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quarta-feira, 15 de junho de 2011

A Joana Maluca 2

(Continuação)


Esta informação, conjugada com os conhecimentos fornecidos por uma carta da dita emancipação, ainda existente numa casa particular, dão nos a certeza de que o José Domingues da Graça era oriundo de Calvão e de que nos seus passeios pastoris, começou de requestar a neta do Gramata, que, embora residente em Ílhavo, pelo nome parece ter sido da Gafanha. Nada mais natural. A moçoila que nasceu em Ílhavo, quer tivesse passado ali toda a sua ridente juventude, quer se tivesse passado só ou na companhia de seus pais para o convívio de seus avós paternos e talvez avô materno, residentes na Gafanha, e, ferida no coração, não pode resistir, antes aceitou amorosamente os gentis galanteios do enamorado pastorinho de Calvão.


Ignoramos a data em que junto ao altar se ligaram pelos sagrados do matrimónio, e supomos que, após ele, vieram definitivamente para a Gafanha, onde ela até à morte foi muito considerada, não só pelos naturais, mas também por pessoas categorizadas, especialmente de Aveiro, como José Estêvão, Capitão Mesquita, João Carlos, José e João Roque, João Alma Santa e outros que vinham dali ou da Costa Nova, em tardes amenas, cavaquear e fazer sala, à sombra acolhedora de uma parreira que bracejava sobre o recinto da sua morada ou pátio os seus ramos de uvas refrigerantes. Era ali, na sua casa, de pouca altura, mas de construção sólida (ainda se guarda carinhosamente uma fracção da parede de um dos compartimentos) que a sua voz pronunciadamente varonil era escutada com interesse pelos fidalgos, que respeitosamente procuravam convivência e conversação.


E a Joana Gramata, mulher do povo, robusta, bastante barbada, ingénua e boa, tinha o feliz condão de atrair respeitos e considerações de homens ilustres, não se furtando ao seu convívio o próprio Tribuno português. E atrás da simpatia pessoal corriam valiosos presentes de louças e outros objectos, que eram garantia segura de quanto era estimada. Ainda hoje existem na igreja paroquial as imagens do Sagrado Coração de Maria e de S. Tomé, que Pedro António Marques, por alcunha o Pedro Serrano, proprietário de uma fábrica de louça de Aveiro, lhe ofereceu e que ela expôs ao culto na sua capela particular.


Fumista emérita, com o hábito acentuadamente inveterado do tabaco, nunca em casa lhe faltava também as ofertas de charutos que ela desvanecidamente saboreava de olhos arregalados, através das espirais do fumo, que em rolos se evolavam, como anjos alados que a houvessem abandonado num supremo êxtase de delicioso gozar. Vivia feliz esta mulher, acarinhada de seu amrido e filhos que se enlevavam na contemplação de tão boa esposa e carinhosa mãe, que eles viam estimada dos vizinhos e considerada por gente fina.


(Continua)


In "Monografia da Gafanha" do Padre João Vieira Rezende.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Joana Maluca 1

(Continuação)

Foram padrinhos Manuel, solteiro, filho de António Francisco da Gafanha, e Joanna Rosa Mulher de Ant´nio Gafanha, tãobem da Gafanha, e testemunhas, o Reverendo Gabriel Pereira, e Domingos Martins, de que mandei faser este assento que assignei: era ut supra. O Coadjutor Domingos Pacheco Soares. O Padre Gabriel Pereira. - Domingos Martins. - Nada mais era tido em dito assento a que me refiro; eu Cartorario dos livros findos neste Bispado. Aveiro, vinte e seis de Maio de mil oito centos trinta e oito. - O Padre Manuel Affonso Limes (ou Cimes?).

- Nada mais se continha no dito documento do que dito fica, que eu bem fielmente copiei do proprio que entreguei ao apresentante e elle nas suas mãos me reporto. Dada e passada nesta Villa de Ilhavo em vinte dois de Fevereiro de mil oito centos setenta e oito. Eu Manuel Antonio Ramos de Loureiro, Tabalião o escrevi e assigno em publico e raso de que uso. Em test.º Man. Lou.º de verd. Manuel Antonio Ramos de Loureiro. Desta 150 R. cento e cinquenta reis. Loureiro. -

Joana Rosa de Jesus, por alcunha Joana Gramata ou Joana Maluca, foi, pois, nascida e baptizada em Ílhavo, em 1788, onde viviam seus pais, por sua mãe ser dali natural. Como se explica a sua saída de Ílhavo e a seguir o seu aparecimento na Gafanha, onde exerceu um papel tão preponderante não só como povoadora, mas como chefe e rainha daqueles povos?(1)

Vejamos: Em 18 de Maio de 1838 reuniu em Vagos o conselho de família para a emancipação de sua filha Ana, e faziam parte desse conselho Manuel António da Garça, de São Romão (Vagos) e António Domingues da Graça, de Calvão (Vagos). Também pessoas antigas e fidedignas nos informam que José Domingues da Graça, futuro consorte da Gramata, deambulava através das crastas (2) e das dunas, que se estendiam de Calvão pelos prados da Gafanha, a apascentar os seus gados. juntamente com outros companheiros, pastores de touros. Ainda não passaram muitos lustros em que a Gafanha era o tradicional pastigo daqueles cornígeros.


(1) - .... teve 9 filhos e conheceu 66 netos.

(2) - Os terrenos agora agricultados e outrora maninhos, eriçados de felga, ervas, feno, cordeirinhos junco, etc., e que ladeavam do norte ao sul as dunas alterosas, eram denominados Crastas....

(Continua)

In "Monografia da Gafanha", do padre João Vieira Rezende.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

XVI Exposição Nacional de Trajo ao Vivo

No passado dia 14 de Maio decorreu em Porto de Mós a XVI Exposição Nacional de Trajo ao Vivo, organizada pela Federação de Folclore Português, com patrocionio da Câmara Municipal de Porto de Mós e a colaboração dos grupos de folclore das Pedreiras, Luz dos Candeeiros, Cabeça Veada e Mira de Aire.Porto de Mós foi o palco desta grande mostra do Património Cultural e Etnográfico de Portugal.

A música, a festa e os trajos envergados com orgulho por 600 figurantes de todo o País foram o mote para a numerosa assistência que se encontrava no novíssimo Parque Verde, vivenciem o trajo nas suas diversas funções e variantes das diversas regiões do País.Utilizando a moderna passerelle os trajos desfilaram nos corpos de homens e mulheres representando o trabalho na montanha, no campo, no rio ou no mar, passando por momentos tão importantes como o domingo, o casamento, a feira ou a romaria.
O acompanhamento musical foi maravilhosamente suportado pelas tocatas dos ranchos do concelho de Porto de Mós, constituindo uma orquestra de instrumentos tradicionais poucas vezes vista ou ouvida, quer pelo número de participantes, quer pela qualidade musical, constituindo em si próprio um factor de grande interesse e beleza.
O desfile terminou em festa, com o convívio entre os diversos grupos participantes, numa dança comum, recordando que apesar das diferenças entre regiões o povo português é único e possui uma riqueza etnográfica que não se pode perder.

Toda a Noticia incluindo fotos retirada do sitio trajesdeportugal.blogspot.com




quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Joana Maluca

Grupo Etnografico da Gafanha da nazaré, numa Desmantadela.


Hoje iremos transcrever o que o Padre João Vieira Rezense nos diz sobre a Joana Maluca, na Monografia da Gafanha. Joana Maluca uma figura ímpar na colonização dos areais das Gafanhas.


Chegou finalmente a ocasião de falarmos sobre a Joana Maluca, também conhecida por Joana Gramata, que se diz ser a progenitora destes povos, e que eu disse ser essa opinião um erro tradicional. Esta afirmativa baseio-a em que tendo ela nascido em 1788, é muito provável que realizasse o seu casamento cerca de 1808 e que, portanto, quando ela estava habilitada a ser a progenitora da sua alias numerosa prole já a Gafanha estava bem representada na sua população.

Não contestamos de forma alguma o enorme contingente com que ela contribuiu para o povoamento da Gafanha, mas não se lhe pode atribuir o papel de progenitora e fundadora daquele povo. De resto, ela criou nome, era muito considerada por pessoas categorizadas, como foi José Estêvão Coelho de Magalhães e outros. Fizeram-lhe elogiosas e justas referências que merecidamente a tornaram celebre e falada. Por isso bosquejemos aqui alguns traços da sua vida.

- Certidão de Idade - Publica Forma - "Dis Joanna Rosa de Jesus, filha de António Fernandes Cardoso e de Luiza Gramata da freguesia de Ílhavo, que para requerimentos que tem a fazer precisa que o Reverendo Cartorário dos livros findos lhe passe por certidão o theor do assento do seu baptismo, por isso - Pede a Vossa Senhoria o Senhor Doutor Provisor se digne assim o mandar, e receberá mercê. - Passe - Tavares."

- Certifico que em um livro dos baptisados da freguezia d'Ílhavo, Bispado d'Aveiro a folhas quinhentas sessenta e uma verso se acha o assento seguinte:

"Em sette de Setembro de mil sette centos oitenta e oito, baptisei a Joanna filha de António Fernandes Cardoso e de Luísa Francisca do primeiro matrimonio, neta paterna de Manuel Fernandes Cardoso e de Thomasia Francisca de Gafanha, freguezia de vagos, e materna de Thomé Francisco Gramata e de Luisa Rodrigues de Espinheiro, nasceo aos vinte e oito do mês de Novembro do dito anno(1).

(1) - É a transcrição fiel da pública forma, mas deve ter havido erro de redacção. Nascida em Novembro e baptizada em Setembro do mesmo ano!...

(Continua)

sábado, 7 de maio de 2011

Ciclo do Milho




É já amanha na freguesia do Bunheiro, no Município da Murtosa, que se vai realizar a recriação da 1ª etapa do Ciclo do Milho como nos anos 50. O lavrar, o gradar e semear, tudo com força de braços e animais, com cantares ao desafio e danças tradicionais. Uma oportunidade de também nós, gentes aqui das Gafanhas relembrarmos como se trabalhava aqui na nossa terra. Um evento a não perder.

Para mais informações aqui.

sábado, 30 de abril de 2011

Fortificações da Barra de Aveiro 5






3 – Forte Velho da Barra
Existe uma pequena edificação, situada a meia distancia do Forte da Barra e do novo Porto Industrial (Sacor) de Aveiro, junto à estrada que liga estes dois locais, constituída por uma pequena casa e, no centro eleva-se uma torre cilíndrica com varanda no cimo.
Poucas ou nenhumas são as informações biblio documentais existentes e disponíveis sobre este “Forte Velho” ou “Guarita”, como vulgarmente é designado pela população das Gafanhas.
Na folha nº 184 da carta topográfica do exército, de 1975, vem assinalada esta construção com a legenda de “Forte Velho”.
Esta fortificação poderia ser, em nosso entender, uma construção e adaptação do que restava da antiga torre de vigia da barra, construída no reinado de D. Afonso III. E isto porque essa torre se localizava a meia légua da barra que, na época, se encontrava onde está a Costa Nova (dado muito vago, já que a Costa Nova tem uma extensão relativamente grande) e a légua e meia de Aveiro. Alguns historiadores aveirenses, como vimos mais acima, fazem coincidir esse local com aquele onde se encontra localizado o actual Forte das Barra.
A distância que separa os locais onde se localizam o Forte da Barra e este Forte Velho é, somente, de algumas centenas de metros, e ambos estão praticamente à mesma distância de Aveiro.
Esta nossa opinião resulta também da análise geográfica da laguna, tendo em conta que desde a entrada da barra, quem entrasse a norte da Nossa senhora das areias e navegando para o porto de Esgueira, poderia ser facilmente detectado, na vastidão das águas, do alto desta torre, pois ela se situa numa zona central de navegação da ria.

Trabalho elaborado pelo Sr. Cardoso Ferreira, sobre as Fortificações da Barra de Aveiro, e que foi publicado no boletim nº 17 de Agosto de 1989, da ADERAV – Associação de Defesa e Estudo do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro.

1ª Foto do meu arquivo.

2ª Foto em www.prof2000.pt.


domingo, 17 de abril de 2011

Fortificações da Barra de Aveiro 4

Forte da Barra (Continuação)

O Forte da Barra possuía, em 1822, unicamente um terrapleno no baluarte sul, onde estavam montadas três peças, os parapeitos eram à barla, havendo duas canhoeiras na face voltada para o mar. Agora, sim, em ponto dominante da barra que fora reaberta em 1808, ela fazia o total controlo das entradas e saídas, retomando o papel para que fora projectado. Os alojamentos eram constituídos por cinco casas de madeira. O muro dos baluartes tinha 4 palmos de espessura e a bateria estava situada sobre três casas que eram abobadadas mas não à prova de bala. À esquerda do forte estava em construção uma bateria com parapeitos à barla, de três palmos de alto, com plataforma lajeada, ainda por fazer, a qual teria 56 palmos de comprimento e 20 de largura (24). A construção de uma bateria a meio do paredão foi iniciada na década de 1830. Gradualmente, foi preciso ir melhorando os meios desta fortaleza, por isso, o engenheiro Oliveira Nunes (25) projectou a torre que a 21 de Maio de 1841 ficou concluída, no cimo do forte. Esta torre tem uma altura de 90 palmos e meio, com um diâmetro cilíndrico de 22 palmos na base e 15,5 palmos no cimo, em anéis que lhe conferem gracioso aspecto exterior (26). Carlos Pereira Callixto visitou o Forte da Barra em 1940, tendo feito a seguinte descrição do edifício que então encontrou: ”A fortificação compõe-se de dois baluartes, o do norte e o do sul e de uma cortina a ligá-los, no baluarte sul, o único que tem terrapleno em lugar de lajeado como de costume, encontra-se a torre de sinais com uns dez metros de altura. Na face, possui um parapeito onde estão abertas três canhoeiras e no flanco esquerdo um parapeito à barla. O outro flanco que dava para a cortina era também à barla, mas encontra-se encostado à “Casa dos Pilotos” que se edificou entre os dois baluartes. Para o lado de terra é limitado por um parapeito, tendo o lado esquerdo uma pequena escada de pedra que dá acesso à bateria. Sob esta, existem os alojamentos que são abobadados e têm a entrada para o pequeno pátio situado a uns dois ou três passos da parte que fica a meio da face voltada a terra. O pátio é aberto por cima e limitado por um muro de pouca espessura. No canto direito da bateria, do lado do mar, existe uma pequena guarita de forma muito tosca e de construção não muito antiga, certamente. O baluarte do norte está muito incompleto, notando-se somente o vértice que forma o canto entre a face e o flanco esquerdo. Onde existia o flanco direito encontra-se hoje uma casa. Do lado esquerdo do forte existem várias construções e mesmo junto à sua muralha está uma descida de pedra para o mar. Não tem lápide alguma ou qualquer indicação de data.” (27) Actualmente, este forte mantém quase a mesma aparência. Porém, o estado de abandono e degradação aumentaram, merecendo uma rápida restauração. Refira-se que o Forte da Barra é de propriedade do Estado e está inventariado em mapa de cadastro dos bens do seu domínio privado, elaborado em Março de 1941 pela Junta Autónoma da Ria e Barra de Aveiro. Segundo a Direcção Geral do Património do Estado, o Forte da Barra encontra-se averbado em nome da Junta Autónoma do Porto de Aveiro. Parece que a condição de “imóvel de interesse público” (28) embora devesse melhorar o estado de conservação, nada de bom lhe trouxe, o que não dignifica os organismos que têm este monumento à sua guarda, nem o património do Estado em geral. E é pena, pelo que esta construção representou na defesa da costa marítima e da Barra de Aveiro.

(Continua)

Trabalho elaborado pelo Sr. Cardoso Ferreira, sobre as Fortificações da Barra de Aveiro, e que foi publicado no boletim nº 17 de Agosto de 1989, da ADERAV – Associação de Defesa e Estudo do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro.


24 - Carlos Pereira Callixto, “Defesa Nacional”, revista nº 289/290, Junho de 1958, Pg.62. 25 - Raul Proença e outros, “Guia de Portugal – 1 Beira Litoral”, Pg. 527. 26 e 27 - Carlos Pereira Callixto, “Defesa Nacional”, revista nº 289/290, Junho de 1958, Pg.62. 28 - Decreto-lei nº 735/74, de 21 de Dezembro.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Fortificações da Barra de Aveiro 3


Planta do Forte da Barra



Forte da Barra (continuação).

Não podemos esquecer que foi sobretudo a partir de D. João III que se incentivou a fortificação e defesa do litoral português, sendo este rei o que mais profundamente levou a sério o problema da fortificação marítima. “Ordenou a construção de várias fortalezas para defenderem as povoações do litoral, muitas das quais se concluíram no reinado de seu neto D. Sebastião. Em 1560começaram as obras do Forte de S. João da Foz do Douro, em 1568 as do Castelo de Viana, em 1577 o forte da Nazaré, em 1580 as do castelo de Vila do Conde e possivelmente também nesse tempo se edificaram as fortalezas da foz do Mondego, Buarcos e Figueira da Foz. Não é assim de admitir que o rei ordenasse a construção de fortificações nas barras dos principais rios do norte de Portugal, no Lima, no Ave, no Douro e Mondego, onde existiam nesse tempo portos marítimos bastante florescentes e esquecesse o principal, aquele que ficava maravilhosamente resguardado das fúrias do mar, que possuía uma das terras mais populosas do pais e enviava à pesca do bacalhau maior número de embarcações” (21). Aceitamos, totalmente, este raciocínio, tendo em conta que a foz do Vouga, pela sua importância própria e pelo volume da população, (lembramos as vilas de Aveiro, Eixo, Esgueira e Ílhavo), levaria o rei a não deixar no esquecimento o porto de Aveiro. O Forte de Aveiro deve ter sido planeado e iniciada a sua construção no reinado de D. João III. Parece-nos que assim terá sido, para defendera entrada da barra, ao tempo localizada, conforme acima referimos, um pouco ao sul de S. Jacinto, e aumentar as condições de segurança das vilas ribeirinhas, na altura praticamente desprovidas de defesa, excepto Aveiro que ainda possuía muralhas do tempo de D. João I. Por motivos ainda não esclarecidos, mas que poderão ter a ver com as constantes mudanças da barra, e após a edificação das muralhas dos dois meios baluartes e a cortina de ligação, foi abandonada a construção do forte. A fortaleza provavelmente manteve esse aspecto até 1808, ano em que foi construído o terrapleno do baluarte sul, aquando da definitiva fixação da barra no actual canal artificial. Sendo assim, e como acabámos de ver, o Forte da Barra deve ter cerca de quatrocentos anos de existência, ainda que não totalmente acabado nem mantendo sempre a mesma fisionomia. Para João Vieira Resende, o forte foi edificada no século XVII (22), e o general João de Almeida escreveu: - “Este Forte teria sido construído durante a guerra da Restauração e reconstruído nos anos de 1801 e 1802, em obediência ao plano de defesa do reino, elaborado nos fins do século XVIII.” (23)

(Continua)



Trabalho elaborado pelo Sr. Cardoso Ferreira, sobre as Fortificações da Barra de Aveiro, e que foi publicado no boletim nº 17 de Agosto de 1989, da ADERAV – Associação de Defesa e Estudo do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro.

21-Carlos Pereira Callixto, “Defesa Nacional”, revista nº 285/286, Janeiro de 1958, Pg.228.

22-João Vieira Resende, “Monografia da Gafanha”, Pg.63.

23-João de Almeida, “Roteiro dos monumentos militares portugueses”, volume II, Pg.76.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Fortificações da barra de Aveiro 2

Forte da Barra em épocas distintas. Forte da Barra - Continuação.
De facto, o engenheiro Melo de Matos, estudioso do assunto, deixou sobre este forte afirmações e considerações de interesse. Diz ele que “Consultando a planta mais antiga da Barra de Aveiro e que foi levantada pelo tenente-coronel Elsden, vejo designado com nome de Forte Novo o local em que se acha o Castelo. Qual seria já a idade do tal forte novo, eis o que lhe não posso dizer, mas tendo a aludida planta a data de Novembro de 1778 e achando-se nessa época, há talvez um século, a barra ao sitio da Vagueira, é muito de presumir que o forte aludido fosse anterior ao desvio para sul, da Barra de Aveiro, o qual desvio parece que se principiou a dar-se pouco antes de 1656” (14). Comungamos, por inteiro, a opinião deste autor, sabendo que a barra de Aveiro continuou a avançar para sul, pelo século XVII. Assim, já em 1756 se encontrava perto de Mira, bem ao sul da Vagueira (15), abandonando gradualmente esta entrada após 1656. “Não é também possível que o incompleto forte de Aveiro tivesse sido começado a construir durante o período que vai de 1643 aos princípios do século XVIII, pois nessa época foi edificado o forte da Vagueira, junto à barra, nessa altura aí estacionada e, portanto não haveria necessidade de construir outra fortificação num ponto tão afastado da barra da ria (16)”. Sendo assim, é legitimo questionar o ano da construção do Forte numa época em que Aveiro e o seu porto, no mínimo, ainda desfrutassem de uma situação privilegiada e sua importância comercial, sobretudo pelo sal e pesca do bacalhau (17), justificassem em pleno a necessidade de construir uma fortificação de grandes dimensões como seria o Forte de Aveiro, se alguma vez tivesse sido concluído, para defender o comercio, estimular a pesca e, sobretudo garantir estabilidade e segurança aos habitantes das povoações. Bem pelo contrario, desde os tempos de D. Manuel I e de D. João III, Aveiro era muito importante, chegando a possuir, no século XVI, 150 barcos e a ser visitada anualmente por mais de 100 navios estrangeiros (18), e uma população aproximada de 13 000 habitantes no ano de 1572 (19). Deve ter sido pois, nos reinados destes Reis ou ainda no de D. Sebastião, devido à necessidade de se defender o litoral e o comércio dos povos de Aveiro, que se pensou em edificar um forte para impedir a entrada da Barra da ria, nesse tempo situada, segundo a “Geologia de Delgado e Chaffat” um pouco ao sul da Ermida de Nossa Senhora das Areias” (20).

14-Marques Gomes, "Subsídios para a história de Aveiro", Pg. 524.

15-Orlando de Oliveira, "Origens da Ria de Aveiro", Pg. 34.

16-Carlos Pereira Callixto, "Defesa Nacional", revista nº285/286, Janeiro de 1958. Pg. 227 e 228.

17 e 18-Diamantino Antunes do Amaral, "Coisas do passado de Aveiro", Pg. 37.

19-Gonçalves Gaspar, "Aveiro, notas históricas", Pg. 93

20-Carlos Pereira Callixto, "Defesa Nacional", revista nº285/286, Janeiro de 1958, Pg.228.

Trabalho elaborado pelo Srº Cardoso Ferreira sobre as Fortificações da Barra de Aveiro, e que foi publicado no boletim nº 17 de Agosto de 1989 da ADERAV - Associação de Defesa e Estudo do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro.

(Continua)

quinta-feira, 24 de março de 2011

Arte Xávega

Hoje através de um email, recebi estas fotos que quero partilhar com todos os que nos visitam neste blog. São fotos de extrema beleza, mas que mostram bem a dureza desta arte de pesca, a Arte Xávega. Pena é, já não ser possível ver nas nossas praias este tipo de pesca, utilizando somente a força do homem e dos animais. Aqui ficam as fotos.



Fotos da autoria de Cmendes.

sábado, 19 de março de 2011

Fortificações da Barra de Aveiro - 1


Forte da Barra
Quanto ao actual Forte da Barra, conhecido até 1830 como “Castelo da Gafanha” (8), não temos a certeza exacta da data da construção, sobre a qual existem algumas teorias. Parece-nos, todavia, mais consistente a teoria de que o Forte da Aveiro não deveria ter sido construído no principio do século XVIII, como defende Carlos Pereira Callixto (9), o que também é opinião de Marques Gomes porque “reinava grande miséria em Aveiro e arredores. A freguesia de S. Gonçalo tinha 170 fogos, dos quais somente 30 possuíam terras suas, sendo a restante população muito pobre e a freguesia da Vera Cruz contava 455, na sua maioria também muito pobres. A população de Aveiro que em 1658 era de 10 000 habitantes aproximadamente, descera em 1736 para 5 300 indivíduos” (10). De facto, com a barra fechada e a zona lagunar alagada e praticamente sem navegação costeira, não parece lógico nem crível que o rei D. João V (1706-1750) tivesse determinado quaisquer construções de carácter militar, pois, durante o seu reinado, Aveiro e arredores encontravam-se em franco declínio (11) devido ao assoreamento da barra que vinha a definhar desde finais do século XVI e a partir de 1685 não cessava de piorar. “De resto, D. João V nenhumas fortificações mandou construir na costa de Portugal, limitando-se a reedificar as já existentes, e como a construção dos fortes e fortalezas não era feita separadamente mas sim obedecendo a um plano geral, não é provável que o Forte da Aveiro tivesse sido principiado nos começos de século XVII (12). Ora, sabemos que desde os meados do século XVII, a barra de Aveiro estava situada ao sul da Vagueira (13), bastante longe daquele que é ainda o local onde existe o forte. Se nesse tempo, mercê de algum plano régio, se desejasse construir uma fortificação para defender a barra do Vouga, não seria por certo escolhido o local onde hoje vemos o forte, pois ficava a cerca de légua e meia da entrada da barra o que quer dizer que aqui não impedia a entrada de qualquer inimigo nem sequer alguém se poderia aperceber da sua passagem, já que a caminho de Aveiro não necessitava de passar nesse local. Como podemos, pois, admitir de ter sido o Forte de Aveiro construído nos princípios do século XVII?

Trabalho elaborado pelo Sr. Cardoso Ferreira sobre as Fortificações da Barra de Aveiro, e que foi publicado no Boletim nº 17 de Agosto de 1989 da ADERAV – Associação de Defesa e Estudo do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro. (Continua).
Notas Bibliográficas
8-João Viaera Resende . "Monografia da Gafanha". Pag.173.
9 e 12-Carlos Pereira Callixto, "Defesa Nacional", revista nº 285/286, Janeiro de 1958, Pg. 227.
10-Comandante Silvério Rocha e Cunha, "Relance da história económica de Aveiro". Pg. 27.
11-Diamantino Antunes do Amaral, "Coisas do Passado de Aveiro". Pg. 39.
13-João Gonçalves Gaspar, "Aveiro Notas históricas". Pg. 94.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia de Entrudo

Hoje é dia de Entrudo. Seria bom recordar o que aqui já foi escrito sobre o entrudo nas terras das Gafanhas. Vamos recordar aqui.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Infância 1

(Continuação)
O exemplo só serve para confirmar o muito que se passava para obter assistência médica.
Cada casal tinha em média seis a oito filhos. (…) Aos três anos começava a ajudar os pais: abana a canastra com o seu mais recente irmão, faz-lhe festas, põe-lhe na boca a chupeta e entretém-no enquanto a mãe ajuda o pai nas lides do campo. A mãe levanta-se cedo com o pai, recomendava o bebe ao filho e lá iam surribar a terra para batatas, cavá-la para semear milho ou apanhá-lo à foicinha para cascar…A partir dos seis anos já dava mais lucro que despesa. Descalço, de pila ao léu, com uma camisita de pano barato e um carapuço na cabeça, já tangia o boi ao engenho e desfazia lama na água, tomava conta da fogueira e preparava a comida do porco.
(….)
Mas era em casa que os pais iam, seguindo os hábitos tradicionais, educando religiosamente os filhos. A generalidade dos casais e com eles os filhos e os criados, se os havia, tiravam o chapéu e benziam-se antes de comer. Acabada a refeição levantavam-se, rezavam em Padre-Nosso e uma Avé-Maria, benziam-se e quase em uníssono pediam a bênção ao pai e à mãe, dizendo: “Bote-me a bença, Senhor Pai; bote-me a bença, Senhora Mãe”.
(…)
O nascimento do primeiro filho, não impedia a jovem mãe de acompanhar o marido nas lides do campo. De quando em vez vinha dar uma espreitadela. Quando julgava conveniente regressava para alimentar o bebé, cozinhar umas batatas com pele e peixe para o almoço do casal e dar de comer ao gado.
À tarde levava-o para a terra num berço ou canastra assistindo-o quando chorasse e dando-lhe mama. As mães jornaleiras faziam o mesmo sob os olhares compreensivos do patrão. Se já havia em casa um irmão mais velho ou criadita, era eles a quem se incumbia olhar pelo bebé que ia crescendo com o chilrear do passaredo, o cântico da irmãzita, ou o embalo da mãe. Quando maiorzitos, entretinham-se com outras crianças que acompanhavam as suas mães que prestavam serviço como jornaleiras ou a trocar tempo.
Cresciam com plantas do campo, observando os bezerritos a puxar o carro ou o arado e os pais a cuidarem de tudo. Lenta e paulatinamente iam-se familiarizando com os trabalhos do campo e adquirindo hábitos que perdurariam por toda ávida. Aos seis, sete anos já faziam jeito: acendiam o lume para cozer as batatas que a mãe deixava na panela antes de ir para o trabalho com o pai, desfaziam a lama para que a água não se perdesse pela regadeira, infiltrando-se no solo e tocavam o boi que puxava o engenho ou a carroça.
Entretidos no seio familiar só aos domingos à tarde lhes sobrava tempo que ocupavam com os amigos na procura de ninhos, nos jogos de bilharda e barra ou em disputadíssimos jogos de futebol com bolas de trapos.

Terrenos agricolas na Gafanha da Nazaré


Do livro "Gafanha da Boa Hora e o seu Povo" do Drº. Manuel Martins Costa.

Boas leituras.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Infância

Para complementar um pouco o que já aqui falamos sobre o baptismo na Gafanha, hoje irei transcrever o que o livro “Gafanha da Boa Hora e o seu povo” do Dr. Manuel Martins Costa, nos diz sobre a infância na Gafanha da Boa Hora, que não era muito diferente da nossa.
A infância
(…)
Tratam-nas com maneiras razoáveis para ganharem a sua confiança mas, não raras vezes usam meios severos e recorrem a castigos corporais, certos que o temor do castigo é o melhor remédio para desencorajar os filhos de práticas que os pais não desejam.
Também têm preocupações com a sua higiene e saúde física. Mas as suas carências e os afazeres múltiplos impedem uma eficaz assistência. Mas primam por lavá-los à noite e dar-lhes roupa limpa embora pobrezinha e com frequência, remendada. Numa grande panela aquecia-se água ao lume enquanto se ceava. Finda a ceia uns arrumavam a mesa, lavavam a bacia de comer e os garfos ou colheres, outros iam buscar o alguidar de barro vermelho envidraçado para lavagem das pernas. Recorde-se que todos andavam descalços e de calças arregaçadas, o que os obrigava a lavarem as pernas à noite. O pai era o primeiro seguido da mãe. Os filhos iam esperando pela sua vez sentados na pilheira e em redor do borralho. A ordem era pelos mais velhos. Só quando a água estava muito suja era despejada na estrumeira e substituída por outra limpa e quente. Se os filhos eram poucos lavavam-se todos na mesma água.
Só então se ia para a cama. As crianças pequenas eram lavadas no final pela mãe no mesmo alguidar mas em água morna e limpa. De manhã, ao levantar, lavava sempre a cara em água fria para auxiliar a despertar e recomeçar a azáfama da vida. Como não havia casa de banho os filhos, quando julgassem necessário e oportuno, iam à Ria tomar banho, nadar, lavar-se. A maior parte das vezes faziam-no quando da apanha do moliço, da lama ou da pesca. Isso não impedia a lavagem em casa de todo o corpo em água morna dentro de grandes bacias.
(…)
Os pais preocupavam-se com a doença dos filhos. Sofriam com eles e tudo tentavam para os curar. Recorriam a mezinhas caseiras, ao médico e em última instância, a bruxedo. De salientar que o recurso ao médico só tardiamente o faziam. A Gafanha, sem estradas e isolada de Vagos pelas dunas, sentia dificuldades tremendas para consultar um médico. (…) Recordo-me que, nos primeiros anos de trinta, um homem foi anavalhado numa daquelas rixas de copos. Os familiares atarantados e de poucos recursos, optam por o transportar de barco para Aveiro onde, já infectado, veio a falecer.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Indumentaria da Mulher da Gafanha 8

Sobre toda esta indumentaria usava-se o mantéu de fraldilha, espécie de opa sem abertura de passagem para os braços, e com tira de ourelo em chapa pela orla. Apoiado sobre os ombros em volta do pescoço, sobressaía por cima uma espécie de gola, bastante saliente, chamada o refego. Este refego era um pedaço da mesma teia de fraldilha, redobrado e repregado sobre si e cosido com fio de vela, terminando na frente por duas fitas castelhanas para segurar sobre os ombros. Ainda se usava em 1885.
Veio finalmente o capote de bom pano e com talhe igual ao do mantéu, mas muito mais comprido, chegando alguns quase ao tornozelo. Uma fita larga, de veludo, com arabescos ou lavrada em ramos, cobria em chapa a gola de bicos e as folhas pela frente e junto à orla.
Ainda se usava na mesma época a mantilha redonda, de pano fino, que se diferenciava do capote por ser muito mais curta, ter a gola redonda e a fita aplicada pela frente e pela orla, desguarnecida de qualquer arabescos, tendo também abaixo da orla uma farta laçaria de compridas fitas de veludo, enlaçadas e à mercê do vento. Estas duas peças de vestuário, o capote e a mantilha, ainda em uso em 1880.
Até esta época, era rara a mulher que usava qualquer calçado, a não ser os tamancos. Só por ocasião do casamento os pais lhe permitiam usar as chinelas, que eram o calçado próprio deste acto, e que depois era guardado religiosamente só para as festas mais solenes.
Nas festas usavam o lenço de bobinete e a camisa com abertura. Chamava-se à camisa que abotoava como a do homem, e como a dele terminava no pescoço com colarinho ao qual estava cosida uma renda larga que virava para baixo até chegar à abertura do colete. A abertura, ou melhor, a renda, era para compor, dizia-se. A manga da camisa com abertura terminava com frioleira pequenina (rendinha) e fechava no punho com botões de pano.
A camisa usual chamava-se camisa de borracha, cujas mangas chegavam ao cotovelo, tendo nos sovacos um quadrado de pano sobreposto, e internamente, sobre os ombros, tinham contra fortes. Na confecção não havia borracha, como o nome parece indicar. O colete demáscua (de damasco), em ramado a cores, tinha seis abotoaduras de prata e era usado nas festas com a camisa com abertura.

In "Monografia da Gafanha" do Padre João Vieira Rezende.
Boas Leituras
Até breve

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Cortejo dos Reis 1

Em jeito de rescaldo, aqui ficam as últimas fotos do Cortejo dos Reis 2011. De salientar, pela positiva, que este ano algumas pessoas atendendo ao pedido feito pelo nosso Pároco, procuraram trajar com o maior rigor possível. Aqui ficam algumas fotos e que para o ano seja ainda melhor.
Duas gerações de pastores

Duas Gafanhoas bem aprumadas.


O grupo das Cantoras.
Uma cara bem conhecida.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Actuação em Mindelo-Vila do Conde

Ontem dia 15 estivemos presentes , como anunciamos aqui neste blog, no VII Encontro de Cantares de Janeiras em Mindelo, Vila do Conde. Foi uma noite muito agradável, em que quem assistiu ao espectáculo foi presenteado com uma grande noite de tradições.
O Grupo anfitrião (Rancho Folclórico da Associação Cultural e Desportiva do Mindelo), fez um excelente trabalho de pesquisa e montou um brilhante cenário, em que representava uma cozinha antiga da região do Mindelo. Na representação era encenada uma chegada a casa da família que trabalhava no campo e na pesca no mar. Após uma pequena troca de palavras os grupos iam entrando em palco cantando as suas cantigas. Mais uma vez o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré apresentou os seus cantares de reis, recebendo da parte do publico que enchia por completo o salão do espectáculo uma grande ovação. Dos donos da casa recebemos além de vinho tinto quente com canela, umas rabanadas deliciosas, de comer e chorar por mais, uma chouriça e uma broa.
Um pequeno aspecto negativo, foi o facto de deixarem a troca de lembranças para o final, obrigando todos os grupos a aguardar. De qualquer modo estão de parabéns os nossos amigos do Mindelo.

Um aspecto da cozinha
A nossa actuação.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Indumentária da Mulher da Gafanha 7

Só muito tarde se usou a blusa, que nos primeiros tempos não existia. Havia a camisa de pano cru, que desempenhava as duas funções: era rematada no pescoço e nos punhos por pequenos colarinhos, que às vezes, quando de luxo, terminavam com adornos de rendas estreitas (bico de serra) e eram fechados por botões, tanto no pescoço como nos pulsos. Estes botões eram confecionados somente de pano, ou de tremoços cobertos de pano, sendo estes últimos muito inconvenientes por amolecerem e se desfazerem com a lavagem da felpa.
Sobre a camisa vestiam o colete, também de pano cru, e que era a ultima felpa exterior a cobrir o tronco. Para as festas, romarias, ou outros dias mais solenes, havia os coletes de draga ou luxo, confecionados nas fábricas, com ramagens ou adornos muito bizarros. Nos mais modestos empregavam botões simples ou atacadores; nos de droga aplicavam-se quatro ou cinco pares de grandes botões de prata, a que chamavam abotoaduras. Ainda estavam em uso em 1880.
Por motivo de pudor, usavam-se uns grandes lenços de cor, enramados, às vezes, e com franja ou cadilhos, cujas pontas pendentes do pescoço se cruzavam pela frente para se trilharem na cintura ou, quando eram de maiores dimensões, depois do cruzamento pela frente, iam atar-se, na cintura. Parecido com este, havia um outro lenço da cabeça de que não falámos atrás, ordinariamente de cache-nez, azul, e com franja de cadilhos, que mais tarde foi substituído por outro cor de carne, com cercadura branca.
Ainda a proteger o tronco, na época dos frios, usavam o Gibão, e por isso dispensavam o lenço do pescoço, por desnecessário na sua função de manter o recato que ficava a salvo com o uso do Gibão. Era esta peça de vestuário uma espécie de casaco de pano preto, que mal chegava à cintura, com mangas, botões, e guarnecido de fita preta. Usava-se em 1850. Era uma espécie de quinzena que os homens também usavam naquele tempo, embora com talhe diferente.
In "Monografia da Gafanha" do Padre João Vieira Rezende
Boas leituras
Até breve

sábado, 11 de dezembro de 2010

Indumentaria da Mulher da Gafanha 6

Gafanhoa com Mantéu
Cinta

Todos os tipos de cinta, até cerca de 1900, desciam até ao tornozelo aproximadamente, e sobre ela e pela cintura usavam à semana a cinta preta, com a qual, às vezes, e por comodidade, subiam a saia até meio da perna durante os trabalhos nos campos.
Aos domingos e dias de festa usavam a cinta roxa, azul, e ás vezes vermelha, com o nome da possuidora feito a torçal nas extremidades, não tendo outra função estas cintas senão ostentar luxo e beleza, e por isso só eram cingidas à cintura sem a apertar, caindo as duas pontas posteriormente até à orla da saia. Às pontas caídas chamavam o rabo da cinta. Os homens também usaram estas cintas. Ainda aparecem uma vez ou outra, quando as raparigas vão às romarias.

Lenço

Usaram-se os seguintes, que descrevemos pela ordem cronológica: lenço de bobinete branco, com flores por toda a extensão, que eram da mesma cor, ou em vermelho, e feitas no mesmo tecido; lenço branco de cassa, quase transparente; lenço roxo (de casamento e de festas); lenços de cáchiné, amarelo e azul com desenhos respectivamente em vermelho e verde, branco e preto, e com as cercaduras enramadas de rosas abertas e em botão (estes dois lenços tinham franja de cadilhos); lenço azul escuro com cercadura enramada de amarelo com cachos e flores, terminando nos ângulos com os ramos grandes dos cantos; lenço amarelo, em cuja cercadura a branco e preto estavam desenhados o cacho, a parra e o anel (gravinha); lenço cor de carne, liso, com cercadura branca em linhas rectas e largas (7 cent.) que se cruzavam e ultrapassavam nas extremidades, ressaltando um quadrilátero no campo de lenço; lenço de linhagem com quadrados ou, como diziam, quadros vermelhos em todo o campo da peça. Outros lenços se seguiram, de uso já recente.


In "Monografia da Gafanha" do Padre João Vieira Rezende.
Boas leituras
Até breve

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Indumentaria da Mulher da Gafanha 5

A SAIA (Continuação)
A seguir trouxe a moda a saia de baeta com fita de veludo a debruar para dentro. Ainda apareceu a seguir a interessante saia de viés, confeccionada de baeta ou outro pano qualquer e com liga de rolo, larga, a debruar na orla, de fora para dentro. O viés era uma fita larga (6 centímetros), de merino ou cetim, paralela à liga de rolo, e distanciada dela vinte a vinte e cinco centímetros.
E vamos fechar esta secção com a descrição do berrante saiote vermelho, que era as delícias das raparigas daquele tempo. Era urdido de baeta, espinhado (agora diríamos bordado) a pé de galinha ou a estrelas, com lã e a diferentes cores, com viés de veludo preto ou de algodão. Este saiote luzia ao longe! Era tentador, pelo que as donzelas muito gostavam dele. Mais tarde estes saiotes passaram a ser de flanela vermelha com duas fitas pretas, estreitas, pouco distanciadas entre si e afastadas da orla dez centímetros. Era vestido de luxo, usado somente ao domingo (domingueiro) para levar à capela, quer fosse de manhã à missa, quer de tarde ao terço, e ainda se levava ao pasto para o gado, à fonte, etc. Às romarias, ou aos passeios, ou mesmo às festas da vila ou da cidade,levavam a saia de viés preta, dobrada sobre o braço, que só vestiam por cima do saiote vermelho quando entravam nas povoações do seu destino, ou das romarias. Ainda estavam em uso em 1900.

In "Monografia da Gafanha" do Padre João Vieira Rezende.
Boas leituras
Até breve

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