segunda-feira, 8 de junho de 2009

Cidade de Viseu (II)

As Relíquias da Sé localizam-se particularmente no Museu de Arte Sacra em Viseu (Sé).
Estas são constituídas por ouro, pedras preciosas, combinadas com as mais requintadas peças eclesiásticas como o pluvial (bordado a ouro). Estão presentes também, peças trabalhadas ao pormenor com um grande valor histórico como é exemplo a Custódia do Gótico Flamejante. Um detalhe importante a salientar é a presença de fragmentos de crânio de Santa Ursula.
Assim, o Museu de Arte Sacra apresenta inúmeras peças de valor histórico e cultural. Para o claustro alto abre-se hoje o Museu de Arte Sacra (O Tesouro da Sé ou Relíquias da Sé), valioso escrínio de preciosíssimas peças que estiveram ligadas ao culto. O seu espaço interior renovado no séc. XVIII a partir da chamada Casa de S. Teotónio é constituído pela casa Capitular em que merece particular interesse o lambril de azulejos de Coimbra (Oficina de Agostinho de Paiva), a Sala do Cartório com um singular núcleo de paramentaria e o andar alto da Torre do Relógio. Este espaço guarda um verdadeiro tesouro constituído por uma caixa de madeira, românica, do séc.XII, com a pintura de uma poética cena de cavaleiresca, um precioso Evangeliário do séc. XII, dois cofres-relicários, de Limoge do séc. XIII, a custódia da prata dourada que D. Miguel da Silva ofereceu à Santa Sé em 1533 e um cálice de prata dourada, de 1620, oferecido por Estêvão Gonçalves Neto e muitas mais raridades. Vale a pena ir ver. Nós já fomos…

Cidade de Viseu (I)

No passado sábado deslocámo-nos até à bela cidade de Viseu para participar em mais um Festival de Folclore. Foi-nos proporcionada uma visita guiada pela cidade e alguns monumentos, concretamente a Sé catedral de Viseu. Ficámos encantados e disso damos conta neste pequeno excerto que retirámos da Internet.
A Sé Catedral de Viseu, domina de forma alternativa o Centro Histórico de Viseu. Nela estão quase dez séculos de história. A Catedral de Viseu é um ímpar mosaico de estilos arquitectónicos. Podemos afirmar que todas as grandes correntes artísticas nacionais ali estão presentes, nalguns casos, mesmo em expressões de inexcedível beleza.
A construção do grande edifício viria a arrastar-se por largo tempo, por efeitos adversos, por exemplo, o mortífero e devastador surto epidémico de 1310 (Peste Negra), e destruições provocadas na cidade e região por sucessivas incursões castelhanas no tempo dos reis D. Fernando e D. João I. Mesmo assim, ainda que incompleta, foi na Sé que os moradores da cidade perseguidos pelo inimigo de além fronteiras, encontraram refugio que o desbarato castelo já não lhes podia dar.
Assim, temos fundamentalmente o estilo românico-gótico, Gótico, Manuelino, Renascentista, Barroco e também a modernidade, na arrojada expressão do novo altar mor. A actual Catedral de Viseu é um edifício gótico, fortificado, dos séculos XIII-XIV, ao qual diversas obras das centúrias seguintes deram a fisionomia inconfundível que, nos nossos dias, apresenta. A Sé de Viseu é um monumento de “nobres proporções”, notável entre os seus congéneres portugueses.
Internamente é uma igreja de três naves, divididas em três tramos e um transepto, havendo para além deste uma profunda capela-mor levantada no séc. XVII para substituir a capela-mor românica que o tempo de Grão Vasco enchera de belíssimas pinturas. Os arcos divisórios são apoiados em grossos pilares, formados porfeixes de doze colunelos, assentes por sua vez, em largas bases manuelinas, modificadas na Grande Vacância de 1720-1741.
Uma das mais originais abóbadas construídas em Portugal cobre as três naves desta igreja-salão. Mandou-a edificar o bispo D. Diogo Ortiz de Vilhegas que foi do Conselho do Rei, ficando terminada em 1513. Oferece uma impositiva imagem de gigantescas cordas que se atam num vigoroso nó central, alusão fácil à epopeia dos descobrimentos que então se vivia. É a Abóbada dos nós. A abóbada que suporta o coro alto deve-se sem dúvida ao arrojo de João de Castilho, grande mestre dos Jerónimos.
O retábulo da capela-mor, joanino, é preciosíssima obra do arquitecto de Lisboa, Santos Pacheco, sendo do séc. XVIII também os altares colaterais que receberam excelente imaginária atribuída à oficina de Claude Laprade A Sacristia, de D. Jorge de Ataíde, é um verdadeiro núcleo museológico com o seu revestimento azulejar e a pintura do tecto.
Na fachada exterior, as duas torres lembram o românico original, mas apenas a torre da direita vem do tempo Dionísio da fundação, o séc. XIII. A outra foi levantada do chão no séc. XVII. Havia sido derrubada em 1635 por um fortíssimo temporal que fez arrastar com ela a fachada manuelina, de uma grande beleza, como escreveu o cronista da cidade, Botelho Pereira, em 1630. Depois disso o arquitecto salamantino João Moreno levantou com sobriedade a presente fachada que sugere retábulo maneirista de três balcões sobrepostos, em cujos nichos laterais se resguardam os quatro evangelistas, S. Marcos, S: Lucas, S. João e S. Mateus, deixando ao centro a Senhora da Assunção e S. Teotónio

sábado, 6 de junho de 2009

Apontamento sobre o Gafanhão e a areia – 4

E então surgiu o inevitável: uma noite de vendaval cobriu de areia as culturas, erguendo dunas sobre as sementes enterradas.
Foi preciso recomeçar pacientemente. Foi necessário enterrar moliço muito ao largo, tentando prender com húmus a areia movediça que o vento espalhava ao acaso.
E o Gafanhão assim fez. Foi tratando com adubo hectares de solo, para colher apenas nas poucas leiras que lhe rodeavam a casa.
Tudo isto, porém, ia levando anos sobre anos, em que a areia e o vento pareciam apostados em destruir caprichosamente o trabalho do homem. Não fora o Gafanhão quem é, teimoso e paciente como herói lendário e teria desistido de domar aquela terra maldita que a si própria se cobria, arrasando numa hora muitos meses de esforço inaudito.
Uma outra geração sucedeu, porém, à primeira e a luta continuou. Multiplicaram-se os braços, salpicou-se de casas todo o areal da beira-ria e os avós ensinavam aos netos, dobrados todos sobre as enxadas, que era preciso lutar e vencer, sob pena de morrer pela fome.
Depois da invasão das culturas pela avalanche das dunas, nunca os mais novos viam que os velhos chorassem, de braços cruzados, rogando pragas ao destino. Viam sim, crescer na água o número de barcos e na terra o de enxadas que recomeçavam pela centésima vez o trabalho inútil de uma sementeira que não chegava a dar fruto.
Teimava a areia em bailar, cobrindo cinicamente de grãos estéreis o chão estrumado com algas. E o Gafanhão teimava em vencê-la, enterrando-lhe mais e mais lavouros de moliço que ia buscar à água dia e noite.
Ao despontar de uma terceira geração, dispunha já o deserto de pouca areia branca para semear sobre o terreno escurecido que o gafanhão adubava teimosamente. Nas encostas das dunas interiores, mais selvagens, começava o pinheiral a segurar com raízame o terreno esfarelado. E à beira da água, na areia escura, o húmus e as raízes dos feijoeiros fixavam o perfil de um solo que principiava a render-se.
(Continua).

Texto retirado do Arquivo do Distrito de Aveiro – Volume IX de 1943, de Joaquim Matias.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Grupo Folclórico de Gumirães

No próximo sábado, 6 de Junho, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré desloca-se à cidade de Viseu, a convite do Grupo Folclórico de Gumirães.
Irá participar na 5ª Festa de Folclore de Gumirães juntamente com o Grupo de Danças e Cantares S. João da Ribeira, de Rio Maior e o Rancho Folclórico de Oliveira de Santa Maria, de Vila Nova de Famalicão, isto além do Grupo anfitrião.
O programa é o seguinte:
16:30 horas - Chegada à cidade de Viseu,
17:00 horas - Visita organizada,
18:45 horas - Chegada ao RI 14,
19:00 horas - Jantar convívio,
20:00 horas - Trajar,
20:30 horas - Saída para Gumirães,
21:00 horas - Início do desfile,
21:15 horas - Início do Festival.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A história do Grupo Etnográfico (parte IV)

Surge então a proposta de se contactar alguém da Federação do Folclore Português. O nome do saudoso José Maria Marques, na altura vice-presidente da Federação, foi indicado por seu irmão, Severim Marques.
Lá se dirigiu a Mourisca do Vouga, onde residia, uma comitiva da Gafanha da Nazaré, constituída por Alfredo Ferreira da Silva, Carlos Alberto Ferreira, Acácio Nunes e Manuel Fernando da Rocha Martins.
No primeiro contacto, pouco ou nada se adiantou. José Maria Marques apenas se limitou a uma conversa de circunstância, onde abordou a importância da cultura popular, fazendo logo aí a apologia do rigor histórico como fundamental a qualquer trabalho deste género. Numa segunda visita, leu-nos um trabalho que havia escrito sobre o folclore e etnografia da Gafanha da Nazaré, com a indicação de danças e cantares, trajes e outras tradições. Cedeu então esses apontamentos que alguém guardou. Nunca mais foram vistos.
No entanto, verificámos que nem tudo corresponderia à verdade histórica da nossa terra, pelo que se optou, e bem, por avançar para pesquisas no terreno, paulatinas mas firmes e apoiadas na autenticidade e testemunho dos gafanhões mais idosos.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Apontamento sobre o Gafanhão e a areia – 3

Então passou o Gafanhão a dividir o seu tempo entre a enxada e o ancinho do moliço, descendo à água, de manhã, para desengaçar algas e cavando a areia de tarde, para enterrá-las. Plantou mais couves e semeou mais feijões, iludindo hora a hora, a sua fome, com a perspectiva do dilúvio de fartura que havia de ter um dia.
Efectivamente, pensava ele, era infinitamente grande aquele areal que tinha em frente. E no dia em que o chão tivesse enegrecido, à força de moliço e lama, seria possível ter-se ali uma fortuna em terra onde colher novidade.
Sonhando este grande sonho. Tendo aninhada em si a ambição de vir a ter fartura e aquecido pela confiança segura no êxito, o homem teimava em cavar e plantar sempre, indo à Ria e revolvendo a areia, labutando apesar da fome, semeando pela décima vez onde nove, havia falhado uma cultura, sem desalento nem cansaço.
Quando a brancura do solo tinha ligeiramente escurecido, à força de adubo, as primeiras folhas da novidade manchavam de verde o chão, em volta da casa do homem, que sorria, triunfante, limpando o suor às costas negras da mão calejada.
E então veio de alguma parte outro homem, que se aliou ao primeiro. E chegou mais outro ao depois e um quarto, um quinto e uma família, e mais outras.
Ergueram-se mais casas ao longo dos braços da Ria, uma aqui, outra ali. Mais enxadas começaram a remover a areia e mais ancinhos de dentes bastos a arranhar o lodo do fundo do canal, arrancando moliço.
O Gafanhão organizava-se em exército indomável na luta contra a praga da areia. Teimoso por índole, jogou a cartada final: fixou-se. Casou e teve filhos. Construiu mais casas, mandou fazer mais enxadas de pá muito larga, muniu-se de ancinhos em maior quantidade e construiu moliceiros para a faina da Ria.
Eram então mais os braços. Homens e mulheres, filhos, genros e noras, tinham todos que amassar em suor a teimosa areia que se negava a produzir. E, enquanto uns labutavam em terra, cavando e semeando, outros queimavam ao sol iodado, sobre a água, os dorsos mal cobertos, dobrados sobre os cabos longos de pesados ancinhos a arrastar na lama.
Em volta da casa, ia o chão enegrecendo e já o cobria a verdura das folhas da novidade. Mas havia que alargar para dentro as culturas, que enegrecer mais areia, que fertilizar maior superfície de deserto.

(Continua).
Texto retirado do Arquivo do Distrito de Aveiro – Volume IX de 1943, de Joaquim Matias.

domingo, 31 de maio de 2009

Dia Nacional do Folclore Português

Realizou-se hoje, em Espinho, o Dia Nacional do Folclore Português, com a presença de largas dezenas de grupos folclóricos e etnográficos do nosso país. O Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré marcou presença, apesar de ontem termos estado em Viana do Castelo e termos chegado a casa por volta das 2 e 30 da madrugada. Debaixo de um sol abrasador, desfilámos por algumas ruas da cidade em direcção à Câmara Municipal de Espinho, onde decorreram as cerimónias.
Foram homenageadas algumas personalidades, entre as quais o Presidente da Federação do Folclore Português, tendo recebido uma Cruz de Malta em filigrana. Uma peça belíssima como podeis comprovar pela foto acima.
Do leque de personalidades presentes constava, além do já citado Presidente da Federação de Folclore, Lillo Alessandro, presidente da União Internacional das Federações dos Grupos de Folclore, José Mota, presidente da Câmara Municipaçal de Espinho, Filipe Neto Brandão, governador Civil de Aveiro e José António Ribeiro, Ministro da Cultura.
O Grupo Etnográfico recebeu também diplomas e medalhas para os seus elementos, como prova de apreço e gratidão pelo trabalho desenvolvido em prol da cultura popular.

Actuação em Perre

Realizou-se ontem, em Perre, Viana do Castelo, mais um Festival de Folclore com a participação do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré.
Antes do Festival participámos numa Eucaristia comemorativa dos XXIV anos do grupo anfitrião e fomos encarregados de cantar o cântico do "Pai Nosso". Foi uma celebração muito bonita e repleta de significado para todos.
A nossa actuação correu muito bem e mais uma vez dignificámos a nossa terra e o nosso folclore.
Tivemos oportunidade de encontrar gente amiga, gente sã e muito trabalhadora. Todo o seu trabalho e dedicação tomaram forma numa das mais bonitas sedes de grupo que alguma vez vimos. Deu-nos incentivo para também trabalharmos no sentido de podermos ter o nosso espaço próprio, onde possamos receber condignamente quem nos visita e podermos, igualmente, ter um museu para guardar e mostar todo o fruto de 25 anos de recolhas e pesquisas.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Óscar Mundial de Folclore entregue a José Maria Marques

O título póstumo, o aguedense José Maria Marques vai receber a mais alta distinção do folclore a nível mundial, o Óscar Mundial de Folclore.
Nos próximos dias 30 e 31 irá realizar-se, em Espinho, um dos mais importantes eventos do mundo do folclore: a entrega do Óscar Mundial de Folclore, sendo que este ano a União Internacional de Federações de Grupos de Folclore atribuiu à Federação de Folclore Português a organização da cerimónia.
Irão ser distinguidas dez personalidades do Mundo que tenham efectuado trabalho meritório na defesa dos nossos antepassados e na divulgação da riqueza etnográfica no mundo. Portugal terá este ano duas personalidades condecoradas: o actual presidente da Federação de Folclore Português, Fernando Ferreira, e o aguedense José Maria Marques (a título póstumo), ex-presidente da Federação de Folclore Português e do Grupo Folclórico da Região do Vouga e, simultaneamente, do Museu Etnográfico da Região do Vouga.
“É, para todos nós, Grupo Folclórico da Região do Vouga, e pensamos que para todo o concelho, motivo de orgulho, a atribuição do Óscar Mundial a José Maria Marques. É sinónimo de que, passados 12 anos do falecimento de José Maria Marques, ainda hoje o seu trabalho é reconhecido, não só no nosso país, mas também além fronteiras”, referem os responsáveis actuais do grupo.
Homem sensibilizado e conhecedor da riqueza etnográfica, dedicou parte da sua vida à pesquisa, recolha, estudo e reconstituição de tudo quanto, de uma forma directa ou indirecta, esteve ligada ao povo de antanho. Ele próprio proferiu tantas vezes nos seus discursos uma das suas frases mais emblemáticas, que traduz verdadeiramente a forma de pensar e de estar na defesa dos nossos valores culturais – “É necessário que a cultura ocupe no nosso país o lugar a que tem direito; é indispensável que possa ser tomada como pedra básica para a construção do nosso futuro; é chegada a altura de podermos dizer aos descrentes letrados que o analfabetismo dos nossos antepassados, a não merecer a nossa melhor atenção, é a Universidade a que eles, infelizmente, não tiveram acesso”.

In Diario de Aveiro de 27/05/2009

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Dia Nacional do Folclore Português


A cidade de Espinho vai acolher o Folclore Português no dia 31 de Maio e o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré vai marcar presença.A festa trará à cidade os homens, mulheres, rapazes e raparigas dos Grupos de Folclore associados da Federação do Folclore Português, que irão animar as ruas da cidade cantando e dançando para gáudio dos amantes das Tradições Portuguesas.

Portugal inteiro vai estar em Espinho.
Será ocasião de atribuir reconhecimento a diversas personalidades que muito contribuiram para a afirmação do Folclore Português.Estarão presentes dezenas de personalidades de vários países do mundo e também alguns dos nossos governantes que poderão apreciar a grandiosidade do movimento folclórico. Poderemos dizer-lhes o que nos vai na alma e exigir mais respeito e apoio para a causa da Cultura Tradicional Portuguesa.

O programa será o seguinte:
10:00 às 11:00 - Recepção aos Grupos.
12:00 às 13:30 - Almoço
14:00 - Animação de rua pelos Grupos presentes, de vários locais da cidade até à Câmara Municipal de Espinho.
14:30 - Homenagem a distintos folcloristas.
15:00 - Início da Sessão Solene comemorativa com intervenção das entidades presentes.
16:00 - Entrega de diplomas e/ou medalhas.
17:00 - Encerramento.

Vai ser um dia de confraternização e partilha de experiências de gente que, desinteressadamente, luta dia a dia para salvaguardar o Património Imaterial do Povo Português.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Apontamento sobre o Gafanhão e a areia - 2

Era um lençol desolador de areia branca, de dúzias de quilómetros quadrados, que os braços da laguna debruavam a norte, a leste e a ponte, isolando do contacto da vida a solidão árida do deserto.
Lá dentro, longe das vistas, bailavam as dunas, ao capricho dos ventos, a dança infindável da mobilidade selvagem dos elementos em liberdade.
Brisas do mar e brisas de terra, ventos duráveis do norte em dias de estabilidade barométrica e rajadas violentas de sudoeste a redemoinharem no céu enfarruscado de noites tempestuosas, eram quem governava o perfil das areias movediças cavadas em sulcos e erguidas em dunas de ladeiras socalcadas a miudinho.
Era assim a Gafanha do tempo dos nossos bisavôs. Deserto enorme de areia solta, a bailar ao capricho dos ventos, o “cancan” selvagem de uma liberdade sem limites.
Um dia, não muito longe ainda, um homem atravessou a fita isoladora da Ria e pôs pé na areia indomável. Não sabe a gente se o arrastava a coragem do aventureiro, se o desespero do foragido. De qualquer modo, ele fez no areal a sua cabana, à beira da água e principiou a luta de gigantes do Gafanhão contra a areia.
Em volta da sua casota, para bastar-se, semeou feijão e plantou couves. Levara consigo uma enxada e com ela principiou a luta.
A areia movediça porém, é praga da natureza, que nunca, deu couves nem pão. Escorrega debaixo das bordas das enxadas e não deixa esburacar-se, para se fazerem plantações.
Nos interstícios dos grãos poeirentos da areia, não encontravam alimento as raízes das couves, que morriam de inanição. Era um solo maldito que zombava do esforço do homem, queimando a novidade à falta de alimento.
Mas o Gafanhão não desanimou.
Dentro da água da Ria, longas hastes estendidas no sentido da corrente, vivia, presa ao lodo do fundo e alagada na salinidade, toda uma flora magnífica, rica de fosfatos, a que não custava deitar a mão.
O homem desceu à água, arrancou o moliço, enterrou-o na areia, com a sua enxada e plantou as couves de novo, em torno da cabana que construíra.
Ainda desta vez não logrou triunfar, porque o moliço foi um avo infinitesimal de produtividade que a esterilidade da areia engoliu num instante. Mas estava visto como era possível arrancar pão ao solo.

(Continua).

Texto retirado do Arquivo do Distrito de Aveiro - Volume IX de 1943, de Joaquim Matias.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

A história do Grupo Etnográfico (parte III)

Num desses ensaios, que decorriam pela noite dentro, ficámos encarregados de levar de carro o tio Retinto a sua casa. Acompanhou-nos o Acácio Nunes. Reparámos então que ele transpirava por todos os poros, tal foi o esforço por ele despendido a cantar e a dançar.
- Será que este esforço e o suor não lhe vão fazer mal? - perguntámos.
- Não pense nisso! - respondeu prontamente. E acrescentou:
- Quando chegar a casa, com um bagaço, fico pronto para outro ensaio.
Aprendidas as danças e cantares, passou-se aos ensaios, mais a rigor. Agora com a ajuda dos músicos, cujos nomes ainda é possível recordar, com ressalva para qualquer lapso, que será corrigido num futuro escrito, até porque este não passa de um subsídio para a história do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré.
Pela nossa memória e por aquilo que indagámos, foram eles o José Maria Serafim Lourenço, o Carlos Alberto Ferreira, o David Soares, o Manuel Alegria e o Albino Ribau.Como cantadores, registámos os nomes do tio Retinto e da Odete Rola, os que mostraram na festa da Catequese como se cantava antigamente nas Gafanhas.
Depois da apresentação das duas danças e cantares na festa de encerramento do ano catequético, com os trajes mais ou menos a rigor e segundo indicação dos mesmos "mestres", a ideia de continuar não mais parou. O bichinho já estava no corpo de muitos. As pesquisas e os registos não mais deixaram os entusiastas que logo a seguir estiveram na base desta instituição que tornou a Gafanha da Nazaré mais presente um pouco por todo o País e noutras paragens do mundo.
A convite dos responsáveis da Catequese, o autor destas linhas participou em alguns encontros para falar dos antepassados da Gafanha, dos seus usos e costumes, das suas tradições e da sua génese. Indicou pistas de actuação, de procura do genuíno folclore e falou da importância de se não brincar com a Etnografia, enaltecendo a necessidade de se apresentar em público somente o que oferecesse garantias de autêntico.

domingo, 24 de maio de 2009

Grupo de Danças e Cantares de Perre

No próximo sábado, o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré desloca-se ao distrito de Viana do Castelo, mais concretamente à freguesia de Perre para participar VI Festival Judite Cardoso, integrado no XXIV Aniversário do Grupo de Danças e Cantares de Perre.
Participam, além do Grupo Etnográfico e do grupo anfitrião, a Escola de Folclore do Grupo de Danças e Cantares de Perre, o Rancho Folclórico de Varziela e a Escola de Folclore de Santa Marta de Portuzelo.
Do programa consta
17:00 horas - Recepção aos Grupos Folclóricos.
18:30 horas - Eucaristia animada pelos Grupos Folclóricos.
20:30 horas - Jantar convívio.
21:45 horas - Pequeno desfile.
22:00 horas - VI Festival Judite Cardoso.

sábado, 23 de maio de 2009

Apontamento sobre o Gafanhão e a areia -1

Durante as próximas semanas irei transcrever, com a regularidade que me for possível, alguns textos escritos por alguns estudiosos da nossa região. Espero que contribuam, para quem não os conhece, para o conhecimento da cultura e das tradições da nossa região. Os que já os conhecem com certeza que será bom reler.
Espero que gostem.
Rubem da Rocha

Mísera consolação é, em boa verdade, para quem falha, considerar em sua consciência o exemplo de outros vencidos em combate da vida. Mas seguramente só verdadeiramente se falha, quando nos consideramos vencidos.
Os grandes triunfos, constrói-os o trabalho persistente, com grandes pedras de sonho movidas pela omnipotência da fé. Quando se apaga a fé, então sim, verdadeiramente falhámos, e ficar-nos-ão na alma, como entulho, as carradas de sonhos com que poderíamos erguer o castelo do triunfo.
Vem na Bíblia que ultrapassará os Reis quem for, em seu trabalho, persistente. E à frase de Cristo “a fé remove montanhas”, não é necessário invocar em favor dela a possibilidade do milagre, porque humanamente a vemos significar uma verdade de todos os dias.
O Gafanhão é isto mesmo: um homem persistente em seu querer, teimoso no trabalho, inquebrantável na fé de vencer. E há-de haver um dia, por justiça imanente da vida cinzel ou caneta de homem de génio que materializa em forma artística, a epopeia sublime desse camponês que ninguém conhece, quando ele é maior ainda do que o guerreiro da reconquista e o marinheiro das descobertas.
A Gafanha é hoje uma grande arca nacional de pão. E nunca demais enalteceremos o labrego rude que lhe despejou a areia e a encheu de feijão e milho.
Fica situada entre os dois braços da Ria de Aveiro que da Barra se dirigem para o sul, grosseiramente paralelos, um até ao cais do Porto da Cruz, para os lados de Mira, outro por Ílhavo e Vagos, até à Ribeira do Boco.
Considerando o nome Gafanha, é-se tentado a supor que ali fosse em remotas eras a gafaria, para onde se enxotassem os leprosos do reino. E mais esta suposição nos tenta, se repararmos que tudo aquilo era um deserto imenso, sem água nem folha verde. Esta hipótese, no entanto, nem a história a confirma nem a aceita a filologia. Apenas hoje se antolha a leigos e não tem outro valor que não seja o de imagem de recurso para retratar-se a aridez do sítio. (Continua).
Texto retirado do Arquivo do Distrito de Aveiro - Volume IX de 1943.

terça-feira, 19 de maio de 2009

A história do Grupo Etnográfico (parte II)

Porque um projecto destes não pode apoiar-se no improviso, quantas vezes deturpador da realidade, alguém propôs que se contactassem pessoas mais velhas, sempre fundamentais a qualquer trabalho do género. Manuel Retinto Ribau (o tio Retinto), Maria do Carmo Ferreira (tia Maria Ruça) e Maria dos Anjos Sarabando (a tia Sarabanda), entre outros, que antes haviam participado num rancho sem grandes preocupações de rigor histórico, foram os primeiros a ensinar o que se cantava e dançava no seu tempo de jovens.
No salão paroquial, os encarregados de pôr de pé e no palco as danças dos nossos avós, aqueles convidados foram ouvidos, tendo mesmo exemplificado como se cantava e dançava a "Farrapeira". Depois avançaram com o "Vira de quatro" e foram essas duas as primeiras peças que hoje, e desde então, começaram a fazer parte do repertório do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, como ex-libris da nossa terra, sobretudo a primeira.
Apesar da idade já avançada daqueles avós do Grupo, que nos ensaios não se cansavam de repetir as referidas danças, eles foram, sem dúvida, o primeiro livro aberto e vivo por onde se começou a aprender o folclore na nossa terra. Incansáveis, lá foram dizendo e cantando, com as suas vozes já gastas pela vida, mas ainda bem timbradas, as letras e cantares dos nossos antepassados, numa demonstração clara de que a cultura popular regista conhecimentos que todos temos a obrigação de aprender para passar aos vindouros.

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