domingo, 17 de janeiro de 2010

V Encontro de Cantares de Janeiras e dos Reis

O Grupo Etnográfico esteve ontem em Maceda para actuar no V Encontro de Cantares de Janeiras e de Reis organizado pelo Grupo de Danças e Cantares de São Pedro de Maceda. De salientar o lindíssimo cenário onde decorreu a actuação. Retratava uma cena do quotidiano de uma família que vivia na "Quinta de São Pedro" e terminava o seu dia de trabalho tratando da ceia e cuidando do gado e das lides da casa. A determinada altura foram visitados pelos diferentes Grupos participantes que lhes foram cantar as Janeiras e anunciar o nascimento do Deus Menino.

O Grupo Etnográfico levou-lhes os seus tradicionais cantares de Reis e de Janeiras, os mesmos que neste mês de Janeiro estamos a cantar pelas ruas da nossa cidade. Nesta foto podemos ver um pormenor da actuação e do enquadramento no cenário.

Os nossos cantadores de Janeiras aguardavam pacientemente a hora de actuar, visto termos sido os últimos a entrar em cena.
Presente neste V Encontro, o Presidente da Federação deu os parabéns a todos os Grupos pelo trabalho de recolha, preservação e divulgação do património imaterial do povo Português, onde se inclui os cantares, as rezas, as lendas e outros aspectos da Cultura Popular que urge preservar.
Como aspecto menos positivo, e digo-o numa perspectiva construtiva tendente a melhor próximas edições, refiro os longos discursos das autoridades presentes que levaram a que o Encontro terminasse a uma hora bem adiantada.
Mais uma vez convivemos com outros Grupos e partilhámos o que de melhor temos: as nossas tradições.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Federação do Folclore Português reune em Assembleia (III)


“2010 Assinala um novo ciclo da vida da Federação


O encerramento do Encontro de Conselheiros foi pautado por uma declaração do presidente da Federação, Fernando Ferreira. Esperançado na prossecução de um bom trabalho que decerto vai premiar o esforço e cooperação dos vários conselheiros que integram os Núcleos Técnicos Regionais de todo o país, incluindo as ilhas da Madeira e dos Açores. O dirigente acedeu a responder-nos a algumas questões.


O ano de 2010 vai ser finalmente o ano “D” para o movimento folclórico federado?
O nosso objectivo é esse. Estamos a trabalhar no sentido de que todos os conselheiros técnicos adquiram conhecimentos básicos do guião que está a ser preparado no Encontro que estamos a realizar em Águeda. Daqui sairão os critérios avaliativos que servirão de base ao trabalho que irá ser desenvolvido de imediato e durante todo o ano de 2010.
Deve haver um esforço de melhoria dos grupos que revelem deficiências de representação, de acordo com as normas estabelecidas não só estatutariamente como as que vierem a ser produzidas no guião que está em preparação, por forma a que no fim do trabalho que irá ser desenvolvido possamos efectivamente saber quem é quem. Não poderemos continuar a pactuar com resistências a uma melhoria do movimento folclórico que está no seio da federação.


Resistências à melhoria. Isso pressupõe que poderá eventualmente haver exclusões?
Os estatutos apontam para sanções como a suspensão e a exclusão. Mas só se chegará a uma fase punitiva se esgotarmos o diálogo com os responsáveis dos grupos. Naturalmente que a fase de conciliação terá um fim e nessa altura, aqueles que continuarem intransigentes em não acatar aquilo que está estabelecido estatutariamente, terão de ser de alguma forma penalizados. É importante respeitar, sem excepção, as regras estatuárias.


Qual a solução para as regiões denominadas “brancas”, isto é, onde não há conselheiros nomeados?
Permanecem os problemas de nomeação de conselheiros em algumas regiões. Creio que ainda até ao final deste ano se resolverão questões pendentes com esses núcleos técnicos. Iremos de imediato promover reuniões com alguns conselheiros dessas regiões, para indagarmos se há ou não disponibilidade de uma continuada colaboração no terreno. Se não houver essa disponibilidade, teremos de fazer outras opções. A ajuda de conselheiros de outras regiões, que não sejam da área de inserção dos grupos, naturalmente conhecedores, é uma eventualidade a considerar, como uma derradeira forma de solucionarmos situações que se arrastam pelo tempo. Faremos uso de todas as armas que tivermos ao nosso alcance.


É notório o desencanto com a inactividade de alguns conselheiros. Também por esses núcleos técnicos passarão acções de reciclagem?
Vamos tão breve quanto possível, reunirmos com todos os conselheiros nomeados para as zonas que estão a ser prejudicadas por alguma inércia dos colaboradores em quem confiamos uma estreita cooperação. Não faz sentido que as pessoas aceitem determinadas funções, mesmo que de forma voluntaria e depois se demitam das obrigações que assumiram. Uma eventual falta de disponibilidade ou vontade para colaborar, obriga-nos a termos de enveredar por outras soluções, ainda que de forma pontual.


O ano de 2010 assinala um novo ciclo na vida da Federação do Folclore Português?
Sem duvida que sim. Reconhecemos que no conjunto de grupos federados há um leque que não corresponde àquilo que é minimamente aceitável em termos de representação. Temos respeito pelas concepções desses grupos, mas também terão de entender que não podemos continuar a pactuar com erros que maculam todo o universo federado. É inevitável fazermos um filtro entre os membros associados efectivos, até porque há necessidade de melhorarmos a imagem da própria Federação, de forma a que muitos outros grupos, que ainda não são associados, não continuem a manifestar relutância em se juntarem a um conjunto de grupos deficientes de representação.

Entrevista feita a Fernando Ferreira, presidente da Federação do Folclore Português, retirada do Jornal de Folclore nº166, de Dezembro de 2009, assinada por Manuel João Barbosa.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Cortejo dos Reis (II)


Na igreja Matriz, tudo termina com a adoração do Menino que, com sua mãe e S. José, aguarda a chegada dos pastores, Reis e respectivas comitivas. Após essas cenas, mais cânticos se ouvem, enquanto o pároco da freguesia dá o Menino a beijar aos participantes do Cortejo e ao povo que, entretanto, encheu o templo.
Segue-se o leilão de numerosas, variadas e valiosas prendas em ambiente de sã alegria e de generosa participação.
Sobre os autos há ainda pormenores que importa salientar. Referimo-nos aos actores e actrizes que neles fazem viver as velhas e sempre actuais cenas Bíblicas que tanto nos encantam.
As nossas pesquisas não nos levam muito longe e só a figura principal, Rei Herodes, foi possível registar. Assim, recordamos Manuel Caçoilo da Rocha, compilador e adaptador do texto, tal como está, e ainda ensaiador. Também recordamos Domingos Fernandes, Manuel da Rocha Fernandes Júnior, Manuel Fidalgo Filipe (o Perrana) e Manuel Alberto Vilarinho Carlos. Este é Rei Herodes Há cerca de três décadas, ao mesmo tempo que acumula a responsabilidade de ensaiador geral.
(….)
Como ensaiadores dos cânticos, queremos destacar Dionísio Marta e Manuel Alegria. Os cantores variam muito ao longo dos anos e os músicos são oriundos principalmente da Filarmónica Gafanhense (instrumentos de sopro) e tem havido ainda e desde sempre, a colaboração de outros gafanhões (instrumentos de corda).
Os trajes dos Reis e outros foram, durante muitos anos, alugados por Manuel Caçoilo da Rocha e pelos seus herdeiros. Em 1980, o Padre António Borges, com o apoio da Comissão, confeccionou novos trajes aproveitando alguns paramentos gastos pelo uso. E são esses trajes que hoje podem ser vistos.
Falar do Cortejo dos reis, é falar de entusiasmo, de tradições, de usos e costumes por vezes pouco conhecidos, de figuras típicas que se vão perdendo na memória do tempo. Os participantes sem qualquer função definida vestem, por norma, trajes diferentes dos habituais, muitas vezes tentando imitar os trajes minhotos. Razões aparentes não as descortinámos, muito embora se diga que tudo isso se deve a influências dos minhotos aqui radicados. Terão sido os minhotos que mais influências exerceram sobre os gafanhões? São questões que aqui ficam em jeito de desafio aos estudiosos. Mas há outros trajes. Os pescadores, os moleiros, os lavradores, as galinheiras, as mulheres da seca, entre outros mais ou menos expressivos.
De salientar, também, os que se vestem de pobres de pedir, de ciganos, de noivos à antiga, de senhores e senhoras de principio de século, etc.
O entusiasmo de muitos é alimentado por um qualquer animador de lugar que prepara ou faz preparar um carro, ornamentando-o e fazendo canalizar para o grupo as mais variadas contribuições, havendo depois um certo e legitimo orgulho na divulgação dos resultados. Há uma espécie de competição bastante salutar.
Outros há que fazem questão de exibir novidades, apresentando padarias, carros de comes e bebes, representações etnográficas e miniaturas de edifícios da Gafanha da Nazaré: Igreja Matriz, Santuário de Schoenstatt, farol e ainda barcos, etc.
Das iniciativas que mais gente envolve, queremos destacar a “Campanha do Ovo” que a catequese tem posto de pé nos últimos anos. Cada criança traz um ovo ou mais e ainda açúcar, e com tudo isto se fabricam saborosos folares que todas as famílias gafanhoas podem apreciar mesmo antes do Cortejo e principalmente no próprio dia.
No dia do Cortejo, porém, e depois do leilão, também podem ser apreciados os variadíssimos presentes em que sobressaem coisas de comer: bolos dos mais variados tamanhos e aspectos, leitões bem assados, rojões à antiga, chouriços, fruta, coelhos e frangos assados, bolos de bacalhau, tudo bem acompanhado por bons vinhos. Mas há ainda batatas, bacalhau normalmente graúdo e especial, enguias fritas, etc.
Outros presentes completam o rol: passarinho em gaiolas, garrafas de todas as marcas e qualidades, lenha, abóboras, quadros e um sem número de pequenas e grandes coisas demonstrativas da generosidade dos gafanhões.
Os leiloeiros são, normalmente, figuras com jeito especial para este trabalho. Fazem comprar com os seus apartes oportunos, com desafios interpelantes, com frases estimulantes de apetites. Pessoas alegres, fazem mesmo render o negócio. Os gafanhões mais idosos recordam-nos alguns deles, embora seja difícil fazer uma relação exaustiva. Pudemos registar os senhores Bernardino e antes dele um seu familiar, Bola Sardo, Manuel Carlos Faustino, Manuel Fidalgo Filipe, António Ramos Casqueira, Rosa Bola, Manuel Maria Relvas, António Morais e Manuel Alberto Vilarinho Carlos.
Para além dos leiloeiros, outras figuras típicas povoam a nossa memória. Recordamos o coveiro Vechina que tanto cantava e dançava, o Patinha que se apresentava habitualmente de pobre de pedir, com barba crescida, chapéu e roupas velhas e muitos outros de identificação difícil, mas que aqui homenageamos por tanto terem contribuído para a preservação desta festa mais que secular.
Texto da autoria do Sr. Professor Fernando Martins, intitulado Cortejo dos Reis – Subsídios para a sua história, publicado na brochura “Cortejo dos Reis – Um Apontamento Histórico”, da paroquia da Gafanha da Nazaré em 1992.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

V Encontro de Cantares de Janeiras e dos Reis

No próximo sábado, 16 de Janeiro, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré desloca-se até Maceda, concelho de Ovar, para participar num encontro de cantares de Janeiras e de Reis, a convite do grupo local.

É a primeira actuação do ano de 2010. Como sempre iremos fazer o melhor para dignificar o grupo e a nossa terra.

Além do grupo anfitrião e de nós, também participará o Grupo Folclórico Santa Cruz de Vila Meã (Amarante) e o Grupo Etnográfico de Danças e Cantares de Fermêdo e Mato (Arouca).

A chegada a Maceda está prevista para as 18:00, seguido-se o jantar convívio na EB2,3 de Maceda pelas 19:30. A actuação terá início às 21:30, no Auditório da Junta de Freguesia de Maceda e cabe-nos encerrar o encontro.

Em breve daremos notícias sobre as actuações previstas para a restante época folclórica.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Cortejo dos Reis

Agora que a quadra natalícia termina e na nossa terra vamos celebrar os reis, vamos transcrever um pequeno texto da autoria do Sr. Professor Fernando Martins, intitulado Cortejo dos Reis – Subsídios para a sua história, publicado na brochura “Cortejo dos Reis – Um Apontamento Histórico”, da paroquia da Gafanha da Nazaré em 1992.

É sabido que, por muitos recantos de Portugal, do Minho ao Algarve, a quadra natalícia tem sido e continuará a ser inspiradora de manifestações populares de espírito religiosa. São os presépios com arte, sensibilidade e amor, são os Cortejos das Pastoras e dos Reis, são as Janeiras. E todas estas manifestações se apoiam em autos, cânticos, decorações e celebrações com um misto de religioso e de profano. Dessas manifestações natalícias, a que mais se impôs e criou raízes entre nós, foi sem dúvida a do Cortejo dos Reis, cujo início se perde no tempo.

Na ânsia de fazermos um pouco de história sobre esta festa de tanto significado para a nossa comunidade, tentámos descobrir qualquer escrito que testemunhasse esses primeiros passos do Cortejo dos Reis, mas nada de concreto encontrámos. Também nada detectámos sobre o modo como os nossos antepassados celebravam o Natal, quer a nível religioso quer popular. À falta desses testemunhos escritos, só nos pudemos apoiar nas pessoas mais idosas, algumas das quais puderam assistir, na data para nós célebre de 31 de Agosto de 1910, à criação da freguesia. O que essas pessoas ainda hoje dizem, com algumas garantias, é que já os seus pais e avós celebravam o Natal um tanto ou quanto semelhantemente ao modo como hoje o celebramos, salvo as diferenças impostas pelo nosso viver hodierno. E hoje como ontem, a quadra natalícia continua a sensibilizar toda a gente, crentes ou descrentes, católicos ou não católicos, tal é a força da ternura que o Menino inspira, a humildade que comove, a esperança que renasce principalmente entre os mais desprotegidos.
Depois, o hábito tão salutar de se associar ao Natal a festa da família, em que todos se voltam para os mais pequenos, e alguns pensam nos mais pobres, o costume de todos sentirmos e vivermos mais fraternidade, ainda mais valor trouxe à quadra, por natureza de paz e amor.

Mas voltemos ao Cortejo dos Reis, a festa por excelência dos Gafanhões, tal o movimento que gera e a mobilização que provoca entre toda a população. S autos natalícios, os cânticos harmoniosos, o objectivo comum de homenagear o Menino, os grupos que se constituem, as prendas de toda a gente, tudo contribui de forma bastante significativa para uma festa diferente e geradora de fraternidade.


Os autos apresentados durante o Cortejo têm passado de geração em geração por via oral e, que saibamos, só em 1947 aparece um manuscrito que serviu de guião quase até aos nossos dias, possivelmente escrito por Manuel Caçoilo da Rocha.
Tendo desaparecido em data difícil de recordar, foi de novo reproduzido, graças à memória de alguns intervenientes. E assim se tem mantido.
Uma simples análise dos textos leva-nos a concluir que os mesmos se inserem na tradição dos Reis de algumas aldeias da região e que foram inspirados na Bíblia e no Mártir do Gólgota, obra de Peres Escrich.
Os cânticos, simples e harmoniosos, são da tradição popular portuguesa, uns, enquanto outros são tidos como originários da nossa terra e da nossa gente. Muito belos, como quase todos os cânticos de Natal de todo o mundo, estão na memória de muita gente que os canta com toda a naturalidade, Nem por isso, porém, são dispensados os ensaios a partir de meados de Dezembro. Tal como acontece, aliás com os ensaios dos autos. E já que falamos dos autos, e antes de os lermos neste livro, será bom recordar aqui como tudo se processa durante o Cortejo.
Logo de manhã, os participantes juntam-se no extremo da Gafanha da Nazaré, a caminho de Ílhavo. Aí se dá a “Aparição do Anjo” que anuncia aos pastores, estremunhados, a Boa-Nova do nascimento do Salvador. Eles tomam então a decisão de ir adorar o Menino. O cântico que entretanto se faz ouvir, dá inicio à caminhada ao encontro do Menino-Deus acabado de nascer.
No Cruzeiro dialogam dois pastores. Um anuncia ao outro o que viu no caminho. Encontrou-se com uma jovem bela prestes a dar à luz. Ia acompanhada do seu esposo e em Belém não descobriram lugar nas hospedarias. Tiveram, por isso, de se acolher numa gruta onde esperariam a hora de ela dar à luz.
Na Marinha Velha há o diálogo da “Fonte de Elias”. Um árabe considera-se muito importante, enquanto outro lhe lembra que sem Alá nada somos. Surgem, então, os pastores que lhes comunicam a aparição do anjo e o nascimento do Menino-Deus.
No cruzamento das Caçoilas, os Reis notam o desaparecimento da Estrela e reconhecem que estão numa grande cidade. Informado de que buscam um novo rei, um soldado diz que não conhece outro rei que não seja Herodes.
No final do Cortejo dá-se o encontro dos Reis Magos com Herodes, no seu palácio. Convidados por este a procurarem o Menino porque também gostaria de ir adorá-lo, os Reis não voltam ao palácio.


domingo, 3 de janeiro de 2010

Cantar as "Janeiras"

Chegado o mês de Janeiro, é a altura do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré "reviver" uma tradição que já faz parte do nosso plano de actividades e que importa manter bem viva.

Durante este mês, aos fins de semana, iremos percorrer algumas ruas da nossa terra cantando e anunciando o nascimento do Deus Menino.

A todos os que nos receberem e que quiserem connosco preservar o "Cantar das Janeiras" o nosso muito obrigado.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

BOM ANO NOVO

Um Bom Ano de 2010, repleto de bençãos, paz, alegria, amor e acima de tudo muita solidariedadade com os mais desfavorecidos.
São os votos de todos os elementos do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré para todos os seus amigos e conhecidos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Federação do Folclore Português reune em Assembleia (II)


Conselheiros no terreno
Os Conselheiros Técnicos saltam de imediato para o terreno de visita aos grupos federados, aferindo o trabalho que estão a desenvolver e averiguando da necessidade de ajuda na correcção de eventuais desacertos de representação. A meta está no final de 2010, quando todo o trabalho já deve estar concluído. A partir de então, todos os grupos federados terão de afinar pelo mesmo diapasão: o rigor na representação.
A luz vermelha pode acender-se para alguns grupos que teimam em oferecer um trabalho reconhecidamente fraco, sem bases de uma acertada representação tradicional. Um defeito que, em muitos casos, vem de longa data e que nunca foi corrigido. Para outros, a luz amarela constituirá um pré-aviso para emendar pequenos pormenores. Mas também a luz verde vai decerto fulgir para bons trabalhos.
A acção de reorganização do universo folclórico federado que a Federação está a implementar, será uma derradeira tentativa para eliminar os graves erros da figuração tradicional que maculam o trabalho de muitos grupos. “Queremos que os grupos ofereçam uma efectiva qualidade, de forma a não levarem ao engano as organizações de Festivais ou de outros espectáculos”, apela o presidente da Federação, Fernando Ferreira.
Sinopse atrapalha
Numa das salas, foi particularmente discutido o termo “sinopse”, incerto no ponto 4 do guião e que diz respeito às apresentações temáticas. “O que é isso de sinopse? Nunca ouvi falar nessa palavra!”. O termo terá assustado um conselheiro como a outros confundiu. “É preciso que utilizemos palavras simples e que o comum dos mortais entenda. Só uma minoria de populares sabe o que é uma sinopse”, intercedeu o Insp. Lopes Pires, propondo a substituição do termo.

Itens do guião do Plano de Melhoria submetido à aprovação da assembleia de conselheiros
Caracterização Etnográfica da Região - Contextos geográficos, sociais, económicos, religiosos. Eventos históricos relevantes. Caracterização fundamentada dos limites temporais da representação.
Recolhas – Sobre o património material e imaterial que completa a etnografia da região, dos trajes à musica e às danças, como jogos, instrumentos, musicas, literatura oral, rituais religiosos, etc.
Apresentações públicas – Composição do grupo, reportório, trajes e representações temáticas.
Iniciativas de divulgação e apresentação – Calendário anual de iniciativas periódicas com fundamento etnográfico, mostras permanentes ou eventuais, publicações e gravações.
Evolução histórica – Registo histórico dos corpos sociais, eventos e actividade relevante no passado.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Vida e costumes dos pescadores (parte IV)

O trajo do Pescador caracteriza-se pelo uso de camisa de lã de padrão axadrezado e variável na cor; trozes ou ceroulas, de tipo e qualidade igual, mas geralmente de tons mais claros do que aquela, e, na alternativa, manaia branca ou crua, espécie de bragas em pano de algodão, cinta ou faixa, preta, de lã, franjada nas extremidades e, finalmente, barrete ou carapuça preta em malha de lã com borla do mesmo na extremidade.
Os trozes são de amarrar aos tornozelos mas, habitualmente, usam-nos arregaçados por altura do joelho. A manaia é usada especialmente no Verão, e só no mar.
De Inverno acrescentam o trajo com o gabão. Quando assim é, costumam arregaçar os trozes até à coxa e enrodilhar o gabão até à mesma altura, preso pela cinta, de forma a deixar-lhes livre o movimento das pernas.
O custo destas peças de vestuário são os seguintes; camisa 32 escudos, trozes 64, manaia 25, cinta e barrete 15 cada peça (1).
O trajo da vareira compõe-se de blusa de algodão, em tons claros e geralmente bordada ou lavrada; saia da mesma qualidade, de diferente cor e padrão em estamparia; avental da mesma qualidade, mas geralmente em contraste de cor com a peça antecedente; algibeira de pano preto de lã, debruada a galão da mesma qualidade, atada pela altura das ancas, em volta destas por debaixo do avental, com fita preta; cinta ou faixa, igual à do pescador, xaile de lã, de padrões matizados; lenço da mesma qualidade e género, dobrado em triângulo e colocado sobre o chapelinho, este, é geralmente em feltro preto com aba bastante estreita debruado de fita de veludo preto e, em volta da copa muito baixa, uma fita de seda também preta que abrange a sua altura e remata com um pequeno laço no lado direito; a completar o trajo chinelas pretas, lisas, de cabedal envernizado, e completa ausência de meias.
No Inverno as peças de algodão são substituídas por outras de lã, de cor lisa; xaile mais espesso, igualmente liso; e usam meias de lã em cores claras, brancas de preferência, sem guarnição alguma.
Relativamente ao seu custo registam-se hoje os preços que seguem: blusa 17 escudos, saia 14,50, avental 14, algibeira 6.5, cinta 15, xaile 100, lenço 60, chapelinho 40, chinelas 100, blusa de Inverno 32, saia 30.5, xaile 200 e meias 12 (2).
Sempre que o marido embarca para a pesca em terras longínquas ou mesmo em busca de outros horizontes na miragem de economia mais ampla, costuma a vareira substituir o trajo por outro semelhante mas de cores escuras, aquela que melhor exprime a sua dor de ausência. E se no decurso do tempo o mar já não volta a traze-lo, como tanta vez acontece, enverga então o trajo negro que não volta mais a trocar pela cor.
Expressiva rubrica na psicologia admirável da gente da Beira-Mar.
(1) Em 1940: camisa 22.5, trozes 23.5, manaia 4.5 e 5. Tanto a cinta como o barrete; verifica-se assim um agravamento entre 40% a 200 % sobre o custo de então.
(2) Eram em 1940: blusa 8.5, saia 6.5, avental 6.5, algibeira 2.8, cinta 5, xaile 42, lenço 25, chapelinho 16, chinelas 45, blusa de Inverno 17, saia 15, meias 6; oscila portanto entre 100% a 200% mais, o seu custo actual.

FIM
Artigo publicado no Livro do XVIII Festival realizado em 6 de Julho de 2002.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O linguajar dos gafanhões (parte V)

E este quadro do Padre Resende, duma riqueza tão ingénua, quanto encantadora, em que dois irmãos falam de uma irmã e do seu namorado. Ouçamo-los, sem tradução, para não perturbar a poesia:
“ — Atão Manele, a nocha M’ria deu-t’oje um quinau, hein?! ... Olha qu’ela quer butar fegura ó pé do Zé B’china, que acolá arranca mulicho como moiro. Cando anda consumida câ bida nem ‘scansa.
— Olha cá, F’cico, a nocha quechopa, nu é p’rá gabar, mas val’ mais có Zé B’china, o namurado. Ó pé dele anda sempre toda concha!
Em dois tempos chegó dia grande. Ouvi-les umas palavrinhas! ... No dia da festa da Chanta, verás que ‘tão casadinhos!...
— Chá me dixeram co sôr Prior deu os banhos na nossa ingreja de Bagos.
— E tamém ela deu ali um banho na auga do rio!
— Nu sê. Ela é uma medalha de rapariga. Olha cá, a cachopa val canto pesa. Nu é só pr’àpanhar mulicho. Nas rasgatas do rio é uma bardasca!
— Canté! Nas rasgatas de num passado (ano passado) foi à pincha e ganhou o primeiro prémio. Inté os fidalgotes lhe catrapiscavam os olhos c’mós namurados. E olha qu’ela não dizia que não!
— Poi xim; mas ela não acardita nesses pardalões que nu vesam chêta e que a criam p’ra...
— Ai! Caredo! ... Mais balia a morte que tal sorte. Ó menos c’o Zé B’china nu há selistro; trabalha muito e é um poipadão. E p’ra cantar ó devino ou na ingreja tem falas como um canairo.
— É certo. E a cantar o “sacerdote” antes do sôr padre ir pr’ó altar! A fala dela parece um orgu.
— Que raça! Aqui pr’à gente: o sôr pai e a sâr mãe ‘stão como três num sapato coa quechopa.
— Nam qu’ela é um inzemplo de lindeza. Ali a Filha do Toino Maluco num tem charavelha nenhuma.
— Essa parece um cadable a andar. Não tem lastro nem tri-ló-lé nenhum.
— E onte, a mazona, apanhou uma ralhada da mãe que a pôs à curta. Até me faz desperar tanta ruindade.
— Prontos. Deixemos o barco inté amanhê, c’a mãe ´stá à ‘spera.”
E por aqui ficamos que decerto também estão à espera que terminemos. Não sem antes, porém, deixarmos aqui o desafio ao Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré e a quantos se interessam por estas coisas do nosso passado, afinal tão rico, para que o façam reviver através de estudos que nos permitam quadros para mostrar às actuais gerações da nossa terra e não só. Portugal inteiro (e por que não dizê-lo?) e a civilização de que somos parte integrante também têm o direito de conhecer o nosso riquíssimo passado etnográfico. E dizemos riquíssimo porque foi mesclado por culturas populares diversas que lhe emprestaram um sabor distinto que urge divulgar com coragem e tenacidade.
E aqui cabe bem uma palavra muito especial aos inúmeros licenciados em Português da nossa terra, no sentido de se debruçarem com entusiasmo sobre esta ciência da descoberta do passado de um povo, tornando visível às gentes de hoje os alicerces da maneira de ser, estar e falar dos gafanhões, vivam eles em qualquer das Gafanhas, mas perfeitamente identificados por um passado comum.
No meio da vida, quantas vezes sem sentido, de tantas pessoas, adultas e jovens, todos aqui temos um manancial de temas escondidos em arcas e sótãos, mas também na memória de muitos dos nossos avós, para escoldrinharmos e trazermos à luz do dia, que o mesmo é dizer, à cultura dos tempos de hoje, que são os nossos tempos. E porque o futuro se constrói com exemplos e achegas do passado e do presente, resta-nos esperar que, deste colóquio, saiam entusiasmos por esta riqueza que é pertença dos presentes, se não for esquecida, mas que queremos constituam o orgulho dos que vierem depois de nós. É por isso que aqui estamos.
FIM
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XV Festival, realizado em 10 de Julho de 1999.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

As mulheres da Gafanha (parte IV)

Diz Maria Lamas, entre outras considerações, que desempenhava o seu cargo “com firmeza” e que se distinguia das suas subordinadas pelo aspecto, “porque se veste e penteia de maneira mais apurada”. No entanto, “conserva o ar desembaraçado e decidido que caracteriza as mulheres do povo daquela região”. E adianta: “O que interessa especialmente neste caso é o facto de ela ter conseguido, pelas suas qualidades de trabalho e disciplina, ascender ao lugar de encarregada, com enormes responsabilidades, numa empresa importante.” Noutra passagem do livro, canta um hino a estas mulheres, cujas histórias decerto muito a sensibilizaram, hino esse que aqui transcrevemos: “Mulheres da Gafanha, à hora em que vão levar o almoço aos homens que trabalham nos estaleiros. A vida duríssima que levam, naquelas terras que outrora foram dunas batidas rijamente pelo mar e que são hoje solo fertilíssimo devido ao seu labor constante, marca-lhes as feições e dá-lhes um todo viril, decidido, forte. Nenhuma tarefa as faz recuar. São, quase todas, mulheres de pescadores de bacalhau ou de operários, e elas próprias trabalham no que se lhes proporciona, quando não é preciso sachar o milho ou colher a batata, muito abundante ali. A sua existência passa-se em permanentes fadigas e sobressaltos. Usam uma linguagem desabrida, que chega a ser chocante, porque se habituaram a encarar a vida e as pessoas de forma hostil, à força de lutar e sofrer de muitos modos. Tudo se resume, porém, a um desabafo, tão natural, para elas, como respirar, rir ou falar. Bravas mulheres, as da Gafanha! No fundo, todas as mulheres do povo se parecem umas com as outras, vivam onde viverem. Pode variar o aspecto exterior, mas a sua natureza é a mesma. Mais ou menos rudes, conforme o seu nível de vida, todas são irmãs na luta, na resistência ao trabalho e ao sofrimento, no heroísmo obscuro com que suportam o peso de uma existência sujeita às suas inclemências. Instintivas e directas, na sua maneira de encarar as realidades, não podem ser julgadas apenas pelo que fazem e dizem. A força que as impele tem raízes fundas, na terra e na própria vida.” Mais adiante, tece algumas considerações sobre as raparigas da Gafanha, sublinhando: “Estas jovens do povo parece que se vão distanciando, no trajar e nos gostos, das suas mães. Trabalham na terra, quando a faina da seca termina, mas quando vão à cidade apresentam-se vestidas como se lá vivessem. Gostam de ir ao cinema, se têm ocasião para isso; discutem o ‘que se usa’; são raras, porém, as que mostram interesse pela leitura. Casam, quase sempre, com operários dos estaleiros ou pescadores de bacalhau. Depois de casadas perdem muito da sua vivacidade e até o gosto na sua pessoa – a não ser uma ou outra de personalidade mais definida. A pouco e pouco vão seguindo o caminho das outras mulheres que, antes delas, foram novas, engraçadas e um tanto rebeldes contra o pensar das mães. Insensivelmente, adaptam-se à vida sacrificada, em que tudo é trabalho, sobressaltos e luta pelo pão. Mesmo quando conseguem certo desafogo económico, o espírito mantém-se-lhes embotado e alheio ao progresso do Mundo, fora dos seus interesses pessoais e imediatos.”
Fim
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XX Festival, realizado em 10 de Julho de 2004.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Federação do Folclore Português reune em Assembleia

Os coordenadores dos Conselhos Técnicos Regionais da Federação do Folclore Português foram chamados a reunir em assembleia que decorreu nos dias 7 e 8 de Novembro, no Centro Social Paroquial de Recardães (Águeda), numa organização do Conselho Técnico Nacional da Federação do Folclore Português. Agilizar estratégias com vista a disciplinar o movimento folclórico inserido no seio da Federação foi o propósito da reunião que juntou cerca de 70 conselheiros. Preparar a redacção do guião de trabalho e afinar pontos de vista e de acção, foi o propósito da reunião, pautada pelo espírito da melhor cooperação.
Antes, Fernando Ferreira, presidente da Federação, procedeu à entrega de diplomas a novos conselheiros, eleitos para reforçar alguns núcleos regionais (zonas Vareira, Estremadura Centro-Saloia e Templários) ou preencher outros que estavam sem conselheiros, como foi o caso do núcleo do Alto Minho.
Antes da ordem de trabalhos, Fernando Ferreira salientou uma vez mais o objectivo da acção que vai seguir-se de imediato e que passa por uma tentativa de “melhorar a imagem dos grupos federados” e apelou ao “melhor relacionamento com os responsáveis dos grupos”, recomendando a “uma análise prudente e cautelosa” dos pormenores em avaliação. O dirigente anunciou que irá ser criado um suporte informático por forma a que todos os elementos se preservem e se encontrem de fácil consulta. Oportunidade ainda para lamentar a inactividade de alguns Conselhos Técnicos, que não estão a corresponder às expectativas criadas. “alguns conselheiros coordenadores nem sequer respondem às solicitações da Federação; podemos entender que não trabalham ou optam pelo silêncio, o que é desencorajador”, queixou-se o presidente, lembrando que aos “conselheiros que não trabalham será melhor não os ter. A estrutura de Federação assenta nos Conselhos Técnicos e se não há trabalho nem cooperação, melhor será abandonarem”, aconselhou.
Antes do arranque dos trabalhos, Fernando Ferreira desejou que o encontro de conselheiros se traduza “numa acção bastante interactiva e muito discutida, mesmo que as opiniões sejam divergentes. Que cada um saia daqui o mais esclarecido possível”.
O conjunto dos conselheiros foi subdividido por regiões etnográficas e instalados em salas diferentes, para melhor discutirem e aprofundarem os diversos pontos do guião do plano de trabalho e que terá depois uma redacção uniformizada de acordo com as sugestões apresentadas. Cada grupo foi liderado por um dirigente da Federação.
“Harmonizar procedimentos e reunir pontos de vista para um cruzamento de ideias e opiniões por forma que todos possamos falar a uma só voz”, relembrou o Eng.º Manuel Farias, mentor do projecto do Guião do Plano de Melhoria. A acção junto dos grupos vai seguir-se de imediato.
(Continua)
Na foto pode observar-se a presença do Director Técnico do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, Acácio Nunes, conselheiro técnico da Federação do Folclore Português.
Texto retirado do Jornal de Folclore nº166, de Dezembro de 2009, assinado por Manuel João Barbosa.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Jantar de Natal 2009











sábado, 12 de dezembro de 2009

Boas Festas e Feliz Ano Novo

A Direcção do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré deseja a todos os seus associados e amigos e respectivas famílias um Santo Natal e um Próspero Ano de 2013.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Vida e costumes dos pescadores (parte III)

O Palheiro, habitação característica do pescador que ainda predomina na região da beira-mar, é construído exclusivamente de tábuas de "pinheiro" e, à guisa das habitações lacustres, assente sobre grossa estacaria enterrada na areia, apoiada em lastro de pedra e circundada de sal para evitar-lhe o apodrecimento. Deixa assim passagem livre às águas, quando o alcançam e, por outro lado, impede que o palheiro fique soterrado naquele terreno movediço.

O tipo de construção varia ente 3 a 8 metros de frente por 4 a 6 de fundo; a altura regula por 3 ou 5 metros que correspondem, respectivamente, a um ou dois pisos, com cobertura de telha vã.

Interiormente, um ou dois compartimentos servidos por uma só porta e uma ou outra janela de reduzidas dimensões.

Estes palheiros, que chegam a formar espaçosos arruamentos, na sua maioria, são propriedade dos pescadores, alguns há que possuem outros de melhor condição que alugam a banhistas na época própria. Os que não têm palheiro próprio, tomam-no de aluguer para o período da safra; terminado esse período, todos os pescadores geralmente regressam à sua habitação no interior das povoações a que pertencem.

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