segunda-feira, 15 de junho de 2009

Apontamento sobre o Gafanhão e a areia – 6

Encontrando-se a dois passos de Aveiro, o habitante da Gafanha não sente nem vive como o Aveirense. Menos sentimental e mais metido consigo, raro se entusiasma ou se queixa, guardando caladamente projectos e desgostos que tenha.
Fisicamente mesmo, não se encontram no Gafanhão os traços das restantes povoações ribeirinhas. Não se lhe nota aquele olhar atirado para longe que existe no rosto dos homens de Ílhavo, mais amantes do mar alto, embora vivendo mais longe da costa. Nem mesmo há no Gafanhão a desenvoltura e a viveza do seu vizinho murtoseiro.
Mas o que fundamentalmente caracteriza o homem da Gafanha é a sua psicologia de pessoa prática, mais dada aos interesses do solo que à nostalgia do além do mar, com que sonham em última análise os restantes homens da beira da laguna.
Enquanto o Ilhavense andou ao deus dará pelos sete mares do mundo, cortando rotas, descobrindo terras, visitando praias, foi-lhe na alma gerando como que uma névoa de saudosismo sentimental que deixou aos filhos e aos netos por hereditariedade.
Mas, enquanto isso, o Gafanhão lutou em terra, prosaicamente, dentro de limitados horizontes, no fito de uma construção definida. Moldou-lhe esta circunstância um espírito pragmático, sempre tendo em vista uma finalidade útil e imediata, em vez de um vago ideal de partir a correr mundo, sem saber para quê, como as gaivotas do mar.
O homem do mar luta com os elementos, porque o seu fundo temperamental de poeta o faz instintivamente descobrir na luta quanta beleza existe no esforço titânico do vencedor das ondas e do vento. O Gafanhão, homem de terra, luta sem tréguas, teima e vence, é pertinaz, laborioso e indomável, porque da sua luta surgirá o pão que é para ele a primeira condição da vida.
Por isso, enquanto Ílhavo e Aveiro são hoje terras pobres, embora com poemas de heroicidade escritos nas rotas de um milhão de barcos que tem sulcado as ondas de todos os mares, a Gafanha é simplesmente um celeiro cheio, uma grande arca de pão.
O Gafanhão pretendeu apenas bastar-se, arrancar alimento da areia, ser útil. Não tem consciência da epopeia magnífica erguida em três gerações, com suor e enxadas, à sombra da proa recurvada dos seus moliceiros. Mas nem por isso é menor o seu mérito. Nem por isso a sua Gafanha, a Gafanha que ele fez sozinho, (contra tudo e contra todos), nem por isso a sua Gafanha deixa de ser um triunfo monumental que aí temos a atestar ao Pais e ao Mundo que o braço do homem continua sendo, a grande alavanca da criação e que em boa verdade vence quem teima, porque a fé revolve montanhas.
Texto retirado do Arquivo do Distrito de Aveiro – Volume IX de 1943, de Joaquim Matias.

Depois de terminar a transcrição deste texto, gostaria apenas de relembrar, pois penso que também o notaram, na forma simples e melodiosa, de como o autor fez a narração da criação da nossa Gafanha.
Em certas alturas chegou a ser mesmo como que poética, mostrando-nos um Gafanhão persistente, com grande força de vontade, nunca virando a cara à luta. Um Gafanhão que semeava e após a natureza destruir, voltava a semear, tantas até conseguir ter sucesso.
Depois desta descrição neste texto e de toda a história que conhecemos, ninguém deverá ter vergonha de ser Gafanhão e deixar de vez com a persistência de outros nomes.

domingo, 14 de junho de 2009

Origens do vocábulo "Gafanha" (parte I)

Qualquer estudo que se faça sobre a nossa terra, leva, inevitavelmente, os seus autores a debruçarem-se sobre as origens do vocábulo Gafanha, sem que até hoje alguém tenha chegado a qualquer verdade absoluta.
O autor destas linhas é, quase sempre, abordado para dar a sua opinião, quando é certo que não passa dum curioso pelas coisas da Gafanha e das suas gentes.
Temos de convir que faz parte do espírito de curiosidade das pessoas procurarem a etimologia dos vocábulos geográficos, sendo corrente encontrarem lendas na base de muitos.
A palavra Gafanha não escapa à dificuldade natural e ainda hoje não é possível saber-se concretamente a sua origem.
Para acicatar o gosto pela análise desta questão, aqui deixamos algumas hipóteses na esperança de que outros possam dar continuidade ao estudo que se impõe.
A Monografia da Gafanha do Padre João Vieira Resende, obra que viu a luz do dia, na sua segunda e última edição em 1944, continua a ser o trabalho mais completo sobre esta região das Gafanhas, não obstante terem passado 40 anos sobre a sua publicação. Nela afirma o Padre Resende que a palavra Gafanha teria derivado de gadanhar (cortar com a gadanha) uma vez que aqui havia bastante junco que os primeiros habitantes empregavam, não só nos currais dos animais, como nas próprias habitações.
Os primeiros gafanhões ou quantos por aqui gafanhavam, ou, melhor dizendo, gadanhavam, eram analfabetos ou semi-analfabetos, daí se justificando a troca do d pelo f. Aliás, isso sempre aconteceu na Gafanha, como, por exemplo, nos dias de hoje, quando se diz buano em vez de guano.
Diz o Padre Resende que a expressão "vamos à gafanha do junco" significava "vamos à gadanha (gadanhagem, corte) do junco". E diz, ainda, que o senhor Manuel das Neves, mestre não diplomado das primeiras letras, falecido em 1927, com 83 anos, na Gafanha da Encarnação, contava que "quando menino, vinham aqui, com frequência, umas mulherzinhas cortar e apanhar feno e junco que levavam para as suas terras e que, a esta acção de cortar com o foicinho, aplicavam o termo de gafenhar. Gafenhar e não gafanhar. "Corrompeu-se o termo das pastoras dos suínos, que levavam para Mira, Calvão, Lombomeão, etc., os fenos gafenhados por estes sítios.
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins, publicado no livro do 3º Festival Nacional de Folclore do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré que se realizou a 12 de Julho de 1987.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Tomás Ribas


Iniciamos hoje uma rubrica sobre personalidades que se dedicaram à causa da Etnografia e do Folclore. Começamos por alguém que chegou a visitar o Grupo Etnográfico para ajuizar da sua autenticidade, enquanto responsável pelo Inatel.


Tomaz Emídio Leopoldo de Carvalho Cavalcanti de Albuquerque Schiappa Pectra Sousa Ribas

Escritor e etnógrafo, nasceu em Alcáçovas, Viana do Alentejo, em 20 de Junho de 1918 e faleceu em Campolide, Lisboa, em 21 de Março de 1999. No Conservatório Nacional concluiu o curso especial de Dança e Coreografia. Foi professor no Teatro Nacional de São Carlos e no Instituto de Novas Profissões. Cultivou o jornalismo, fazendo crítica de Teatro e de Ballet. Praticou encenação coreográfica e teatral e participou em movimentos teatrais de vanguarda. De 1977 a 1986 foi Delegado no Algarve da Secretaria de Estado da Cultura, tendo sido depois nomeado para a Comissão Instaladora da Escola Superior de Dança, do Instituto Politécnico de Lisboa. Estreou-se nas letras com o volume de poemas Monotonia, 1942. Entre outras obras, publicou Montanha Russa, 1946, e O Cais das Colunas, 1959 (romance), O Primeiro Negócio, 1955, e Giovanna, 1965 (contos e novelas), Roberto e Melisandra, 1952 (teatro), O que é o Ballet, 1958 (Ensaio), e Ana Pavlova, 1961 (biografia). (1)
Foi Chefe de Divisão de Etnografia e Folclore do Inatel, membro do Conselho Científico e Orientador de Seminários da Escola Superior de Dança do Instituto Politécnico de Lisboa, membro da Secção Portuguesa do CIOFF - UNESCO, etc. Foi Comendador da Ordem de Mérito e Doutor Honoris Causa pela Universidade da Dança (Paris).

Na área do Folclore e da Etnografia publicou: Danças populares portuguesas, Danças do povo português, Introdução ao estudo das danças populares de Cabo Verde, Introdução ao estudo das danças da África Portuguesa, O Teatro popular de São Tomé e Príncipe, O Tchiloli - Teatro clássico popular de São Tomé e Príncipe, Aspectos da etnografia e do folclore da Nazaré, Guia de recolha de danças populares, O Teatro popular tradicional português, Monografias da dança folclórica da Europa, Danças populares tradicionais portuguesas, Tentativa de uma classificação das danças populares portuguesas, Bosquejo histórico das danças tradicionais portuguesas.

Fonte: "O Grande Livro dos Portugueses" - Círculo de Leitores

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A história do Grupo Etnográfico (parte VI)

Entretanto, os corpos gerentes do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré ficaram assim constituídos:
Assembleia Geral
Presidente - João Álvaro Teixeira da Rocha Ramos
Secretário - Paulo Manuel Marques Riço
Vogal - David Soares Caçoilo
Direcção
Presidente - Alfredo Ferreira da Silva
Vice-Presidente - José Manuel da Cunha Pereira
Secretário-Geral - José Augusto Teixeira Rocha
Secretário-Adjunto - Paulo Jorge Albuquerque Teixeira
Tesoureiro - José da Costa Ferreira
Tesoureiro-Adjunto - Maria Isabel Fidalgo das Neves Nunes
Vogal - Maria da Conceição Bola Soares
Vogal - Alda Rei Albuquerque
Vogal - Rosa Bela Vidreiro Pata
Conselho Fiscal
Presidente - Manuel Cravo da Rocha
Vogal - José Maria Serafim Lourenço
Vogal - Eduardo Aníbal Falcão Ribeiro Arvins
O primeiro ensaiador do Grupo foi Acácio José Teixeira Rito Nunes, mas tempo depois, por motivos da sua vida profissional, teve de emigrar, sendo substituído por Carlos Alberto Pereira de Sousa, que acabou por abandonar essas funções por ter ingressado num Seminário, na perspectiva de vir a ser ordenado sacerdote, como veio a acontecer. O terceiro ensaiador foi Eduardo Aníbal Falcão Ribeiro Arvins.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Apontamento sobre o Gafanhão e a areia – 5

Ao norte, formava a população a Gafanha da Nazaré. Mais abaixo, à beira do canal ocidental, surgira a Gafanha da Encarnação. Mais a sul, a Gafanha do Carmo. E para baixo desta, a Gafanha da Boa-Hora.
Uma população numerosa e trabalhadora conquistava com a sua enxada o areal desértico e realizava, à custa de um esforço hercúleo e de uma persistência sobre-humana, um grande sonho que havia sido sonhado pelo primeiro Gafanhão que na hostilidade da areia construíra um dia a sua cabana e plantara as primeiras couves.
Principiaram a vingar as searas de milho e feijão. Veio a batata depois, o grão-de-bico, a melancia e a cebola. E uma torrente de fartura manou da terra para as caixas do Gafanhão.
Chegaram negociantes em seguida, à compra dos géneros, e deixaram dinheiro. Para absorve-lo, vieram as lojas e os homens de negócio com relações em outros centros. Metade dos braços que haviam conquistado a areia à improdutividade era agora dispensáveis e emigraram para a América, donde alguns voltaram ricos.
Então o Gafanhão abriu através da areia estradas que asfaltou, por onde rola o seu automóvel de “novo-rico”. Se é proprietário, construiu à beira da estrada o seu palacete e mandou o filho a Coimbra formar-se. Formou sociedades de pesca de bacalhau, construiu estaleiros, fez navios, recrutou pescadores entre os Gafanhões mais pobres e mandou-os à Terra Nova e Gronelândia.
Hoje é a Gafanha um solo riquíssimo, arca de pão nacional que exporta centos de toneladas de todos os géneros para regiões de terra ingrata, onde o trabalho não frutifica.
É um milagre de esforço e de persistência de um rude camponês desconhecido cujo trabalho é uma epopeia grandiosa. É um monumento de triunfo de um homem teimoso que lutou e venceu, ganhando uma vitória tão deslumbrante, quão fantástica foi a luta que sustentou sem desânimo nem fraqueza de espírito.
Aliás, o Gafanhão continua sendo ainda hoje o que ontem foi: persistente e fechado consigo, empreendedor e quase nada comunicativo. No ambiente que a si próprio se criou, foi modelando um carácter de homem só, de lutador que sabe até onde contar consigo, e em pouco se fia do auxilio que possa advir-lhe de alguém ou de algures.
(Continua).

Texto retirado do Arquivo do Distrito de Aveiro – Volume IX de 1943, de Joaquim Matias.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Grupo Folclórico de Gumirães

Algumas fotografias para dar conta da nossa actuação por terras de Viriato.
À noite, por acaso uma noite agradável, decorreu o Festival e o Grupo Etnográfico mostrou o seu folclore, os seus trajes, danças e cantares.

Durante a tarde visitámos a cidade percorrendo algumas ruas, entre as quais se destaca a famosa Rua Direita.

E não podia faltar a foto de família, junto à estátua de D. Duarte, no largo da Sé.
Folclore também é isto: descobrir as riquezas das terras que visitamos.

A história do Grupo Etnográfico (parte V)

Por mais complexo que seja o processo de nascimento de uma qualquer instituição, há sempre uma data que se fixa como a primeira. Assim, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré nasceu oficialmente no dia 1 de Setembro de 1983, sendo lógico aceitar que a fecundação aconteceu anteriormente, com mais rigor em 1980/81, na referida festa da Catequese, em que alguém avançou com a ideia de se dançar e cantar modinhas dos nossos avós, no encerramento do ano catequético.
E se é verdade que se assumiu aquela data como a mais próxima da realidade, também é certo que o registo do nascimento se fez em 11 de Julho de 1986, através de escritura notarial.
Nesse dia, no Cartório Notarial de Ílhavo, a cargo da licenciada Maria Helena de Matos Ferreira, assinaram a escritura, como fundadores do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, os seguintes: Alfredo Ferreira da Silva, José Manuel da Cunha Pereira, Maria Isabel Fidalgo das Neves Nunes, José Maria Serafim Lourenço, Maria Isabel da Rocha Ribau Amarante, Augusto Manuel da Rocha Amarante, José da Costa Ferreira, Maria de Lurdes Matias Cravo, Humberto Nunes Merendeiro, José Manuel Ribau Augusto, Maria Rosália Figueiredo Rodrigues Teixeira, Maria Helena Pereira de Sousa, David Soares Caçoilo, João Álvaro Teixeira da Rocha Ramos, José Augusto Vilarinho Fidalgo, Maria da Conceição Bola Soares e Manuel Joaquim Retinto Ribau.
A publicação da escritura veio no Diário da República de 14 de Agosto de 1986, III série.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Cidade de Viseu (II)

As Relíquias da Sé localizam-se particularmente no Museu de Arte Sacra em Viseu (Sé).
Estas são constituídas por ouro, pedras preciosas, combinadas com as mais requintadas peças eclesiásticas como o pluvial (bordado a ouro). Estão presentes também, peças trabalhadas ao pormenor com um grande valor histórico como é exemplo a Custódia do Gótico Flamejante. Um detalhe importante a salientar é a presença de fragmentos de crânio de Santa Ursula.
Assim, o Museu de Arte Sacra apresenta inúmeras peças de valor histórico e cultural. Para o claustro alto abre-se hoje o Museu de Arte Sacra (O Tesouro da Sé ou Relíquias da Sé), valioso escrínio de preciosíssimas peças que estiveram ligadas ao culto. O seu espaço interior renovado no séc. XVIII a partir da chamada Casa de S. Teotónio é constituído pela casa Capitular em que merece particular interesse o lambril de azulejos de Coimbra (Oficina de Agostinho de Paiva), a Sala do Cartório com um singular núcleo de paramentaria e o andar alto da Torre do Relógio. Este espaço guarda um verdadeiro tesouro constituído por uma caixa de madeira, românica, do séc.XII, com a pintura de uma poética cena de cavaleiresca, um precioso Evangeliário do séc. XII, dois cofres-relicários, de Limoge do séc. XIII, a custódia da prata dourada que D. Miguel da Silva ofereceu à Santa Sé em 1533 e um cálice de prata dourada, de 1620, oferecido por Estêvão Gonçalves Neto e muitas mais raridades. Vale a pena ir ver. Nós já fomos…

Cidade de Viseu (I)

No passado sábado deslocámo-nos até à bela cidade de Viseu para participar em mais um Festival de Folclore. Foi-nos proporcionada uma visita guiada pela cidade e alguns monumentos, concretamente a Sé catedral de Viseu. Ficámos encantados e disso damos conta neste pequeno excerto que retirámos da Internet.
A Sé Catedral de Viseu, domina de forma alternativa o Centro Histórico de Viseu. Nela estão quase dez séculos de história. A Catedral de Viseu é um ímpar mosaico de estilos arquitectónicos. Podemos afirmar que todas as grandes correntes artísticas nacionais ali estão presentes, nalguns casos, mesmo em expressões de inexcedível beleza.
A construção do grande edifício viria a arrastar-se por largo tempo, por efeitos adversos, por exemplo, o mortífero e devastador surto epidémico de 1310 (Peste Negra), e destruições provocadas na cidade e região por sucessivas incursões castelhanas no tempo dos reis D. Fernando e D. João I. Mesmo assim, ainda que incompleta, foi na Sé que os moradores da cidade perseguidos pelo inimigo de além fronteiras, encontraram refugio que o desbarato castelo já não lhes podia dar.
Assim, temos fundamentalmente o estilo românico-gótico, Gótico, Manuelino, Renascentista, Barroco e também a modernidade, na arrojada expressão do novo altar mor. A actual Catedral de Viseu é um edifício gótico, fortificado, dos séculos XIII-XIV, ao qual diversas obras das centúrias seguintes deram a fisionomia inconfundível que, nos nossos dias, apresenta. A Sé de Viseu é um monumento de “nobres proporções”, notável entre os seus congéneres portugueses.
Internamente é uma igreja de três naves, divididas em três tramos e um transepto, havendo para além deste uma profunda capela-mor levantada no séc. XVII para substituir a capela-mor românica que o tempo de Grão Vasco enchera de belíssimas pinturas. Os arcos divisórios são apoiados em grossos pilares, formados porfeixes de doze colunelos, assentes por sua vez, em largas bases manuelinas, modificadas na Grande Vacância de 1720-1741.
Uma das mais originais abóbadas construídas em Portugal cobre as três naves desta igreja-salão. Mandou-a edificar o bispo D. Diogo Ortiz de Vilhegas que foi do Conselho do Rei, ficando terminada em 1513. Oferece uma impositiva imagem de gigantescas cordas que se atam num vigoroso nó central, alusão fácil à epopeia dos descobrimentos que então se vivia. É a Abóbada dos nós. A abóbada que suporta o coro alto deve-se sem dúvida ao arrojo de João de Castilho, grande mestre dos Jerónimos.
O retábulo da capela-mor, joanino, é preciosíssima obra do arquitecto de Lisboa, Santos Pacheco, sendo do séc. XVIII também os altares colaterais que receberam excelente imaginária atribuída à oficina de Claude Laprade A Sacristia, de D. Jorge de Ataíde, é um verdadeiro núcleo museológico com o seu revestimento azulejar e a pintura do tecto.
Na fachada exterior, as duas torres lembram o românico original, mas apenas a torre da direita vem do tempo Dionísio da fundação, o séc. XIII. A outra foi levantada do chão no séc. XVII. Havia sido derrubada em 1635 por um fortíssimo temporal que fez arrastar com ela a fachada manuelina, de uma grande beleza, como escreveu o cronista da cidade, Botelho Pereira, em 1630. Depois disso o arquitecto salamantino João Moreno levantou com sobriedade a presente fachada que sugere retábulo maneirista de três balcões sobrepostos, em cujos nichos laterais se resguardam os quatro evangelistas, S. Marcos, S: Lucas, S. João e S. Mateus, deixando ao centro a Senhora da Assunção e S. Teotónio

sábado, 6 de junho de 2009

Apontamento sobre o Gafanhão e a areia – 4

E então surgiu o inevitável: uma noite de vendaval cobriu de areia as culturas, erguendo dunas sobre as sementes enterradas.
Foi preciso recomeçar pacientemente. Foi necessário enterrar moliço muito ao largo, tentando prender com húmus a areia movediça que o vento espalhava ao acaso.
E o Gafanhão assim fez. Foi tratando com adubo hectares de solo, para colher apenas nas poucas leiras que lhe rodeavam a casa.
Tudo isto, porém, ia levando anos sobre anos, em que a areia e o vento pareciam apostados em destruir caprichosamente o trabalho do homem. Não fora o Gafanhão quem é, teimoso e paciente como herói lendário e teria desistido de domar aquela terra maldita que a si própria se cobria, arrasando numa hora muitos meses de esforço inaudito.
Uma outra geração sucedeu, porém, à primeira e a luta continuou. Multiplicaram-se os braços, salpicou-se de casas todo o areal da beira-ria e os avós ensinavam aos netos, dobrados todos sobre as enxadas, que era preciso lutar e vencer, sob pena de morrer pela fome.
Depois da invasão das culturas pela avalanche das dunas, nunca os mais novos viam que os velhos chorassem, de braços cruzados, rogando pragas ao destino. Viam sim, crescer na água o número de barcos e na terra o de enxadas que recomeçavam pela centésima vez o trabalho inútil de uma sementeira que não chegava a dar fruto.
Teimava a areia em bailar, cobrindo cinicamente de grãos estéreis o chão estrumado com algas. E o Gafanhão teimava em vencê-la, enterrando-lhe mais e mais lavouros de moliço que ia buscar à água dia e noite.
Ao despontar de uma terceira geração, dispunha já o deserto de pouca areia branca para semear sobre o terreno escurecido que o gafanhão adubava teimosamente. Nas encostas das dunas interiores, mais selvagens, começava o pinheiral a segurar com raízame o terreno esfarelado. E à beira da água, na areia escura, o húmus e as raízes dos feijoeiros fixavam o perfil de um solo que principiava a render-se.
(Continua).

Texto retirado do Arquivo do Distrito de Aveiro – Volume IX de 1943, de Joaquim Matias.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Grupo Folclórico de Gumirães

No próximo sábado, 6 de Junho, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré desloca-se à cidade de Viseu, a convite do Grupo Folclórico de Gumirães.
Irá participar na 5ª Festa de Folclore de Gumirães juntamente com o Grupo de Danças e Cantares S. João da Ribeira, de Rio Maior e o Rancho Folclórico de Oliveira de Santa Maria, de Vila Nova de Famalicão, isto além do Grupo anfitrião.
O programa é o seguinte:
16:30 horas - Chegada à cidade de Viseu,
17:00 horas - Visita organizada,
18:45 horas - Chegada ao RI 14,
19:00 horas - Jantar convívio,
20:00 horas - Trajar,
20:30 horas - Saída para Gumirães,
21:00 horas - Início do desfile,
21:15 horas - Início do Festival.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A história do Grupo Etnográfico (parte IV)

Surge então a proposta de se contactar alguém da Federação do Folclore Português. O nome do saudoso José Maria Marques, na altura vice-presidente da Federação, foi indicado por seu irmão, Severim Marques.
Lá se dirigiu a Mourisca do Vouga, onde residia, uma comitiva da Gafanha da Nazaré, constituída por Alfredo Ferreira da Silva, Carlos Alberto Ferreira, Acácio Nunes e Manuel Fernando da Rocha Martins.
No primeiro contacto, pouco ou nada se adiantou. José Maria Marques apenas se limitou a uma conversa de circunstância, onde abordou a importância da cultura popular, fazendo logo aí a apologia do rigor histórico como fundamental a qualquer trabalho deste género. Numa segunda visita, leu-nos um trabalho que havia escrito sobre o folclore e etnografia da Gafanha da Nazaré, com a indicação de danças e cantares, trajes e outras tradições. Cedeu então esses apontamentos que alguém guardou. Nunca mais foram vistos.
No entanto, verificámos que nem tudo corresponderia à verdade histórica da nossa terra, pelo que se optou, e bem, por avançar para pesquisas no terreno, paulatinas mas firmes e apoiadas na autenticidade e testemunho dos gafanhões mais idosos.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Apontamento sobre o Gafanhão e a areia – 3

Então passou o Gafanhão a dividir o seu tempo entre a enxada e o ancinho do moliço, descendo à água, de manhã, para desengaçar algas e cavando a areia de tarde, para enterrá-las. Plantou mais couves e semeou mais feijões, iludindo hora a hora, a sua fome, com a perspectiva do dilúvio de fartura que havia de ter um dia.
Efectivamente, pensava ele, era infinitamente grande aquele areal que tinha em frente. E no dia em que o chão tivesse enegrecido, à força de moliço e lama, seria possível ter-se ali uma fortuna em terra onde colher novidade.
Sonhando este grande sonho. Tendo aninhada em si a ambição de vir a ter fartura e aquecido pela confiança segura no êxito, o homem teimava em cavar e plantar sempre, indo à Ria e revolvendo a areia, labutando apesar da fome, semeando pela décima vez onde nove, havia falhado uma cultura, sem desalento nem cansaço.
Quando a brancura do solo tinha ligeiramente escurecido, à força de adubo, as primeiras folhas da novidade manchavam de verde o chão, em volta da casa do homem, que sorria, triunfante, limpando o suor às costas negras da mão calejada.
E então veio de alguma parte outro homem, que se aliou ao primeiro. E chegou mais outro ao depois e um quarto, um quinto e uma família, e mais outras.
Ergueram-se mais casas ao longo dos braços da Ria, uma aqui, outra ali. Mais enxadas começaram a remover a areia e mais ancinhos de dentes bastos a arranhar o lodo do fundo do canal, arrancando moliço.
O Gafanhão organizava-se em exército indomável na luta contra a praga da areia. Teimoso por índole, jogou a cartada final: fixou-se. Casou e teve filhos. Construiu mais casas, mandou fazer mais enxadas de pá muito larga, muniu-se de ancinhos em maior quantidade e construiu moliceiros para a faina da Ria.
Eram então mais os braços. Homens e mulheres, filhos, genros e noras, tinham todos que amassar em suor a teimosa areia que se negava a produzir. E, enquanto uns labutavam em terra, cavando e semeando, outros queimavam ao sol iodado, sobre a água, os dorsos mal cobertos, dobrados sobre os cabos longos de pesados ancinhos a arrastar na lama.
Em volta da casa, ia o chão enegrecendo e já o cobria a verdura das folhas da novidade. Mas havia que alargar para dentro as culturas, que enegrecer mais areia, que fertilizar maior superfície de deserto.

(Continua).
Texto retirado do Arquivo do Distrito de Aveiro – Volume IX de 1943, de Joaquim Matias.

domingo, 31 de maio de 2009

Dia Nacional do Folclore Português

Realizou-se hoje, em Espinho, o Dia Nacional do Folclore Português, com a presença de largas dezenas de grupos folclóricos e etnográficos do nosso país. O Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré marcou presença, apesar de ontem termos estado em Viana do Castelo e termos chegado a casa por volta das 2 e 30 da madrugada. Debaixo de um sol abrasador, desfilámos por algumas ruas da cidade em direcção à Câmara Municipal de Espinho, onde decorreram as cerimónias.
Foram homenageadas algumas personalidades, entre as quais o Presidente da Federação do Folclore Português, tendo recebido uma Cruz de Malta em filigrana. Uma peça belíssima como podeis comprovar pela foto acima.
Do leque de personalidades presentes constava, além do já citado Presidente da Federação de Folclore, Lillo Alessandro, presidente da União Internacional das Federações dos Grupos de Folclore, José Mota, presidente da Câmara Municipaçal de Espinho, Filipe Neto Brandão, governador Civil de Aveiro e José António Ribeiro, Ministro da Cultura.
O Grupo Etnográfico recebeu também diplomas e medalhas para os seus elementos, como prova de apreço e gratidão pelo trabalho desenvolvido em prol da cultura popular.

Actuação em Perre

Realizou-se ontem, em Perre, Viana do Castelo, mais um Festival de Folclore com a participação do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré.
Antes do Festival participámos numa Eucaristia comemorativa dos XXIV anos do grupo anfitrião e fomos encarregados de cantar o cântico do "Pai Nosso". Foi uma celebração muito bonita e repleta de significado para todos.
A nossa actuação correu muito bem e mais uma vez dignificámos a nossa terra e o nosso folclore.
Tivemos oportunidade de encontrar gente amiga, gente sã e muito trabalhadora. Todo o seu trabalho e dedicação tomaram forma numa das mais bonitas sedes de grupo que alguma vez vimos. Deu-nos incentivo para também trabalharmos no sentido de podermos ter o nosso espaço próprio, onde possamos receber condignamente quem nos visita e podermos, igualmente, ter um museu para guardar e mostar todo o fruto de 25 anos de recolhas e pesquisas.

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