terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Natal de antigamente

"Quando era menina
não havia Pai Natal nem Árvore de Natal.
Armava-se o presépio com chão de musgo
rochas de cortiça virgem ervas a valer
pedrinhas de verdade
e searinhas que se semeavam em pires e latas vazias
no dia 8 de Dezembro
e eram o pequeno milagre o primeiro
a despontar dos grãos de trigo e a crescer todos os dias.
As criaturas do presépio eram de compra
mas também moldei algumas em barro fresco.
Uma vez uma das minhas tias fez casas e igreijinhas de papel
e acendemos velas lá dentro.
Foi um deslumbramento a luz a sair pelas janelinhas!
Mas ardeu tudo de repente.
Desde então só a lamparina de azeite continuou a alumiar
esse parco mundo pobre.
No meu Natal de antigamente havia menos presentes.
Os meninos não exigiam esses brinquedos extrabíblicos:
computadores, jogos de computadores, cêdêroms, sei lá.
Nem o Menino Jesus podia com tanto peso!
Sim, porque no meu Natal de antigamente era o Menino Jesus
quem dava as prendas.
Púnhamos, na véspera, o sapatinho na chaminé
mas tínhamos que ir para a cama esperar pela manhã
porque Ele só descia pela calada da noite
se ninguém estivesse à espreita
(hoje o Pai Natal não tem esses pudores).
Eu imaginava-o a saltar das palhinhas
nuzinho em pêlo
e a Nossa Senhora a agasalhá-Lo logo com a sua capa.
E lá ia Ele
como um menino pobre enrolado no casaco do pai
a contentar todas as crianças do mundo.
O Pai Natal, esse, foi encarregado (não sei por quem)
de dar presentes a pequenos e grandes.
Com o Menino Jesus tudo ficava entre meninos.
E se a prenda não agradava
a gente fazia-lhe uma careta
e até, à socapa, chamava-lhe um nome feio.
O Pai Natal é um palhaço cheio de postiços:
barba bigode cabeleira
até a barriga é uma almofadinha.
E vai à televisão convencer-nos a comprar coisas.
Agora o Natal antecipa o Carnaval.
O Menino Jesus, esse não! nunca ia à televisão
(que para dizer a verdade não existia ainda.)
Mas que menino de hoje trocaria o seu Pai Natal
(gerente de um supermercado de prendas)
pelo meu Menino Jesus
a tiritar nas palhas?
"Teresa Rita Lopes, Afectos,
Lisboa, Editorial Presença, 2000

O linguajar dos gafanhões (parte IV)

Diz o Padre Resende, na sua célebre e ainda utilíssima Monografia da Gafanha, que “Dos povos da Gafanha diremos que o seu primitivo estado de primários, numa região separada do convívio dos povos mais adiantados, manteve-os por muito tempo numa rudez bastante confrangedora. Quase se podia dizer que mal sabiam falar. Com o tempo e com as vias de comunicação, foram-se polindo, civilizando, começando-se a operar uma grande transformação no seu rude e bárbaro vocabulário, quer na sua forma morfológica, quer na sua parte fonética”. E destaca, como exemplo, algumas palavras e expressões, de que respigamos as que mais lembramos:
Xintro — Jacinto
Balisome — Lobisomem
Manel — Manuel
Sóte — Sótão
Atóino — António
Maçazeira — Macieira
Stâmago — Estômago
P’dibe — Pevide
Azête — Azeite
Capador — Alveitar
Pruga — Purga
Lambisgóia e delambida — Atrevida
Alfanete — Alfinete
Curesma — Quaresma
Arbela — Alvéola
Puchi-na — Puxei-a
Arribar — Subir
Fostas — Fostes
Vais à festa? — Resposta: ai não! (= vou)
Ó Maria, vais à fonte?— Resposta: Poi xim! (=não vou)
Maria vai arrumar-se = Maria vai casar-se
Bou marcar palhitos = vou comprar fósforos
Anda a comprar = Está grávida
Tem os pés inchados = Está embriagado
Tens a língua grande = falas de mais
É preciso falar com relego e dar um pontinho na língua = Falar só o preciso.”
De realçar que os gafanhões não pronunciavam, como ainda não pronunciam, o v. Toda a palavra que tenha v se pronuncia com b. Daí, por exemplo, “Bou a Abeiro ou a Ílhabo comprar uma baca e benho logo para casa que a bida espera por mim”.
E muitas outras palavras e expressões poderíamos continuar a citar, acrescentando-lhes mais algumas que a nossa memória retém com alguma fidelidade. Mas hoje ficamos por aqui, que se faz tarde, como diriam os nossos avós.
Antes, porém, de terminar, é justo recriar um ou outro quadro, para exemplificação:
Estou a ver os homens baixos e magros de camiseta e de ceroulas compridas, de flanela, estas com atilhos amarrados nas canelas, barba por fazer (só se fazia aos sábados, no barbeiro), boné ou chapéu na cabeça, mãos gretadas pelo trabalho duro, descalços, rosto envelhecido, queimado pelo vento e pelo sol impiedosos, força de vontade férrea, poupados, com gosto pelo trabalho e pela solidariedade tantas vezes manifestada, religiosos sem beatices, amigos dos seus amigos. As mulheres baixas e de pernas grossas, sem cintura e sem pescoço, olhos ingénuos, de chapéu de palha na cabeça por cima de um lenço que amarrava sobre o chapéu, roupas escuras, excepto ao domingo, em que se abusava da cor garrida, sobretudo as das secas do bacalhau, pernas com canudos (meias sem pés) enfiados para o sol não as queimar, que era fino tê-las brancas, descalças, mãos gastas pelo trabalhos, tranças na cabeça, porque permanentes eram para as da cidade, religiosas sem exageros, amantes do trabalho e poupadas, solidárias e amigas das suas amigas.
Mas a maneira de falar, um tanto ou quanto cantada, com alguma malícia pelo meio, entre risadas contagiantes, é que me encantava.
Levemos a nossa memória até lá atrás e ouçamos a Ti Maria e o Ti Atóino. Vinha ela desaustinada (sem tino) porque a canalha lhe estragara as batatas ali ao pé da escola da Tia Zefa. Estava arrenegada (zangada).
O ti Atóino vinha da borda, onde andara ao moliço para o aido. Antes da maré, porém, deitara-se a descansar, com o corpo moído, na proa da bateira que ia à rola (à deriva). Sem saber como, e com uma nassa, apanhou uns peixitos para a ceia (o jantar de hoje). Já não era mau. Naquele dia não comeriam caldo de feijão com toucinho, com um bocado de boroa. Sempre seria melhor.
— Então queras (queres) ver, Atóino, o que a canalha (os garotos) da escola fez? Andou por riba (cima) das batatas a achar (à procura de) a bola e ‘stragaram-me tudo. Tamém (também) andaram à carreira (a correr velozmente) atrás uns dos oitros (outros) a amandar (mandar, atirar) pedras e a acaçar ( caçar, ao agarra). Se andassem com relego (com moderação), ainda vá que não vá. Mas não. Andavam a toda a brida ( à desfilada, a toda a força), como que a atiçar (meter-se) comigo. E se calhar a professora estava abuzacada (refastelada) na sala. Isto está mal, não achas?
— Pois é verdade, Ti Maria. Não são coisas que se façam. Anda um home (homem) a gastar dinheiro em batatas e buano (guano), muitas vezes sem se astrever ( atrever, poder) e estes mariolas (marotos), num’stante (instante) deixam tudo ‘struído. Era só a gente atirar-lhe com um balde de auga (água), para eles aprenderem. São a mode (como que) tolinhos e alonsas (parvos). Mariolas! (marotos). Vossemecê já falou com a professora? Se ainda não, vá lá e diga-lhe que ó despois (depois) não se arresponsabiliza (responsabiliza). São uns desalservados (cabeças no ar), uns desintoados (desentoados, disparatados).
— Tens razão, Atóino. Vou lá num‘stante (instante), antes que seja tarde. Amanhê (amanhã) tamém (também) falo com os pais. Sempre são homes (homens) e melheres (mulheres) pra (para) darem uns estrincões (apertões com os dedos em zonas sensíveis) aos miúdos, pra (para) eles aprenderem. Opois (depois) que não se queixem.
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XV Festival, realizado em 10 de Julho de 1999.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

As mulheres da Gafanha (parte III)

Também, de uma forma geral, todas aproveitam algumas horas que lhes fiquem livres para ajudar na modesta faina agrícola da família, seja regar o milho, ir ao mato e à lenha ou tratar dos animais. “A sua vantagem não está no aligeiramento das tarefas, mas sim na mudança do ambiente, na variedade dos assuntos que lhes prendem a atenção e no convívio com as companheiras.” Assim – sublinha Maria Lamas –, as mulheres das secas do bacalhau são “desembaraçadas, faladoras e alegres, como se a vida lhes não pesasse. Em conjunto, nas horas de plena actividade, cantando em coro ou simplesmente escutando os programas de rádio, que um amplificador de som leva a todos os recantos das instalações onde trabalham [EPA – Empresa de Pesca de Aveiro], elas constituem um quadro pleno de vitalidade e optimismo”. Refere, depois, o que é o trabalho árduo destas mulheres, desde descarregar, lavar, salgar e levar o bacalhau, todos os dias, para as “mesas” da seca, para depois, mais tarde, empilhar, seleccionar e enfardar. Diz que elas andavam muitas vezes descalças, “apesar do perigo constante de se ferirem, com as espinhas e barbatanas que se encontram espalhadas pelo chão”. E acrescenta que uma ou outra consegue arranjar botas de borracha, “presente do irmão ou noivo que foi aos bancos da Terra Nova”, sublinhando que estas “são consideradas, pelas colegas, como privilegiadas”. “Há ainda aquelas que improvisam uma espécie de sandálias de madeira, amarrando uma ‘sola’ ao pé, com farrapos. São também raras excepções. A regra comum é o pé descalço, porque nenhum calçado duraria tempo que valesse a pena, além de que, não sendo impermeável, nem sequer evitaria que os pés estivessem sempre molhados”, pode ler-se no texto que estamos a seguir e do qual transcrevemos as partes mais significativas, na nossa óptica. Depois frisa os canos, que mais não eram do que “meias sem pés”, os baixos salários, “doze a quinze escudos diários”, e apresenta a mulher que as dirige, a Senhora Júlia, que os gafanhões mais antigos bem recordam.
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XX Festival, realizado em 10 de Julho de 2004.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Jantar de Natal

No próximo sábado, dia 12 de Dezembro, pelas 20 horas, num restaurante da nossa cidade, irá realizar-se o tradicional jantar de Natal do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré. Aos membros do direcção do grupo, cantadores, músicos, dançarinos e dançarinas juntam-se outros sócios e amigos para celebrar a época natalícia e comemorar mais um ano de muita actividade. Teremos também a presença dos nossos autarcas que tanto apoio nos têm dado e com os quais estabelecemos uma parceria que tantos e tão bons frutos tem dado, em prol da cultura do Concelho de Ílhavo.

As salinas da Ria de Aveiro

Exposição de fotografias sobre as salinas de Aveiro, na sequência de um trabalho para o Jornal de Noticias. Imagens de Jaimanuel Freire.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Vida e costumes dos pescadores (parte II)

São considerados "extraordinários", para o efeito de remuneração suplementar, quanto aos pescadores, os serviços de Caneiro ou Revezeiro e Metedor, e em relação aos auxiliares, os serviços de encascar e alcatroar a rede; vigiá-la de noite; colher as calas, acarretar madeira e chamar o pessoal. Este último serviço é realizado, umas vezes, por meio de som repetido e prolongado de um "búzio"; noutras, especialmente de dia, servem-se do pendão, grande cilindro de rede, alcatroada, de irregulares dimensões, que arvoram num mastro localizado próximo do palheiro da respectiva companha. Para chamar o gado, usam também, içar um segundo pendão. Estes processos quando se verificam, dispensam, necessariamente, o serviço directo dos chamadores.
Cada uma destas companhas possui, geralmente, uma embarcação e um palheiro com os aparelhos e utensílios indispensáveis ao exercício da sua indústria, conquanto algumas , por melhoria de posição económica, disponham efectivamente de mais embarcações e correspondente aparelhagem.
De uma maneira geral a alimentação do pescador não tem horário regular e resume-se a broa de milho, caldo de unto ou de legumes, sardinha e vinho; a sua condição raras vezes lhe permite excepções. A mulher, em regra, é quem administra o casal, mas ajuda também trabalhando na salga da sardinha, na venda do peixe fresco e, algumas vezes, no conserto de redes.
A "Casa dos Pescadores", recentemente criada por decreto-lei, veio trazer à sua vida árdua e arriscada um princípio de bem merecida protecção e assistência, na medida do possível em que concorre para o conforto dessa pobre gente de alma admirável que Raúl Brandão, melhor do que ninguém, -que eu saiba, -tão justamente soube apreciar.
Não há muito o confirmou também o ilustre Governador Civil do Distrito de Aveiro Sr. Dr. Almeida Azevedo, acrescentando não constar dos anais da criminalidade nos últimos 50 anos, qualquer delito por eles cometido.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A pesca à linha (I)

O linguajar dos gafanhões (parte III)

O seu linguajar é, portanto, filho de todas essas circunstâncias e resulta, vezes sem conta, da corruptela de vocábulos e expressões ouvidas das pessoas com quem contactavam, sem acesso a literatura ou a meios de comunicação social, embora na região já houvesse jornais e em algumas casas, muito poucas, um ou outro aparelho de rádio. Estamos a recordar as cerimónias de Fátima, sobretudo no dia 13 de Maio, participadas em casa de um abastado lavrador. Todos sentado no chão da sala, lá íamos ouvindo a transmissão com o dono do aparelho a acertar de quando em vez a sintonia. Era o que havia na nossa já distante meninice, que recordamos com imensa saudade pelo bucolismo que a envolvia.
Também não podemos esquecer os gafanhões que, nos finais do século XIX e princípios do século XX, aprendiam a ler pouco mais que o “b à bá” em casa de mestres populares, alguns dos quais deixaram marcas que o tempo não apagou. À hora da sesta, no Verão, ou ao serão, no Inverno, os mais atrevidos pelas coisas do saber e da cultura lá sacrificavam horas de descanso, no meio ou ao fim de um dia de trabalho duro, para aprenderem as primeiras letras na Cartilha Maternal de João de Deus, ou letras grossas que vinham da arte natural dos senhores mestres, os “sábios” da aldeia que liam e interpretavam, para quem necessitasse ou os quisesse ouvir, os editais afixados às portas das igrejas ou as notificações dos Tribunais, das Finanças ou militares. E era esta leitura periclitante, aprendida em tempos de lazer, embora poucos e nem sempre frequentes, que facilitava, a alguns, a interpretação de livros de devoção popular, os romances célebres, para raros leitores, de certos clássicos, sem esquecer a literatura de cordel, carregada de dramas passionais e de aberrações da natureza, que era vendida de feira em feira ou de romaria em romaria, por cantadores e cantadeiras que sabiam pôr angústia contagiante em tudo o cantavam. E a propósito, como seria interessante fazer um levantamento dessa literatura de cantar e de ler, e que passava de boca em boca, que os nossos avós tanto apreciavam e que deve andar perdida por alguma arca já carcomida pelo caruncho. Também nos alfarrabistas dos grandes centros ela deve ser procurada, ou, ainda, na memória dos nossos velhinhos mais dados a reterem as coisas do passado, como que a quererem ficar perpetuamente agarrados à sua meninice e juventude.
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XV Festival, realizado em 10 de Julho de 1999.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

As mulheres da Gafanha (parte II)


“A seca do bacalhau na Gafanha emprega muitas centenas de mulheres, durante parte do ano, havendo secas onde o trabalho é permanente, porque abrange duas campanhas, a dos lugres e a dos arrastões. “Na referência a esta actividade feminina focaremos em especial a Gafanha, visto ser ali que ela atinge o maior desenvolvimento, como é também ali que existem as mais importantes secas do bacalhau de todo o País.” Assim escreve Maria Lamas, que acrescenta: “Pelos costumes e ambiente em que vivem e ainda porque tanto se entregam à lavoura como à faina da seca ou qualquer outra que se lhes proporcione, elas conservam, sob certos aspectos, a mentalidade da mulher do campo; mas a disciplina das tarefas realizadas em comum ou distribuídas numa coordenação de actividades, o sentido das responsabilidade, os horários fixos e ainda o contacto com outras realidades directamente ligadas ao seu próprio esforço vão-lhes dando uma noção diferente da vida e criando consciência da importância do seu labor.” A escritora que andou pela nossa região recorda a maneira de viver das mulheres da Gafanha, com a sua “ignorância”, o conceito de “fatalismo, a que subordinam o seu destino”, mas também o instinto de “defesa dos seus interesses”, tornando-as “solidárias”. E sublinha: “No vestuário revelam maior cuidado na limpeza do que as camponesas, que saltam da enxerga, estremunhadas, antes do luzir do dia, e lá vão, para a labuta sem fim, indiferentes à água, ao sabão, ao pente... “Não se imagine, porém, que as mulheres do povo, naquelas circunstâncias, têm uma vida mais leve e fácil, em relação às suas irmãs que permanecem em contacto permanente com a terra. Com muito poucas excepções, elas fazem longos percursos, de manhã e à tarde, porque moram longe do local onde trabalham.
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XX Festival, realizado em 10 de Julho de 2004.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vida e costumes dos pescadores (parte I)

A vida do pescador está, por assim dizer, concretizada nas companhas, espécie de sociedades organizadas para a indústria da pesca e compreendidas em duas classes.
Numa delas, em que há sócios, ou patrões, que financiam e dirigem a safra, o pescador é simplesmente assalariado e recebe, além do salário, certa porção do peixe a que chamam caldeirada, e uma percentagem sobre o apuro bruto da pesca; pertencem a esta classe as que se constituem para a pesca da sardinha, com a "Arte de Xávega". Quase sempre os patrões assistem a toda a faina, colaborando nos serviços de terra, ou incutindo ânimo aos remadores sempre que acompanham o lanço.
Na outra, que abrange as restantes artes e se compõe, apenas, de pescadores em número variável, a retribuição de serviços faz-se por meio de quinhões do peixe capturado, em partes iguais a cada qual, retirado um terço, ou dois, da pescaria para as despesas da embarcação e do respectivo aparelho.
Nas companhas sa sardinha, o pessoal contratado subdivide-se em dois grupos que se designam por homens do mar e homens de terra, respectivamente pescadores e auxiliares.
Aos primeiros somente incumbe conduzir a rede para o barco e tripulá-lo; aos últimos cabe largar e arribar o barco; preparar a alagem das redes e chamar o gado necessário; estender a rede para secagem e vigiá-la, se esse serviço tiver lugar de noite; repará-la e recolhe-la depois no palheiro; encascar e alcatroar a mesma; colher os cabos de alagem e conduzi-los em seguida; dispor os roletes e varais para a largada ou arribação do barco, e, finalmente chamar o pessoal para os lanços.
Continua

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O linguajar dos gafanhões (parte II)

Linguajar alegre por entre cantigas da época e da tradição popular a desmantar o milho, a fabricar adobos nas dunas junto à mata e depois na construção solidária das casas modestas, na apanha do tremoço, nas novenas que boas almas organizavam para pagar promessas, nas festas e romarias da região, sempre alimentadas pelo espírito de convivência dos gafanhões. De tudo, restam na nossa memória cenas do quotidiano desta gente humilde, mas determinada, que fez as Gafanhas dos nossos dias, o orgulho dos que hoje, vindos de perto e de longe, de quase todo o Portugal, incluindo regiões autónomas e, ainda, dos actuais países de expressão oficial portuguesa, fazem parte integrante dos povos desta península da Gafanha. E todos estes, com a sua maneira de falar e de dizer o essencial do dia-a-dia, de cantar e de rir, de trabalhar e de viver, deram um pouco de si aos povos autóctones, num entrosamento muito feliz.

Mas hoje e aqui, onde nos apetecia continuar a recordar coisas de antanho que vivemos, vamos falar do linguajar destes povos, marcados, e de que maneira, pela vida agreste que as nortadas ainda mais agreste tornavam. Não se trata de uma língua propriamente dita, muito menos de um dialecto, mas única e simplesmente do modo de falar de um povo em que, ainda há meio século, predominava um grande analfabetismo. As meninas não iam obrigatoriamente à escola, e entre os rapazes muitos se esquivavam. E quando não se esquivavam, cedo perdiam o contacto com as letras, porque o trabalho, mesmo em meninos, os absorvia, quer nas tarefas agrícolas e nas marinhas de sal, quer na construção civil, na pesca e na ria. E ainda em indústrias então nascentes, tanto nas Gafanhas, como no concelho de Ílhavo e em Aveiro. A emigração também começou a marcar a nossa gente, e de que maneira, disso ficando rastos de hábitos de vida diferenciados, casas que nada têm a ver com a nossa identidade geográfica e humana, e o espírito de aventura e a determinação que perduram na juventude de hoje!
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XV Festival, realizado em 10 de Julho de 1999.

domingo, 22 de novembro de 2009

Convocatória

Maria da Ascensão Vilarinho Pata Farinha, presidente da Assembleia Geral do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, vem por este meio e no cumprimento do disposto no nº 2, alínea B) do Artigo 22º do Regulamento Interno desta Associação, convocar os associados para uma Assembleia Geral Ordinária, a ter lugar no dia 13 de Dezembro, pelas 20:00 horas , na sede desta Associação, sita na Rua Cooperativa Humanitária, nº 11, na cidade da Gafanha da Nazaré, com a seguinte ordem de trabalhos:
1- Leitura da Acta anterior,
2 - Discussão e votação do Plano de Actividades para o ano de 2010,
3 - Votação do Orçamento de Despesas para o ano de 2010,
4 - Votação do Orçamento de Receitas para o ano de 2010,
5 - Outros assuntos de interesse para a Associação.
No caso de à hora marcada para o início desta Assembleia Geral, não estarem presentes o número mínimo legal de Associados, será a mesma suspensa e na mesma data, local e com a mesma ordem de trabalhos, funcionará passados 30 minutos, com qualquer número de Associados presentes (Alínea 2 do Artigo 25º do Regulamento Interno).

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

As mulheres da Gafanha (parte I)

As mulheres da Gafanha merecem um estudo profundo sobre o seu papel na construção das povoações e das comunidades desta região banhada pela Ria de Aveiro. É certo que alguns estudiosos e escritores de renome já se debruçaram sobre elas, cantando loas à sua tenacidade e coragem, mas também ao seu esforço, desde sempre indispensáveis na luta de transformação de areias improdutivas em solo ubérrimo. Há décadas, e é sobre essas mulheres que nos debruçamos, elas eram as mães solícitas e amorosas dos filhos, mas também os “pais” que garantiam o sustento da casa, enquanto os maridos se aventuravam nas ondas do mar na busca de mais algum dinheiro que escasseava em terra. Em jeito de desafio a quantos podem e devem, pelos seus estudos e graus académicos, retratar as nossas avós, com rigor histórico, já que, hoje e aqui, não há lugar nem tempo para isso, apenas indicamos algumas pistas, que há mais de 50 anos nos foram oferecidas por Maria Lamas, na célebre obra “As mulheres do meu país”, que viu há tempos a luz do dia em 2ª edição, numa iniciativa da “CAMINHO”, e que tão esquecida tem andado.
Na década de quarenta do século passado, Maria Lamas, que faleceu em 1983, com a bonita idade de 90 anos, andou pelas Gafanhas, mais concretamente pela Gafanha da Nazaré, olhando, conversando, retratando e estudando as nossas avós. “O esforço da mulher na labuta comum e a sua influência no desenvolvimento da Gafanha são apontados, em toda a região de Aveiro, como um exemplo admirável”, afirma a escritora, depois de se referir, a traços rápidos, à localização da região que estudava, e de citar as areias e os ventos, as marés e a vegetação, as batatas e os cereais, as salineiras e as pescadeiras, as trabalhadoras das secas do bacalhau. E foram, sobretudo estas, as mulheres das secas, as que mais a entusiasmaram, ou não fossem elas o exemplo claro da camponesa e da operária na mesma pessoa.
Artigo da autoria do Prof. Fernando e publicado no Livro do XX Festival, realizado no dia 10 de Julho de 2004.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Farol da Barra de Aveiro (parte III)

Os trabalhos não foram tão céleres quanto seria de desejar, o que levou o ilustre parlamentar José Estevão a pedir ao Governo, em 4 de Julho de 1862, na Câmara dos Deputados, a construção de um farol na nossa costa. No ano seguinte, em 15 de Setembro, a Câmara Municipal de Aveiro apresentou a el-rei D. Luís uma exposição, requerendo a edificação de um farol ao sul da barra.
Para justificar a sua petição, a autarquia aveirense recorda que importa "evitar os naufrágios que tão frequentes se têm tornado nestes últimos tempos, no extenso litoral entre o Cabo Mondego e a Foz do Douro". E acrescenta: "Ninguém pode duvidar, Senhor, que numa costa tão extensa como acidentada, em que as restingas ou cabedelos se formam pela a violência das correntes, cuja direcção varia diariamente, um farol evita que os navios, se singram próximo de terra, se enganem no rumo, vencendo as dificuldades da navegação sem correrem o risco de naufragar nos bancos de areia, às vezes em noites bonançosas, como infelizmente tem sucedido entre nós."
A resposta do Governo não tardou. No dia 26 de Setembro de 1863, uma portaria governamental ordena que se fizesse o projecto e o orçamento. O projecto foi concluído em 5 de Abril de 1884 e os trabalhos da construção iniciaram-se em Março de 1885.
A inauguração oficial do farol aconteceu em 31 de Agosto de 1893.
FIM
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XXII Festival, realizado em 8 de Julho de 2006.

sábado, 14 de novembro de 2009

O Baptismo na Gafanha - 3

A prevenir estes perigos, há necessidade de colocar durante a noite sobre a criança as calças do pai, com a perneira esquerda desvirada e de dia e de noite dependurar umas tesouras abertas junto à cama.
São desnecessárias estas precauções quando os meninos já não são pagões.
A criança não é lavada no dia do baptismo e após ele por respeito à água baptismal.
Eis como as mães embalam os filhos.
………….
Nana, nana, meu menino,
C’a tua mãe logo bem:
Foi labá-las fraldinhas
Á fonte de Belém.

O mê menino é d’oiro,
D’oiro é mê menino;
Hê-de entregá-lo ós anjos
Incanto é pequenino.

Vai-te embora, papão negro,
De cima de mê telhado;
Deixa dormir o menino
Um soninho descansado.

Quem tem o nome de mãe
Nunca passa sem cantar;
Cantas vezes a mãe canta
Com vontade de chorar.

In “Monografia da Gafanha “ do Padre João Vieira Resende.

Boas leituras

Rubem da Rocha

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