comprarem figos passados.
Após os três dias de folia do Carnaval, começava agora um tempo de penitência e sacrifícios que os gafanhões viviam com toda a intensidade da sua fé. Para não terem de jejuar e de deixar de comer carne todos os dias, iam ao Senhor Padre comprar a “bula” e assim, ficavam dispensados, jejuando e fazendo abstinência na Quarta-feira de Cinzas, todas as sextas-feiras da Quaresma e Quinta-feira santa, Sexta-feira santa e Sábado da Aleluia. Se não tivessem peixe comiam batatas com cebola frita e broa, mas pecar é que nunca.
No quinto domingo da Quaresma fazia-se e faz-se ainda, a Procissão dos Passos, em que simbolicamente, Maria Mãe de Jesus se encontra frente a frente com Seu Amado Filho, carregando a Cruz a caminho do Calvário – é o Momento do Encontro. Também aqui o povo da Gafanha marcava presença se nada houvesse que o impedisse.
Em Domingo de Ramos, que antecede o Domingo de Páscoa, não faltava nas igrejas das suas freguesias nenhuma família gafanhoa ou quem a representasse com seu ramo de alecrim e, às vezes, também oliveira, para ser benzido e religiosamente guardado até ao próximo ano. Era deste ramo que tiravam um bocadinho de alecrim que queimavam em dias de trovoada.


Começava a semana santa, com Quinta-feira de Endoenças, Sexta-feira da Paixão e Morte de Jesus, Sábado da Aleluia e Domingo da Ressurreição.
Logo na Quinta-feira santa os lavradores já não trabalhavam nos campos, só apanhavam erva para o gado ou davam-lhe palha; à noite, iam à igreja assistir às cerimónias do Lava-pés. Na Sexta-feira Santa procediam do mesmo modo e, à noite, iam participar na Devoção da Via-Sacra – era um dia triste, porque o Senhor estava morto.
Para fazerem os folares tinham o sábado da aleluia. Algumas pessoas amassavam, depois de chegarem, já noite dentro, da Via-Sacra. Deixavam a massa a levedar e no dia seguinte, manhã cedo, coziam os folares para casa e para ofertarem aos afilhados. Às onze horas da noite, assistiam ao Santo Oficio da Missa e pela meia-noite acontecia a Aleluia, descobrindo os Santos que tinham estado cobertos com panos pretos e tocando campainhas.
No Domingo de Páscoa era a alegria da Ressurreição do Senhor, era dia dos afilhados irem a casa dos seus padrinhos pedir-lhes a bênção e buscar ou agradecer o folar.
Não esqueço que durante a Quaresma o povo da Gafanha sentia uma grande obrigação que cumpria com devoção e crença – era a “desobriga” que consistia em confessar-se e comungar pelo menos uma vez cada ano. Eram e são respectivamente, o segundo e terceiro mandamentos da santa Madre Igreja, que este povo cumpria escrupulosamente, mesmo que se confessasse e comungasse mais vezes pelo ano fora.

As fotografias de Aveiro pertencem ao álbum fotográfico de Carneiro da Silva, referentes ao ano de 1922. De salientar que atendendo a que a Quarta-feira de Cinzas, normalmente é muito próximo do mês de Março, sobre o lado esquerdo da foto dos moliceiros, já se vêm as barraquinhas para a Feira de Março. Outro pormenor, é a quantidade de moliceiros existentes na Ria, mostrando que realmente participava muita gente nesta procissão.

Boas leituras
Rubem da rocha


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A pesca do bacalhau nos mares da Gronelândia (parte II)

No dia 15, porém, pelas sete horas da manhã, passou à fala um vapor inglês, cujo comandante, depois de haver mandado parar as máquinas, forneceu algumas informações, muito úteis, a respeito dos mares da Gronelândia e sobre as condições de pesca nos seus bancos, chegando mesmo a oferecer algumas cartas daquela região.
Os tripulantes do «Santa Joana», até aí tão receosos e cépticos, sentem que uma grande alegria lhes invade os corações.
Mas, pela tarde desse mesmo dia, são avistadas quatro enormes ilhas de gelo, que, novamente, a todos causam grandes preocupações.
No entanto, a viagem prossegue, com a máxima cautela, sempre com vigias atentos, a perscrutar o horizonte, para que o navio se possa desviar de qualquer icebergue ou se não enfie para dentro de alguma zona gelada e, no dia seguinte, pelas 10 horas, segundo reza o «Diário» avista-se terra – a ilha da Gronelândia – toda coberta de gelo.
«Pelas 18 horas, sondámos em trinta braças, continuando a navegar, com tempo muito bom e claro. Navegámos com tempo bonançoso e terra à vista, ao rumo NE 4N, até que, pelas três horas, como houvesse calma e muito bacalhau à borda, ancorámos na posição Lat. 63.40 N e Long. 53.00 W – Banco Fillas – com 50 braças de arame e 30 de corrente».
O «Santa Joana» manteve-se neste «BANCO» cerca de 21 dias, sempre com bom tempo e fazendo pescas abundantes.
Durante este período, a tripulação admirou-se bastante, não apenas com o facto de ser sempre de dia, chegando mesmo a ver-se Sol à meia noite, nos fins de Julho, mas também com os lindíssimos e variados aspectos que lhe oferecia a enorme quantidade de gelo, que, em grandes blocos, se estendia junto à costa e ainda com a extraordinária porção de aves marinhas – cagarras, painhos e pombaletes – cujos enormes bandos, ora pareciam nuvens do céu, ora cobriam o mar, onde se deixavam apanhar com facilidade. Também lhe causou certo espanto o extraordinário número de barcos a motor – palhabotes de dois e três mastros – pertencentes a países nórdicos e ainda os muitos e grandes veleiros franceses – Iugres e patachos pescando ao troley, que sulcavam aqueles mares, tão calmos, frios e brilhantes.
O Capitão dum desses «Trolers» deu a informação de que não havia ventos contra a praia, pois que os rumos predominantes eram o sudoeste e o nordeste.
Nestas circunstâncias, pôde o «Santa Joana» aproximar-se da costa, que era muito feia, alta e escarpada, e pescar aí grandes quantidades de bacalhau.
Foi nesta altura que muitos esquimós, ainda jovens, e vestidos com os seus trajes característicos, visitaram o navio, trocando peles de foca, de arminho, de urso e de raposa branca por café, chá e aguardente.
Estes jovens – rapazes e raparigas – que, com muita arte e ligeireza, se dedicavam também à faina da pesca, eram tripulantes dumas pequenas lanchas que, todos os dias, saíam dos estreitos e perigosos portos da Gronelândia.
Apesar de tudo, no dia 5 de Agosto, como o peixe começasse a escassear, resolveu o Capitão procurar outro pesqueiro, mais ao norte, onde, em menos tempo, pudesse completar o carregamento.
«Aos seis dias do mês de Agosto de mil novecentos e trinta e um, pelas seis horas, começámos a suspender a amarra e, pelas sete horas, fizemo-nos à vela, com todo o pano largo, ao rumo NNE com vento SW e tempo de chuva e nevoeiro.
No dia 7 pelas três horas, ancorou o navio no banco «Lille Helefisk» na seguinte posição: lat. 65.00 N e long. 53.00 W».
Arriados os dóris, em pouco tempo estes regressaram ao lugre, completamente carregados e, num abrir e fechar de olhos, todo o convés ficou inundado de peixe.
Sob o vigilante e atento olhar do capitão, começa, imediatamente, o árduo e exaustivo trabalho da escala e da salga, que se prolonga por muitas horas.
O esforço que os homens despendem não tem limites, mas a disposição é boa, porque compreendem que uma nova era de prosperidade se vai abrir para a arrojada e, até ali, tão desprotegida classe dos pescadores bacalhoeiros.
E a campanha prolonga-se até ao dia seis de Setembro, sempre com os mesmos perigos, os mesmos trabalhos, as mesmas saudades.
Todavia, no dia seguinte, quando todas as panas estão atolhadas e no porão não cabe mais nada; quando já não há outro sítio onde salgar bacalhau; quando o convés está debaixo de água e o navio não tem posse para mais carga, o Capitão, depois de tudo bem acautelado – as escotilhas devidamente cobertas e pregadas e os botes piados com segurança – manda içar, bem a tope, no mastro da mesena, a bandeira nacional e escreve no «Diário de Bordo»:
«Aos sete dias do mês de Setembro de mil novecentos e trinta e um, estando o lugre português «Santa Joana» ancorado no banco Lille Hellefisk, por ter completado o seu carregamento de bacalhau, foi dada por finda a campanha de pesca».
Pelas seis horas o Capitão mandou virar a amarra, para seguir viagem para Portugal, com destino a Aveiro.
Pelas sete horas fizemo-nos de vela, com todo o pano largo, ao rumo SE4 1/2 S.
«Deus nos leve a salvamento.»
Quando, nos princípios de Outubro, os quatro lugres, que pescaram nos bancos da Gronelândia, chegaram a Portugal e demandaram os seus portos de armamento, houve grande alvoroço e muito regozijo entre as classes ligadas às actividades piscatórias.
É que, de todos os veleiros que, nesse ano de 1931, foram à pesca do bacalhau, apenas aqueles quatro – três deles pertencentes à Empresa de Pesca de Aveiro e o outro à empresa de Pesca de Viana do Castelo, conseguiram carregamentos completos.
Em face destes resultados tão auspiciosos, imediatamente os restantes armadores resolveram mandar preparar os seus navios, para que a próxima campanha fosse exercida nos mares frios de Gronelândia.
Daí em diante, os carregamentos foram sempre mais ou menos compensadores, o que fez com que esta indústria – agora também orientada e grandemente auxiliada pelo Grémio dos Armadores – se tornasse maior, mais rica e mais progressiva.
É bom pois, que não sejam esquecidos aqueles quatro arrojados capitães e suas destemidas tripulações, bem como os armadores dos referidos navios, particularmente o Gerente da Empresa de Pesca de Aveiro, senhor Egas da Silva Salgueiro que, com a sua grande visão e iniciativa, muito contribuiu para o incremento e prosperidade da Indústria Bacalhoeira.
A pesca do Bacalhau nos mares da Gronelândia
Pelo Dr. Amadeu Eurípedes Cachim, Director da Escola Comercial e Industrial de Aveiro
Amadeu Eurípedes Cachim - In:"AVEIRO E O SEU DISTRITO", nº 4, 1967, pp.29-34

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Apontamentos para um trabalho sobre a paisagem de Aveiro

Nas minhas pesquisas pela Internet descobri um artigo muito interessante, escrito em Junho de 1968 e publicado no nº 5 da revista "Aveiro e o seu Distrito", uma publicação semestral da Junta Distrital de Aveiro. É da autoria do Dr. Frederico de Moura e refere alguns aspectos da paisagem de Aveiro e também das Gafanhas.
"Quem surriba chão de areia não encontra onde enterrar raízes de esperança e quem irriga duna virgem sabe que mija numa peneira! Quem lança a semente num ventre que é maninho não pode ter esperanças de fecundação. E, por isso, o Gafanhão, antes de cultivar a lomba, teve de corrigir-lhe a esterelidade servindo-se do Rio que lhe passa à ilharga, procurando nele a nata com que amamentou a semente que deixou cair, amorosamente, naquele chão danado. E humanizou a duna..."
Pode ser lido aqui.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

1º Registo de Baptismo da Gafanha da Nazaré

Aos onze dias do mez de Setembro do anno de mil nove centos e dez, na capella da calle da Villa d’este logar da Gafanha e freguesia de Nossa Senhora de Nazareth, do mesmo logar servindo provisoriamente de Egreja parochial da freguesia de Nossa Senhora de Nazareth, Concelho d’Ilhavo, Diocese de Coimbra, baptisei solenemente um individuo do sexo feminino a quem dei o nome de Alexandrina, que nasceu n’esta freguesia ás dez horas da noite do dia vinte e seis d’agosto próximo passado, filha legitima de Domingos Ferreira e de Joanna de Jesus , jornaleiros naturaes d’esta freguesia e nella residentes e recebidos na freguesia d’Ilhavo, neta paterna de Manuel Ferreira e de Maria d’Oliveira e materna de Jacintto Sarabando e de Rosa de Jesus. Foram padrinhos que sei serem os próprios António Cova solteiro, jornaleiro e Maria de Jesus , casada, creada de servir, todos d’esta freguesia. E para constar lavrei em duplicado este assento que depois de lido e conferido perante os padrinhos , não o assignam comigo por não saberem escrever.
O Enconmendado João Ferreira Sardo
Transcrição, para uma melhor leitura, do 1º registo de baptismo na paroquia da Gafanha da Nazaré.
Boas leituras
Rubem da Rocha

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O Carnaval ou Entrudo na Gafanha da Nazaré

Nesta época que se aproxima de Carnaval ou Entrudo como diziam os nossos avós, transcrevo um pequeno texto da autoria da Sr.ª Professora Maria Teresa Filipe Reigota publicado no seu livro com o título “Gafanha…O que ainda vi, ouvi e recordo”.
Na Gafanha, quando o povo se referia ao Carnaval, dizia sempre “Entrudo”.
Eram os três dias que precediam a quarta-feira de Cinzas, começo da Quaresma: Domingo Gordo, Segunda e Terça-feira do Entrudo. Nestes dias faziam-se muitas brincadeiras, sem ferir ninguém.
Muitas pessoas disfarçavam-se vestindo roupas andrajosas, todas rotas, até esfarrapadas, que cobriam todo o corpo. O rosto era tapado com uma máscara “carantona”, feita de um bocado de pano velho, ou de papel, ou mesmo de serapelheira, onde tinham aberto o buraco para os olhos, para o nariz e para a boca. Na cabeça colocava-se um chapéu, o mais disforme possível, e as mãos cobriam-se com luvas ou até se pintavam com carvão – eram os “entrudeiros”.
Não tinham a preocupação de estar bem vestidos, representando uma ou outra personagem, mas em contrapartida tudo faziam para não serem reconhecidos. Iam por toda a Gafanha, assustando umas pessoas, brincando com outras, com caminhar diferente do seu habitual, fazendo-se de velhinhos agarrados a uma bengala ou a um pau de vassoura, manquejando, sei lá! Era o que lhes vinha à cabeça. Ao falar distorciam a voz, para nem isso dar a possibilidade de serem reconhecidos, por vezes até gaguejavam.
Batiam à porta de alguém e era-lhes servido um copo de tinto, davam dois ou três dedos de conversa, muitas vezes provocada pelos donos da casa para tentarem reconhecer o entrudeiro, mas sempre sem conseguirem. Prosseguiam o caminho, fazendo várias tropelias, daí aqueles ditos populares:
“É Entrudo vale tudo.”
“É Carnaval ninguém leva a mal.”
Recordo de no meu tempo de criança e jovem se fazerem as “cegadas”. Eram como que um teatro de rua, que satirizava algum acontecimento local que tivesse dado brado na terra, até mesmo as discussões e quezílias por causa das valas, dos caminhos, etc.…
Quase sempre estes grupos vinham dos lados da vila de Ílhavo, já disfarçados, e assentavam arraial onde eles entendiam que se juntava mais gente para apreciar o seu, chamemos-lhe, espectáculo.
Os gafanhões assistiam e gostavam de ver, comentando depois quem teria sido o ou a satirizada e, por um ou outro detalhe, quantas vezes se descobria.
Naqueles três dias havia que folgar, esquecer um pouco as mágoas. Curiosamente, os entrudeiros até conseguiam espalhar um pouco da sua, por vezes ruidosa, alegria, ou do seu passar sisudo e quieto que era motivo de chacota, pelo menos para a pequenada que se metia com eles. Ameaçavam os pequenos com a sua bengala ou com o seu varapau ou cajado, mas nunca lhes tocavam, era engraçado!
Actualmente nada disto se vê.

Eu, que sou um pouco mais novo que a autora, também me lembro de muitos grupos que passavam disfarçados, pelas principais ruas da Gafanha, com roupas em farrapos, que quase era impossível reconhecer as pessoas que as vestiam. Hoje, com a desconfiança que existe, já não achamos assim tanta piada com essas brincadeiras que se faziam, mas é bom recordar.
Boas leituras
Rubem da Rocha

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